
SHARLENE SERRA, especial para a Plataforma Nacional do Facetubes
(Em tempo: os algoritmos republicam a matéria de 2021, por ter alcançado mais de 1.500 acessos).
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Inicio com um poema de minha autoria, que a data se perdeu no tempo...
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POEMIA
Minhas mãos passeiam
não em páginas, mas
nas histórias vivas com
pedras, chão, sangue,
fome e mortes,
ele africanesia
versos na veia
o olhar respira
está em mim
seu nome
Mia.
Os meus olhos atentos para a presença do biólogo das palavras. Ele chega em forma geométrica, sinto seus olhos feito água cristalina que na transparência absorve o visto, sentido e o percebido no invisível, a biologia explicada, pois as palavras têm vida, forma, níveis e ele estuda, recria, observa o funcionamento vivo e sua relação com o meio, a palavra como processo de transformação. Não existe uma dicotomia entre o fazer e a poesia, tudo se entrelaça, tudo é poesia e tudo se transforma em história, somos feitos através delas e elas nos fazem existir. Segue um poema de Mia Couto.
IDENTIDADE
Preciso ser um outro
para ser eu mesmo
Sou grão de rocha
Sou o vento que a desgasta
Sou pólen sem inseto
Sou areia sustentando
o sexo das árvores
Existo onde me desconheço
aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro
No mundo que combato morro
no mundo por que luto nasço
Mia Couto é assim, universo vivo. Sobre as histórias que ouvia do seu pai o que mais o fascinava não era a qualidade delas, mas o sentimento de encantamento que essas histórias produziam.
Antônio Emílio Leite Couto nasceu no dia 5 de Julho de 1955 biólogo moçambicano o nome Mia foi devido seu amor por gatos e pela forma curiosa que seu irmão pronunciava.
É o autor moçambicano mais traduzido e divulgado no exterior e um dos autores estrangeiros mais vendidos em Portugal. Recebeu inúmeros prêmios nacionais e internacionais, por vários dos seus livros e pelo conjunto da obra literária, entre eles: Prêmio Vergílio Ferreira (1999)
Foi escolarizado na Beira cidade capital da Província de Sofala em Moçambique, hoje mora em Maputo. Desde os 14 anos já teve seus poemas publicados no jornal “Notícias da Beira” iniciou na medicina queria ser psiquiatra, mas abandonou os estudos partindo para Jornalismo, sempre se viu em várias dimensões de atividades, e posteriormente ingressou para biologia:
“A biologia ensina sobre linguagem e códigos, a visão antropocêntrica de que os seres humanos são seres racionais que se comunicam e pensam anula outras vozes no mundo, mas a natureza tem expressão e manifesta o que está acontecendo por meio de cores, formas e cheiros. A literatura assim como a biologia ensina a arte de reparar no entorno, nos descentraliza de nós mesmo. Explica.
Cada fala de Mia Couto demonstra poesia viva, um caso de amor com a escrita e uma sensibilidade oriunda também da sua cidade natal onde extrai elementos entre uma dualidade de beleza, encantamento , dificuldades e sofrimentos: eu sofri por que via os outros sofrerem , a poesia foi a senha que me permitiu entrar a frente do movimento de libertação de Moçambique.
“Se um dia me arriscar a um outro lugar, hei de
Levar comigo a estrada que não deixa sair de mim”
Em um trecho de uma entrevista ele diz: Sou um escritor africano de raça branca. Este seria o primeiro traço de uma apresentação de mim mesmo. Escolho estas condições – a de africano e a de descendente de europeus – para definir logo à partida a condição de potencial conflito de culturas que transporto. Que se vai “resolvendo” por mestiçagens sucessivas, assimilações, trocas permanentes.
Lembremos de um trecho de Tolstói:
“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia.“ Assim, Mia foi se revelando para o mundo.
SOTAQUE DA TERRA
Estas pedras sonham ser casa
sei
porque falo
a língua do chão
Nascida
na véspera de mim
minha voz
ficou cativa do mundo,
pegada nas areias do Índico
agora,
ouço em mim
o sotaque da terra
e choro
com as pedras
a demora de subirem ao sol
Mia expressa a voz de todos, no seu eu poético, na identidade única, uma sintonia estabelecida com o coletivo, que transforma a pedra bruta da palavra, em jóia rara da sua própria escrita:
Como escritor, a nação que me interessa é a alma humana(...) cada pessoa é uma nação.
E assim como Mia, eu me debruço na janela do poema e me abraço às palavras, sinto o respirar de todas elas, e afirmo junto a ele, que se somos formados por células, elas certamente são constituídas de histórias e poesias:
Primeira Palavra
Aproxima o teu coração
e inclina o teu sangue
para que eu recolha
os teus inacessíveis frutos
para que prove da tua água
e repouse na tua fronte
Debruça o teu rosto
sobre a terra sem vestígio
prepara o teu ventre
para a anunciada visita
até que nos lábios umedeça
a primeira palavra do teu corpo.
Mia Couto
...finalizo, da forma que iniciei:
POEMIA
Minhas mãos
continuam passeando
Folheando-te...
Continuarei encantando-me
nas histórias vivas da
Tua africanesia
versos contidos
em ti, que na página
respira.
( reverências a ti, Mia)
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