*Mhario Lincoln
Passam das 14 horas. Até este instante não consegui escrever uma só linha sobre a tua ausência neste primeiro dia do ano, aqui, ao meu lado. Isso me fez esquecer meus delírios anteriores, a minha contumaz maneira de buscar a tua volta.
Não! Acho que não vou te escrever, porque junto com aquela vontade, vibram em meus ouvidos tuas palavras de escárnio: " ...que celulite! Essa merda de cílios postiços te fazem parecer uma bruxa! Tira essa saia, não pode ser usada por quem é mãe de meu filho. Penteia esses cabelos. Para de me chamar para sentar à mesa. Que voz enfadonha! Nem sabe mais abraçar. Parece que tem medo. Já disse, some da minha vista. Não enche, estou no telefone com meu amigo. Não atrapalha, já disse. Por favor, não me toca. Hoje o trabalho foi puxado e eu estou cansado. Tenho outra reunião às sete...".
Hoje, 01.01, meio da tarde. Estou em frente à minha velha máquina de escrever e decidi entrar o ano de forma diferente. Não devo mais ficar próximo das pessoas que me intoxicam, poluem a minha forma de viver. Perdi um tempão chorando, pensando, condenando, sofrendo por um amor insofrível. Está na hora de olhar a vastidão do meu conceito pessoal e acreditar que meu coração é meu. Vou me amar mais, ser mais paciente comigo mesmo. Só eu sei o que sou e como sou. Tentar ser feliz, sendo apenas feliz.
Essa é a razão de não ter sequer vontade de bater em nenhuma letra, mesmo porque o ano passado foi monstruoso e decepcionante.
Tudo acreditando nesse amor, na tua presença mais vezes ao meu lado. De repente, o futebol, a mesa dos bares, os amigos, as saídas com amigas da tua irmã, as idas para cidadezinhas do interior para relaxar, os shows dos teus ídolos, sempre acompanhado de pessoas solteiras. Até mesmo a sorveteria onde nos conhecemos, há tempos, nunca mais fui contigo.
Agora, acabo de colocar uma nova folha na máquina. E amassei a anterior, sem nada escrito. Continuo sozinha em meu quarto. Estou chorando copiosamente. Sou sensível.
Minha filha vem em meu pensamento e me dá forças para escrever uma só frase, que tu vai ler amanhã, se voltar pra casa.
A máquina de escrever que tu me tomaste, estará no meio da mesa e no papel, uma só palavra, que consegui escrever com as últimas forças do meu coração, em maiúsculas.
......
Então, ela bateu a porta atrás dela e foi tomar o sorvete de ameixa que tanto gosta. Desta vez, com visível felicidade por ter conseguido tanta coragem para escrever na folha branca da máquina: FIM.

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