Leopoldo Vaz, IHGM / ALL / APB / CEV. PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA / MESTRE EM CIENCIA DA INFORMAÇÃO:
DA MALUTA AÇORIANA AO UFC: AS RAÍZES POPULARES DAS LUTAS NO MARANHÃO
“No Maranhão, o corpo indígena, o corpo negro e o corpo europeu não se anulam: eles se encontram, negociam e produzem novas formas de movimento.”
“A luta que chega da Europa só sobrevive no Maranhão porque aprende a dialogar com o corpo indígena e com a herança africana.”
“O Tarracá não é cópia da luta europeia; é criação maranhense, mestiça, ensinada por índios e negros como brincadeira de força e corpo.”
“Quando Rei Zulu entra no ringue, entra também uma história corporal indígena, africana e europeia que o octógono não apaga.”
OS CARIJÓS, A CAPOEIRAGEM, A GALHOFA, O TARRACÁ, O JIU‑JITSU E O MMA: UMA HISTÓRIA DO CORPO EM COMBATE NO BRASIL
Resumo
O presente trabalho analisa a formação histórica das práticas corporais de combate no Brasil, articulando povos indígenas do tronco Tupi‑Guarani (especialmente os Carijós), a colonização açoriana no Sul do país, a capoeiragem tradicional maranhense, as lutas populares de agarramento (Galhofa/Maluta e Tarracá), a introdução do jiu‑jitsu e sua institucionalização pela Marinha brasileira, culminando no Vale‑Tudo e no MMA contemporâneo. Com base em estudos etno‑históricos e, principalmente, na produção intelectual de Leopoldo Gil Dúlcio Vaz, o texto demonstra que o MMA não representa ruptura com o passado, mas sim a síntese histórica de práticas corporais ancestrais, populares e marginais, frequentemente invisibilizadas pela historiografia oficial.
Palavras‑chave: Carijós. Capoeiragem maranhense. Tarracá. Galhofa. Jiu‑jitsu. MMA.
1 Introdução
A história do esporte e das lutas no Brasil foi, por muito tempo, explicada a partir de uma perspectiva eurocêntrica, que privilegia a institucionalização moderna das práticas corporais. Tal abordagem desconsidera as manifestações indígenas, africanas e populares que antecedem a escola, o Estado e os clubes esportivos.
Este estudo propõe uma leitura ampliada da história do corpo em combate no Brasil, destacando o Maranhão e o Sul do país como territórios fundadores da cultura corporal nacional.
2 Os Carijós e a base indígena do corpo em combate
Os Carijós, povos indígenas do tronco Tupi‑Guarani, habitaram extensivamente o litoral meridional do Brasil, incluindo Santa Catarina e o Paraná. Sua vida cotidiana estruturava‑se a partir de uma cosmovisão integrada, na qual corpo, trabalho, ritual e lúdico eram indissociáveis.
As práticas corporais carijós envolviam deslocamentos longos, resistência física, contato corporal e jogos implícitos à socialização comunitária, configurando uma verdadeira educação física indígena tradicional, anterior à colonização.
3 Colonização açoriana, Galhofa e mestiçagem corporal
A colonização açoriana do litoral sul brasileiro ocorreu sobre territórios carijós. Os açorianos transplantaram para essa região práticas corporais rurais portuguesas, entre elas a Galhofa (ou Maluta), luta de agarramento baseada em projeções e imobilizações.
Essa luta europeia foi assimilada e ressignificada em contato com corpos indígenas já treinados por práticas próprias, dando origem a uma mestiçagem corporal que marca a cultura do Sul do Brasil.
4 O Maranhão: Tarracá e capoeiragem tradicional
No Maranhão, processo histórico semelhante deu origem ao Tarracá, luta de agarramento praticada de forma comunitária, e à capoeiragem tradicional maranhense, identificada nos registros históricos como capoeira ou “carioca”.
Conforme demonstrado por Leopoldo Gil Dúlcio Vaz, a capoeiragem maranhense é tão antiga quanto a carioca e a baiana, assumindo caráter eminentemente combativo e popular, associado a portos, quilombos e periferias urbanas.
5 Jiu‑jitsu no Maranhão, Aluísio Azevedo e a Marinha brasileira
Os estudos de Vaz indicam que o jiu‑jitsu é conhecido no Maranhão antes mesmo de sua difusão no Pará, por intermédio de Aluísio Azevedo, durante seu período como cônsul no Japão. Posteriormente, a Marinha brasileira tentou institucionalizar o jiu‑jitsu como técnica oficial de defesa pessoal.
Essa escolha ocorreu em detrimento da capoeiragem, prática já difundida entre marinheiros e trabalhadores, mas considerada indesejável por razões políticas, raciais e morais.
6 Do Vale‑Tudo ao MMA: Zulu × Gracie
O Vale‑Tudo surge como espaço moderno de reencontro dessas tradições. O confronto histórico Rei Zulu × Rickson Gracie, em 1980, representa o embate simbólico entre o combate popular brasileiro (Tarracá, capoeiragem) e o jiu‑jitsu sistematizado.
O MMA contemporâneo consolida esse reencontro como síntese histórica de tradições corporais ancestrais.
7 Conclusão
A análise evidencia que o MMA não é fenômeno recente ou importado, mas resultante de longos processos históricos. Carijós, açorianos, africanos e populações urbanas populares construíram, ao longo dos séculos, uma cultura corporal rica, híbrida e resistente.
Reconhecer essa trajetória significa reposicionar o Maranhão e o Sul do Brasil como fundamentos da história do esporte, das lutas e da Educação Física brasileira.
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Referências
VAZ, Leopoldo Gil Dúlcio. Notas sobre a capoeiragem em São Luís do Maranhão. Centro Esportivo Virtual, 2016.
VAZ, Leopoldo Gil Dúlcio. Capoeira no/do Maranhão: uma história/memória contraditória. Centro Esportivo Virtual, s.d.
VAZ, Leopoldo Gil Dúlcio. Tarracá: jogo/luta – mais uma manifestação da lúdica e do movimento do Maranhão. Centro Esportivo Virtual, 2011.
VAZ, Leopoldo Gil Dúlcio. A Marinha e a capoeiragem. Revista Navigator, v. 12, n. 23, 2016.
MÜLLER JÚNIOR, I. L.; CAPRARO, A. M. ‘Rei Zulu’, um showman do vale‑tudo brasileiro. Revista de Artes Marciales Asiáticas, v. 18, n. 2, 2023.

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