Edição: Sílvia Lisboa
textos: Juan Ortiz, Maurício Brum, Pedro Nakamura e Stéfani Fontanive
IlustraÇÃo Cristina Kashima
Das telas às galerias de arte, dos torneios esportivos aos romances, passando pela religião, as mulheres deste capítulo deixaram suas marcas em diferentes aspectos da cultura.
Sua genialidade criativa, sua arte e seus exemplos ajudaram a mudar o nosso cotidiano: do jeito de se vestir até uma forma menos machista de ver o mundo. Somente aos 46 anos, debilitada por crônicos problemas de saúde, Frida Kahlo fez sua primeira grande exposição de pinturas na capital mexicana. A ambulância chegou às 20h na Galeria de Arte Contemporânea.
Carregada de maca, a artista foi levada até uma cama de quatro colunas enfeitada com esqueletos de papel e fotos de líderes socialistas. Ela permaneceu deitada toda a exibição, das 20h até a madrugada, usando seu tradicional traje de tehuana e tranças em forma de coroa. Dezenas de amigos e admiradores fizeram fila para cumprimentá-la, formaram um círculo em volta da cama e cantaram até tarde da noite.
Frida morreu um ano depois.
Assim foram os dias de Magdalena Carmén Frida Kahlo y Calderón: entre dores e festas. Com 6 anos, contraiu poliomielite, doença infecciosa que ataca o movimento dos membros inferiores. Teve que ficar deitada por nove meses, e sua perna direita atrofiou. As saias longas, uma de suas marcas registradas, serviam para esconder a deformidade. A próxima tragédia ocorreu aos 18 anos. Estava voltando de ônibus para casa, em Coyoacán, quando um bonde desenfreado colidiu contra a condução. Frida foi jogada contra a quina de um prédio e sofreu múltiplas fraturas pelo corpo. Três na coluna, 11 na perna direita e outras nas costelas, clavícula e pélvis. Ao longo da vida, passou por 32 operações.
Enquanto se recuperava, dedicou seu tempo à pintura. A artista ingressou nos círculos intelectuais e políticos de seu país. Nas reuniões do Partido Comunista do México, conheceu o pintor Diego Rivera, com quem compartilhou amores, um casamento de uma década e diversas infidelidades – a pior delas em 1934, de Rivera com a cunhada, que resultou na separação do casal. Entre 1937 e 1939, Frida hospedou em casa o líder marxista Leon Trótski, expulso da ex-União Soviética, com quem teve um breve romance. Trótski foi assassinado em 1940, e Frida entrou na lista dos suspeitos – o assassino era um agente catalão a serviço de Stálin. Frida e Diego voltaram a morar juntos, não mais como namorados, mas como parceiros de trabalho.
Os autorretratos de Frida representavam o cosmos pessoal da pintora. As obras As Duas Fridas (1939) e Coluna Partida (1944) são algumas das mais famosas. Em 2016, o quadro Dois Nus na Floresta foi arrematado por US$ 8,5 milhões, o mais caro de um pintor da América Latina.
Quando um teórico surrealista disse que Frida era uma representante do movimento, ela respondeu indignada: “Nunca pintei sonhos. Eu pinto minha própria realidade.”
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