
FRANCIUSCO TRIBUZI, São Luís-Maranhão
Quando um poeta morre
Francisco Tribuzi
Quando um poeta morre
O sol murcha de silencio
As manhãs se angustiam
Com suas pétalas de dor
Apagam-se as fases da lua
As estrelas cadentes
Os faróis distantes
Parte das tardes partem dos portos,
No caís palpitam trêmulos lenços de amor
Enlutam-se as lágrimas da chuva
A ânsia das noites
A melancolia das praças
Os entristecidos pássaros das torres das igrejas,
cantam nos cemitérios sem cor
No úmido chão onde é plantada
Sua alma de arminho
Nasce uma rosa desbotada
No cálido caminho
Dos seus cabelos pálidos de pó e bolor
Pela boca emudecida do poema
Fugindo da morte, da vida
Brota o infinito perfume da flor!
Mais uma de muita reflexão por conta da pandemia, que aumenta mais a necessidade de pensar nesses dias grandes, e refletir sobre todo sofrimento de Cristo no Calvário e também a sua vitória sobre a morte através da sua ressurreição. Tentamos dizer um pouco desse sentimento nesse soneto intitulado Soneto a Paixão. Como forma de desejar Feliz Páscoa a todos Esse soneto deve ganhar melodia em linda música em breve com a maestria de JotAlencar e nossa marca CEARENSIDADE EM MÚSICA E POESIA. (Pedro Sampaio)
Soneto à Paixão
Pedro Sampaio
Semana Santa é pra relembrar
Da Cruz e do Calvário
Onde vieram crucificar
O Filho de Deus libertário
Jesus Cristo o Redentor
O Cordeiro imolado
Nosso Rei e Salvador
Que nos livra do pecado
Sua palavra é o nosso norte
Ele é vida após a morte
É a própria ressurreição
A fé que nos faz crescer
Nos leva na vida a crer
Em Jesus e sua Paixão
(Pedro Sampaio)
SÁBADO POÉTICO
Bruxaria
Lilian Costa
Eu assisto filmes que ninguém vê
Eu leio livros que ninguém conhece
Eu ouço músicas que ninguém escuta
Eu me escondo de quem me procura
Eu falo com ausentes
E ignoro vivos que me rodeiam
Eu danço nua pra lua cheia
Deixo o sol queimar meu corpo
Lavo minhas tristezas na chuva
Ando descalça na terra
O vento me sussurra segredos
Parece até brincadeira
Por tudo que me julgaram
“É ela de cabelo vermelho, a noiva do diabo!”
Por isso minha casa é solo sagrado
Ninguém passa do sal bem alinhado
“Mas você é esquisita, diferente que dá medo.
Nunca te vi de rosa, sempre se veste de preto”
Sou uma mulher inteira
Mas pode me chamar de feiticeira
O Interregno do Abstrato
Tonicato Miranda
Quando me sinto assim
por dentro e por fora,
denso, congestionado
como um rio após a enchente
deito-me na minha margem
olho o céu, vejo esta claridade cega.
Ela impedindo enxergar outras estrelas.
Elas tão longe de mim, tão perto deles
dos outros seres, em outras margens.
Anseio pela noite
para ver seus brilhos
quase no infinito,
cegando suas vizinhanças
onde não estou, nem jamais estarei.
Quanta bobagem! Para que viajar
para tão distante de mim
e desta margem?
Olha! Ali está uma flor.
Esta é a visão a importar.
Ela está ali, tal qual estou aqui
a olhá-la, a apreciá-la.
Sou o orgulho dela.
Ela bebe sua vaidade com meu olhar.
Eu?! Bebo seu perfume, suas cores.
E que importa a cegueira
das luzes alhures,
lá no inalcançado?
E este Sol a empanar a noite?
Eu e a flor estamos presos
tendo o belo a nos aproximar.
Basta este interregno do abstrato
a nos fazer parceiros.
Eu, com meu olhar;
ela, com seu orgulho.
Ambos a nos amargurar
por mais aproximação e luz
nesta margem de intimidades
onde eu abelho sua beleza.
Que não nos adiemos
Tião Pinheiro
desde sempre a gente sabe disso
e ainda assim não aprende:
mal acordamos
e já atropelamos o bom dia
com o pensamento no almoço,
nem sentimos o aroma do café
e já imaginamos a sobremesa;
e adiamos o sim
para quando o não é sina...
desde sempre a gente sente isso
e mesmo assim não aprende:
mal nasce o sol
e já vivemos a ansiedade do poente
com a proximidade do fim,
nem refletimos o amanhecer
e já sofremos com a escuridão;
e empurramos o agora
para quando só lembrança será...
desde sempre a gente conhece isso
e ainda assim não muda:
mal se abre o riso
e já sofremos o temor das lágrimas
com o turbilhão de sentimentos,
não assimilamos as lições do andar
e já nos punimos com a indecisão;
e guardamos o abraço
para quando depois não haverá...
desde antes a gente sabe disso
e mesmo assim não corrige:
mal chegamos perto
e já ignoramos o amor
com a expectativa da paixão,
não vivemos o que temos
e já sofremos pela ausência;
e adiamos o perdão
para quando já se foi quem nos feriu:
é preciso não nos adiarmos tanto
porque incerto é o amanhã...
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