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Quando a mudança para outro estado é inevitável e ficam só dois pra trás...

15/09/2022 às 12h23
Por: Mhario Lincoln
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SÓ NÓS DOIS

Resumo do livro de Roger Dagerre

Era uma vez uma família de classe alta, que morava no município de Presidente Juscelino, no Maranhão. Por falta de progresso, a dona da casa, Sra. Nância, mesmo sem o apoio de seu esposo, resolveu se mudar para São Paulo, para morar em um apartamento triplex, condomínio Niamohar, com 4 dormitórios, piscina, sauna, salão de festas, área gourmet, churrasqueira, salão de jogos, academia, área para crossfit, brinquedoteca e playground, com 195 m2 e a 350 metros do metrô Vila Madalena.

A empresa de mudanças chegou e os trabalhadores começaram a carregar os móveis, que estavam bem embalados, afinal, era uma mudança com um percurso de mais de 2.910 quilômetros, passando pelos estados do Tocantins e Goiás.

O chefe de família e dono da casa, Sr. Gerro, única pessoa tranquila da família, estava sentado confortavelmente em sua cadeira de balanço, ao lado do seu fiel cachorro “Rex”, uma mistura das raças Pastor-alemão e Border Collie. Ele que insistia pedindo calma, mas não adiantava, porque a esposa, os filhos e os netos estavam ansiosos para acomodar os móveis, já que naquele mesmo dia, no início da tarde, programaram uma viajar para São Luís, porque tinham reservas no voo com destino a São Paulo.

Sr. Gerro era casado com dona Nância, e tiveram três filhos: Sancler, Nala e Siana. Depois vieram os netos: João Pedro, que estuda em Londres, Maria Júlia e o caçula, Milson.

Um dos trabalhadores da empresa de mudanças se aproximou do dono da casa e perguntou:

- Essa cadeira não vai também?

- Não! Nem a cadeira nem eu e nem o meu cão.

- Por que não vão?

- Porque alguém tem que ficar para vigiar a casa. Eles vão levar só o necessário. Vai ficar muita coisa de valor aqui.

O empregado agradeceu e foi ajudar os demais carregadores.

Logo depois, foi a vez do neto Milson:

- Vô! Minha avó não quer levar o meu guarda-roupa. Tem bastante espaço no caminhão...

- Não adianta ter vaga no caminhão, se não tem espaço no apartamento. São 4 quartos: um para a sua avó, outro para Nala, um para você e outro para sua prima Maria Júlia...

- E Sancler e Siana?

- Cada um comprou um apartamento próximo de onde vocês vão morar. Eles são independentes.

- Vô! Meu guarda-roupa tem muita coisa de valor. Ela disse que não posso levar nem metade das coisas...

- Não se preocupe. Fico vigiando.

- Como o vô vai tomar conta do meu guarda-roupa, se o senhor é cego?

- Sou cego, mas não sou bobo. Posso vigiar com o tato e com os olhos de Rex. Ele é muito bom nisso. Ninguém irá se aproximar de nossa propriedade sem que ele perceba. Pode ir tranquilo, pois o seu guarda-roupa e tudo que não for para o apartamento ficarão protegidos.

Naquele momento, o trabalhador da empresa de mudanças perguntou para Sra. Nância se já poderiam seguir a viagem. Ela pediu para esperar mais um pouco e foi falar com o seu esposo, interrompendo a conversa do avô com o neto:

- Com licença! Tem certeza que não quer ir mesmo?

- Tenho! O cachorro Rex irá cuidar de mim e eu cuidarei dele. Milson quer levar o guarda-roupa dele...

- Não tem condição.

Milson fez cara de choro, mas ficou em silêncio.

Nância se aproximou do responsável pela mudança e disse que já poderiam seguir a viagem. E Voltou-se novamente para o seu esposo, e disse:

- Já estamos indo também.

- Não vão almoçar aqui?

- Não! Vamos fazer um lanche no aeroporto, pois precisamos desocupar os dois automóveis para entregarmos ao caminhão cegonha que irá transportar os veículos.

- Não estava combinado vendê-los...

- Sim! Mas como não apareceu uma boa proposta, vamos economizar transportando-os...

- Se vendêssemos esses usados e comprássemos outros novos, não seria mais econômico? Você sabe que veículo usado precisa de assistência.

- Novo também.

- Não tanto.

- Agora não tem como mudar. E já vamos para não nos atrasarmos. Fica com o Rex e com Deus – disse Sra. Nância, puxando o neto pelo braço. Mesmo assim, ainda deu tempo de Milson dizer tchau e de desejar felicidades ao avô!

- Vão com Deus – disse Gerro com voz desanimada, pois Nância e o neto foram os únicos que vieram se despedir.

Quando o caminhão deu partida, Sr. Gerro ficou acenando em sua direção, e o funcionário, que tinha conversado com ele, nem percebeu que a pessoa com quem ele falou era cega. Talvez por distração ou porque o Sr. Gerro disfarça muito bem. Quem não o conhece acha impossível que um velho cego, na companhia apenas de um cão, possa sobreviver normalmente, mas a família sabe que ele é independente em tudo. Desde que ficou cego, nunca aceitou ajuda de ninguém, exceto do cachorro, que há muito tempo o serve como um cuidador de humano. Foi por isso que a esposa se despediu sem preocupação. Mas não era para ser assim, porque não é justo abandonar um velho que lutou a vida toda para dar o melhor à esposa, aos filhos e aos netos. Era ele quem sempre faria a alimentação, e nunca ninguém reclamou. A fazenda sempre foi produtiva, até ele se aposentar. Também parou de cuidar das plantações por problemas de saúde. Quando o médico descobriu que ele tinha câncer de córneas, do tipo hereditário, só parou de trabalhar por insistência dos familiares, pois se dependesse dele, ainda estaria produzindo.

- Pronto, Rex! Vamos começar a limpeza. Essa mudança deixou a casa toda desorganizada – o cão latiu e balançou o rabo como se estivesse entendendo.

Gerro, andando devagar, quase que arrastando os pés, foi encontrando objetos espalhados pela casa e, com a ajuda do cão, foi colocando tudo em seus lugares. Rex empurrava coisas leves, usando o nariz. Os objetos pesados o dono da casa tomava a iniciativa de arrumar, sempre sob o olhar vigilante do cão, que mesmo não podendo ajudar, fazia questão de acompanhar e, às vezes, até colocava uma pata sobre o que estava sendo carregado. Os objetos em seus devidos lugares facilitavam que Gerro encontrasse tudo usando o tato e olfato. Já era a hora do almoço quando finalmente fizeram uma pausa. Gerro colocou a refeição para esquentar um pouco e afastou o sofá, de um lugar apenas, para ficar próximo à mesa. Aquele dia seria a primeira vez que o cachorro Rex faria a refeição com as patas sobre a mesa. Era um desejo antigo, pois ele sempre se aproximava e colocava uma pata sobre a mesa, mas sempre alguém da família o mandava descer. Daquele dia em diante, Rex estava autorizado a subir no sofá, apoiando as patas da frente sobre a mesa, e até a comer como um humano, na verdade, como uma criança, pois derramou a ração mais que comeu. Sr. Gerro, já imaginava, mas aquilo, além de um gesto carinhoso, Rex era uma companhia na mesa, pois fazer a refeição sozinho era um tanto deprimente para ele.

Assim que terminaram, Sr. Gerro vestiu o avental e começou a lavar as louças cantando a música “Smile”, melodia de Charles Chaplin. Rex deitou-se de bruços, com as patas estendidas para frente e a cabeça levantada, muito bem-comportado, ouvindo o seu dono cantar. Era uma interpretação desafinada, mas a beleza da música cobria os defeitos musicais do intérprete. O cachorro estava tão quieto, que parecia um espectador apreciando a sinfonia de Beethoven. E assim permaneceram até Gerro terminar de lavar a louça do almoço.

Durante a tarde, ficaram ouvindo a novela “A interiorana”, da rádio “Nap”, programação que Sr. Gerro e Rex adoravam. O cachorro ficava quieto e, vez ou outra balançava o rabo. Era uma novela de amor, emoção, devoção e humor. Sr. Gerro se divertia e até ficava comentando quando discordava de algum personagem. Falava sozinho, verdade, mas o cão balançava o rabo como se estivesse entendendo.

Foi quando recebeu uma mensagem de voz avisando que, naquele momento, a família já estava no avião que decolou às 15 horas. Gerro só ouviu, mas permaneceu concentrado no capítulo da novela. No enredo, havia um personagem, de nome Decival, que vivia caçando no matagal e se desligava das redes sociais. Quando retornava, ficava procurando saber das novidades do capítulo do dia. Era a namorada dele, que lhe contava as novidades durante a sua ausência. Isso incomodava Gerro, porque ele achava desnecessário. Era o caçador que devia procurar se atualizar, e não ficar dependendo da namorada...

 

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Roger da Gama RochaHá 4 anos São José de Ribamar -MaObrigado, Mestre! A sua capacidade para transformar o simples em belo é impressionante. Parabéns!
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