(Autor: Osmarosman Aedo)
Não
Eu não tive oportunidade de viver uma infância como, talvez, qualquer criança de seus dias, porque meus pais queriam que eu fosse mais além...
Não
Eu não pude sentar-me aos pés de minha avó para ouvir seus relatos históricos, porque ela queria que eu orgulhasse a família...
Não
Eu não tentei estudar mais para ser o “alguém” de meus pais, cuja sociedade ignorou até os dias de suas idas, porque, para ser alguém, na época em que alguém ainda era, comecei a trabalhar para ajudar no sustento da família...
Não
Eu não abracei causas ou ideais que distorcessem ou mesmo desviassem o caminho que a necessidade havia traçado sem risco de perdas, porque, por respeito aos meus pais, alguém seria eu, me desdobrando para “ganhar algum” de alguém.
Não
Eu não tive privilégios, muito menos portas abertas para futurar com rapidez meu futuro — tão incerto como meus dias — porque não tinha tempo para pensar em acordar amanhã... Só sei que dormia e, pronto, lá estava de pé novamente!
Não
Eu não tenho fotos de infância, nem de família, nem de amigos, nem de quando conheci Belchior, Roberto Carlos, Xuxa, Chico Anísio, Leci Brandão, entre outros, nem de amores que me transbordavam de sentimentos, porque era privado de afortunidades que pudessem registrar melhor minha trajetória, para que hoje eu não tivesse dúvidas em reescrever minha história...
Não
Eu não tenho tanta certeza de que ontem eu vivi minhas mudanças de estação com a mesma sobriedade, de que me vale agora, hoje, nesses dias tão temerosos que não conheci quando minha infância me acuava nas esquinas, exigindo que eu me despisse de incertezas para que me curvasse às intempéries dos tempos áureos em que tinha a proteção dos meus pais...
Não
Eu não tenho arrependimentos que possam consumir minhas lembranças ao ponto de reivindicar explicações do porquê nunca estive num banco de praça colhendo estrelas à noite, nem do porquê nunca tomei banho de luar com tantas luas que por mim já passaram...
Não
Eu não carrego negatividade, mesmo que meu passado (sei nem se já passou), quando em vez, me cobre um posicionamento singular de tudo o que foi plural e que não soube, mesmo depois de, ao sol a fio, plantar e colher o que seria, para o agora, o quadro na parede representando os dígitos de minhas conquistas...
Não
Eu nunca abandonei meus princípios para aventurar-me ao desconhecido, mesmo porque escalar montanhas com os olhos é meu esporte favorito... Nisso ninguém me supera.
Não
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(Foto abaixo, original do texto).

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