Raimundo Campos Filho (UFMA) & Renata Barcellos, autores.
Este ano de 2026, a escola de samba Dragões da Real traz o enredo "Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência" para o Carnaval de São Paulo. Com este tema, mergulha na “mitologia” amazônica para exaltar a força feminina e a preservação ambiental. Almejando seu título inédito, desfilou como a terceira escola na sexta-feira (13/02/2026), no Sambódromo do Anhembi. Para nós (Raimundo e Renata) foi uma grata surpresa. Desde antes da pandemia, pesquisamos estas mulheres guerreiras. E com a leitura de matérias, artigos, dissertações, teses e entrevista a pesquisadores, é fato que não se trata de lenda. Como a história da mulher no mundo é contraditória, a das guerreiras não é diferente. Desde o início das civilizações (transição da pré-história - período neolítico - para a Idade Antiga, ocorreu aproximadamente a partir de 4000 a.C. a 3500 a.C..), sabemos que havia as mulheres chefes de tribos, líderes de seu povoado... Exemplos na Angola, África, Rainha Nzinga Mbandi, Kimpa Vita entre outras. No Sul de Angola e ao Norte da Namíbia, a tribo Hambi. E, no Brasil, as Icamiabas (do tupi i + kama + îaba, significando "peito partido") conhecidas como amazonas. A existência destas já foi comprovada pelos antropólogos e também por arqueólogos há 4.000 anos, na Eurásia (próximo ao Mar Negro/Armênia) e na Rússia (Scythia) há 2.500 anos. Isso comprova que os mitos gregos foram baseados em pessoas reais.
Assim, ao longo da história, conhecemos sociedades lideradas por mulheres desde a Antiguidade até a contemporaneidade (exemplo: aldeias contemporâneas africanas lideradas exclusivamente por mulheres são exemplos notáveis de resistência ao patriarcado, focadas em criar refúgios seguros para sobreviventes de violência de gênero, casamentos forçados e mutilação genital feminina. O exemplo mais famoso e estruturado é a Aldeia Umoja - Umoja Uaso Women Group), localizada no Quênia). Logo, as Amazonas e as Icamiabas são mito?
Detalhes do Enredo e Desfile (2026):
Enredo: explora a lenda das guerreiras Icamiabas, mulheres fortes que defendiam a floresta, focando na resistência indígena e na ancestralidade. Assim, a escola contará a história de resistência no contato com os navegantes espanhóis de uma sociedade matriarcal encontrada nas margens do rio Amazonas, hoje, rio Nhamundá, da cidade de mesmo nome, no estado do Amazonas, próxima a cidade de Parintins.
Carnavalesco: Jorge Freitas, que busca o primeiro título da escola no grupo especial com um desfile de impacto social e cultural.
Samba-Enredo: os compositores são Renne Campos, Márcio Biju e Alemão do Pandeiro. O intérprete é Renê Sobral.
Destaques: a escola aposta no enredo para destacar o protagonismo feminino, com a rainha de bateria Karine Grum.
LETRA "Guerreiras Icamiabas: Uma Lendária História de Força e Resistência" (compositores são: Renne Campos, Márcio Biju e Alemão do Pandeiro).
“YBYPIRAHY, Fertilidade
A raiz da liberdade
Que nasceu pra Resistir
Lendas e mistérios, Pajelança, maracás
Dança, sobre as Águas, Deusa do Nhamundá
Iara Ê… Iara!
Dos muiraquitãs, Encantaria
A bravura que Renasce
No raiar de um novo Dia...”
Algumas informações sobre as Icamiabas:
Lenda vs. Relatos: conhecidas como "mulheres sem marido", estima-se que havia cerca de 70 tribos nos quais elas viviam em uma sociedade sem homens, na região do rio Nhamundá. Elas guerreavam e cultuavam a lua. Uma vez por ano, uniam-se aos Guacaris para procriação. Da união, se nascessem mulheres, ficavam na tribo; meninos eram devolvidos ou entregues aos pais. A denominação Amazonas surgiu quando, em 1542, no Brasil, o Frei GASPAR DE CARVAJAL (escrivão da frota espanhola de FRANCISCO ORELLANA) encontrou as mulheres guerreiras, tendo sido por elas atacado. O ataque foi tão violento que o frade escriba confundiu-se com o mito GREGO das Amazonas. Segundo relato de Francisco Orellana, elas eram jovens altas, belicosas e andavam completamente nuas, portando arco e a flecha e habitavam casas de pedra e tinham metais preciosos. Em confronto com as guerreiras, os espanhóis foram derrotados neste conflito. Devido a isso, Francisco Orellana passou a chamar este local de RIO AMAZONAS e com a Divisão do Grão-Pará, a parte ocidental recebeu o nome de Amazonas em 1850.
Arqueologia e o Muiraquitã: os arqueólogos associam a lenda à produção de muiraquitãs — pequenos amuletos em forma de sapo, feitos de pedra verde (nefrita). A lenda diz que as Icamiabas esculpiam esses amuletos a partir de um barro do "lago do espelho da lua" e os presenteavam aos homens com quem se relacionavam.
Povos Reais e Território: estudos arqueológicos indicam que a região dos rios Nhamundá, Trombetas e Tapajós era habitada por grupos como os Tapajó e Konduri. A presença de artefatos refinados e a organização social dessas populações no passado reforçam, arqueologicamente, a complexidade cultural relatada no mito das Icamiabas.
Resistência e Matriarcado: arqueólogos e antropólogos que estudam a região destacam que, independentemente da veracidade literal do mito de uma tribo composta apenas por mulheres, a figura das Icamiabas simboliza a resistência da mulher indígena na Amazônia e uma estrutura matriarcal ou matrilinear forte na região.
Sítios Arqueológicos na Amazônia: com mais de 6 mil sítios arqueológicos cadastrados na Amazônia Legal, os pesquisadores revelam que a região foi densamente povoada, com solos férteis ("terra preta") modificados pelos indígenas, sugerindo que sociedades complexas existiam muito antes da chegada dos europeus.
Em resumo, os arqueólogos descobriram uma civilização amazônica antiga com forte papel feminino, produção de amuletos raros (muiraquitãs) e organização social complexa, que deram base à lenda das Icamiabas. Vale destacar que para abordar a temática indígena e a valorização da cultura nativa, Gonçalves Dias (principal representante do indianismo na primeira geração romântica brasileira) mencionou estas mulheres guerreiras na obra Meditação. Esta é fruto de suas viagens ao Amazonas (especialmente próximo ao Rio Negro), como pesquisador e poeta maranhense, registrou costumes, línguas e lendas locais. E outro autor a citá-las foi Mario de Andrade em “Carta pras icamiabas”, capítulo IX de Macunaíma. Nesta, satiriza a "civilização" urbana, marcando um momento de transformação linguística do herói.
Na mitologia grega, as guerreiras Amazonas eram filhas de Ares, o deus da Guerra. Acreditava-se que residiam no limite do que os gregos consideravam seu mundo ‘civilizado’. Eram mais frequentemente associadas à área ao redor da costa sul do Mar Negro, particularmente à cidade-estado de Temiscira. E, de acordo com Heródoto, elas viviam na região da fronteira da Cítia, na Sarmácia. Arqueólogos concluíram que elas poderiam ter sido mulheres amazonas que viveram há 4.000 anos. Essas mulheres temíveis eram famosas por sua sociedade sem homens e por sua destreza no campo de batalha, particularmente com arco e flecha. Eram conhecidas pela equitação, arquearia e combates contra heróis gregos.
O poeta da Grécia Antiga Homero (viveu entre os séculos VIII e VII a.C.), autor do texto Ilíada, um clássico grego, mencionou as Amazonas. Finalizamos com um fragmento de Carta pras icamiabas, do modernista Mario de Andrade: “Às mui queridas súbditas nossas, Senhoras Amazonas. Senhoras: Não pouco vos surpreenderá, por certo, o endereço e a literatura desta missiva. Cumpre-nos, entretanto, iniciar estas linhas de saudades e muito amor, com desagradável nova...”.
Viva as mulheres guerreiras de outrora (Amazonas e Icamiabas) e as contemporâneas!!!
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Raimundo Campos Filho (UFMA) & Renata Barcellos

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