
Socorro Guterres
Um dia de sol ameno e o desejo de estar mais pertinho do céu, na quietude das altas montanhas. Há algum tempo visitei em Barcelona o Mosteiro de Montserrat, localizado no singular Monte Serreado, na Catalunha, a uma altitude de 740 metros; um importante local de peregrinação. Assim como Guimarães Rosa eu considero as altas montanhas como entidades poéticas, físicas e simbólicas. Algumas vezes estive nas muito amadas elevações do autor mineiro, que as definia como a própria identidade de Minas: "Minas é a Montanha".
Então, sempre que posso, procuro as alturas do meu querido Rio Grande do Norte, buscando certa transcendência, na conexão espírito e matéria. Mas não só isso, também a contemplação da beleza revelada numa natureza ainda preciosamente preservada. A estradinha que serpenteia em curvas e leva ao meu desejo, numa subida sinuosa, mostra devagar cada recanto que se faz importante no trilhar para o alto. Aos poucos, ocorre o afastamento da metrópole, e consequentemente a quebra da rotina atribulada, no subir que distancia da modernidade transformadora do dia a dia. Nesse afastamento, subitamente sobrevém a visão da imutabilidade das rochas.
Pelo caminho, algumas casinhas acenam para mim, acanhadas ou risonhas, mas convidativas e cheias de significativas histórias. Sigo ascendendo e no parabrisa do meu carro já respingam algumas gotas d'água que anunciam a friagem. O clima serrano é intimista e pede o recolhimento ao aconchego de um fogão a lenha, um café e o vagaroso passar do tempo.
As bougainvilles vermelhas que ladeiam a estrada curvam-se ao vento, numa espécie de cumprimento, e o horizonte dispõem-em camadas de tons azuis e verdes num imenso platô montanhoso que se integra perfeitamente ao céu. Tão pertinho de Natal, aproximadamente uns 100 quilômetros, erguem-se grandes picos, como a famosa Pedra da Boca, colossal formação geológica em granito com icônica escavação central, pertecente ao município paraibano de Araruna (divisa com o Rio Grande do Norte), que nos chama à aventura de uma escalada redentora para chegar ao cume e admirar a grandeza divina.
Mas continuemos, sigamos a estrada, pois nosso destino são os municípios de Serra de São Bento e Monte das Gameleiras, este último assim denominado pelas inúmeras árvores desse tipo que embelezam o local. São regiões que apresentam altitudes aproximadas de 400 metros acima do nível do mar, mas podendo alcançar 700 ou 800 metros em suas variações rochosas. O trajeto que conduz a esses lugares é repleto de pedras enormes, que parecem se equilibrar numa paisagem especial (ou espacial).
As casinhas de reboco se distanciam e as vezes se aglomeram em pequenos vilarejos. Próximo à Pedra da Boca, há a reverência para Nossa Senhora de Fátima, num santuário encravado na rocha; local de romaria que a cada 13 de maio acolhe os peregrinos em grande festividade: o sagrado e o profano se irmanizam secularmente. Outra parada obrigatória nessa ascensão é a Capela de Sao José, de estilo medieval, pequenina, e toda em pedra, com seus 10 bancos a lembrar os Mandamentos de Deus; suas 5 janelas e 2 portas, a demarcar os dias da semana, e a cadeira do padre a representar o trono de Jesus, a qual, juntamente com o demais mobiliário, é esculpida artesanalmente em madeira bruta de troncos e galhos naturais de árvores locais, numa referência à humildade e ao celestial.
E não posso esquecer o sino dos três pedidos que, se atendidos, precisarei retornar para devotar meu agradecimento na gruta dos milagres, ao lado da capelinha: é o trânsito da fé. O céu azul pincelado de nuvens brancas e o vento friozinho me impulsionam para as cidades-destino , que agora se apresentam em belos chalés e pousadas glamorosas. A serra vai sendo tomada pelo apelo imobiliário de sua paisagem belíssima, o encantamento das montanhas e vales são testemunhas.
Na obra-prima de Guimarães Rosa, Grande sertão : veredas , as serras são como um labirinto a espelhar as dúvidas do protagonista Riobaldo, e é num "mar de montanhas" que, poeticamente, Rosa descreve serras, chapadas e grotas como palcos da disputa entre o bem e o mal e onde Deus e o Diabo parecem se manifestar em meio à natureza pulsante.
Ao mesmo tempo que labirintos, as serras também são pontos de referência afetivos e geográficos para os jagunços rosianos; são bússolas que delimitam os perigos e os descansos. E por falar em descanso me aproximo do meu local de repouso, uma pousada com vista que permite o deslumbramento.
A noite pontilhada de estrelas desnuda o vale abaixo do mirante. Olho para o céu e consigo distinguir a Constelação do Cruzeiro do Sul, o Cinturão de Órion (as Três Marias), Sírius, a mais brilhante e o planeta Vênus, conhecido como a Estrela Dalva. Nesse arquétipo universal, que viaja a milhões de anos-luz, esperança e admiração concedem uma perspectiva que me eleva muito além da minha pequenez existencial. Um sino bate ao longe por três vezes. Mais pedidos a São José?
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