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Edmilson Sanches presta homenagem ao inesquecível Arthur Almada Lima Filho

25/10/2021 às 21h33
Por: Mhario Lincoln
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92 anos e 10 dias

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ARTHUR ALMADA LIMA FILHO

Vítima de problemas cardiorrespiratórios, faleceu em São Luís, próximo às 5h da manhã de hoje, 27 de outubro de 2021. Arhur Almada Lima Filho, desembargador, educador, escritor, pesquisador da História e Cultura caxienses, fundador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Caxias. Deixa cinco filhos e nove netos e viúva (em segundas núpcias), a professora universitária Antônia Miramar Alves Silva (UEMA). 

 

Arthur Almada Lima Filho nasceu em em Caxias (MA), em 17 de outubro de 1929. O corpo será cremado, atendendo a desejo pessoal manifestado há muito tempo. As cinzas, atendendo também a pedido, serão lançadas no Morro do Araim, próximo à BR-316, em Caxias, em data ainda a ser confirmada. Esse morro é local onde, na infância, Arthur Almada e irmãos brincavam.

EDMILSON SANCHES 

Diretor do IHGC, Instituto Histórico e Geográfico de Caxias

 

Abaixo, Edmilson Sanches escreveu sobre o aniversário do Dr. Arthur, ocorrido dia 17 de outubro pp.

EDMILSON SANCHES

[email protected]

Administração - Comunicação - Desenvolvimento - História – Literatura // PALESTRAS, CURSOS, CONSULTORIA

 

ARTHUR ALMADA LIMA FILHO, O HOMEM ACUSADO EM INQUÉRITO POLICIAL-MILITAR DE SER “INVULGARMENTE CULTO” E “PERIGOSAMENTE INTELIGENTE”, COMPLETA 92 ANOS

Hospitais não são, à primeira vista, os ambientes mais adequados para completarem-se anos.

Mas completar anos tem a ver com vida --- e a vida, apesar de tudo, deve ser sempre motivo de celebração. Inclusive, senão especialmente, em um hospital.

Aniversariar é ampliar nosso testemunho do tempo  -- o passado, que inapelavelmente habita em nós, e o futuro, no qual esperançamos existir (e, para isto, no presente, resistir).

Neste 17 de outubro de 2021, em um leito de hospital em São Luís  --  onde se recupera de “sustos” de uma bronquite e de algumas fraturas de menor gravidade em ossos da bacia (quadril) –, o ser humano Arthur Almada Lima Filho recebe de filhos, irmãos, netos e outros familiares o melhor presente de todos: carinho e cuidados. No rosto e coração de cada um, algo de alegre e muito de gratidão pelo enfrentamento e transição – mais uma --  que Arthur está fazendo, ultrapassando momentos de compreensível apreensão em sua saúde.

Em 92 anos, enfrentamento, em Arthur Almada Lima Filho, não é situação incomum  --  como, de resto, não o é para a maioria dos (sobre)viventes. Mas cada um tem suas próprias situações incomuns. Uma destas, especialmente tensa, materializou-se contra Arthur Almada na forma de um Inquérito Policial-Militar (IPM), quando na época o destemido caxiense era um intimorato juiz de Direito em São Luís. Ele chegou a ser ameaçado de morte “a pauladas”. 

O crime do magistrado Arthur é qualificado no disparatado relatório do destrambelhado Inquérito: o caxiense, entre outras coisas, foi tido como “invulgarmente culto e perigosamente inteligente”. Achando pouco, o relatório junta a esses polissilábicos advérbios mais um: Arthur Almada também era  “diabolicamente maquiavélico”. Com sete, onze e treze sílabas, essas expressões, mais as ameaças de morte, materializaram vocabularmente o momento ao mesmo tempo de maior risco de vida e, paradoxalmente, de maior orgulho pessoal, profissional, cívico, do cidadão e do homem da Lei e da Justiça Arthur Almada.

Sabendo do perigo gravíssimo e iminente, Arthur Almada, com sadia indignação, enfrentou o “establishment” com a arma de que dispunha: o poder da palavra  --  que sempre será maior que a palavra do Poder (qualquer que seja este na sociedade, democrática ou ditatorial).

É esse ímpeto, assomo, impulso, veemência, vitalidade que (re)energiza uma pessoa. Que a conduz com ardor contra o que é flagrantemente inaceitável. Que, a despeito de óbvias desvantagens, traz entusiasmo a homens e mulheres, os quais não querem nem saber o que mais adiante vão enfrentar e assim se colocam com flores frente a corpulentos soldados e franzinamente frente a tanques blindados.

Atos assim são especiais “ritos de passagem” ou confirmação do que, em estado de latência, vivia / vive em cada pessoa: o não se vergar ao injusto, o não permitir a injustiça, o não ceder a toga à arma...

Naqueles idos em que estava prestes a ir para a cadeia pelo enfrentamento, Arthur Almada não era só um homem só; era também um nome, coletivo  --  da família, sobretudo, do pai, que o legou para o filho. Nome é tudo. É o que é mesmo quando deixamos de ser. É o que permanece mesmo quando deixamos de permanecer.

O notável Johann Wolfgang von Goethe, chateado com seu amigo e influenciador Johann Gottfried von Herder (que compusera um epigrama relacionado ao nome do grande polímata alemão), escreveu (resumo e reescrevo de memória) que o nome de um homem não é uma capa, mas uma pele: a capa se põe e se tira, se amarrota e se rasga; mas, a pele, ela se ajusta ao homem e passa a ser ele, e o que nela de inconforme ou agressivo se fizer, a ela, pele, se ferirá. E nome é para ser respeitado  --  não ferido.

Para Arthur Almada, é quase certo que a saúde do nome é tão ou mais importante que a salubridade do corpo. E ele cuida bem dos dois... Afinal, como pesquisador diligente e gestor competente, ele tem um mister a desempenhar e mistérios a decifrar. 

Tem mais obras a inaugurar, mais livros a escrever, mais lugares para visitar, mais amigos para rever... 

Tem mais conversas para conversar, mais breves graças para contar, mais livros para ler, mais versos para declamar... 

Tem mais Francês para falar, mais Latim para citar, mais Português para bem cuidar, mais lições para dar... 

Tem mais o Belo para apreciar, tem o Tempo para aprender, tem mais que realizar, tem mais  --  muito mais --  para viver...  

Arthur, pelo visto, ainda tem muito que fazer  --  e, se não tivesse, iria procurar... 

Depois, muito depois, terá a Eternidade para descansar...

Neste dia 17 de outubro de 2021, Arthur Almada, em franca recuperação, terá em hospital a visita de familiares. Ele os receberá a todos e, quiçá, com as devidas precauções sanitárias, talvez receba amigos também. Afinal, a hospitalização do Arthur não adoeceu a hospitalidade dele... 

Neste 17 de outubro, nem 8 nem 80  --  90, e 2. Como se diz, só boas coisas  --  e boas gentes --  duram tanto...

Que nesta data Arthur Almada renove com saúde e alegria seu Contrato com a Vida.

Por muitos e muitos anos.

Amém, Amigo.

E como se diz nos brindes: Saúde!

25.10.2021

 

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