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Convidado especial: poeta Paulo Rodrigues e "Santa Inês na Lírica de Weliton Carvalho".

Paulo Rodrigues é professor de literatura, poeta, escritor e ganhou o prêmio "Álvares de Azevedo", da UBE/RJ em 2019.*

09/04/2021 às 11h41 Atualizada em 12/04/2021 às 08h48
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
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Nota do Editor: É com enorme prazer que publico hoje este texto memorável do premiado escritor e poeta maranhense, professor Paulo Rodrigues, vice-presidente regional da Academia Poética Brasileira, no Maranhão. Seja sempre bem-vindo, confrade. (Mhario Lincoln., presidente APB).

 

Santa Inês na Lírica de Weliton Carvalho

“Poesia da Rua da Raposa, onde um menino sonhava o mundo”. 

     Weliton Carvalho enviou-me o livro Ócios do Ofício (2019), em outubro de 2020. Li imediatamente. O projeto gráfico do Instituto Memória Editora & Projetos Culturais de Curitiba destacou setenta e seis poemas que reconstroem uma lírica madura. Um corpus inteiro, num grito longo de leite derramado.

     José Neres da Academia Maranhense de Letras afirma na orelha: “a poesia deste talentoso escritor é forte, vibrante, segura e, sem dúvida, pode ser colocada entre as grandes obras das letras brasileiras contemporâneas”. Estou convicto desta qualidade também. Observo o processo de construção da carnadura poética de Weliton Carvalho desde Geometria do Lúdico.

Welinton Carvalho.

E percebo a necessidade de fuga do formalismo acadêmico, a construção de imagens como cortinas a indicar o rumo. Uma sintaxe própria, vocábulos sinestésicos que vestem o tempo do poeta.

     No entanto, meu foco aqui neste texto é Ócios do Ofício. Não tem sessões. É um tiro em câmera lenta, no peito do leitor. Cada metáfora nova arrasta os olhos para o chão do cotidiano. Como Ferreira Gullar explicita: “o homem está na cidade/ como uma coisa está em outra/ e a cidade está no homem/ que está em outra cidade”. Weliton confessa em carta endereçada a mim: “Santa Inês é, para mim, província e universo. Foi aí que eu descobri todas as angústias do existir e todas as razões para sonhar”.

     São Luís, Rio de Janeiro, Santiago do Chile são a grama a reinventar os pés do autor de Poema Sujo. Santa Inês é o “cinema novo” a induzir a descoberta do mundo para os olhos de Weliton Carvalho. Na página 62, a cidade é evocada através dos olhos do menino:

 

PRÉ-HISTÓRIA

No quintal da minha pobre casa na Rua da Raposa,

em Santa Inês do Maranhão, no Vale do Pindaré

eu imaginava uma grande fazenda: uma instância;

tomei um cabo de vassoura e lhe improvisei um cabresto:

tinha nascido um lindo cavalo mais belo que Rocinante, 

as ervas daninhas eram o melhor pasto de toda região

e o poço era o açude pelo qual fazendeiros brigavam. 

Por certo que o cabo de vassoura não era um cavalo,

as ervas daninhas jamais alimentaram qualquer animal

e tampouco o poço interditado seria um açude viçoso. 

Isto já não importava: havia aprendido a sonhar. 

     A poesia aparece no último verso como uma lição criativa: “Isto já não importava havia aprendido a sonhar”. Neste sentido, Weliton canta desbragadamente a infância, a aldeia. Canta listando as contradições do mundo: “a vassoura não era um cavalo e o poço não seria um açude viçoso”. Não é mesmo. Há, portanto, consciência social na lírica do poeta.

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Na página 96, fragmento do poema MAÇÃS, faz o hipônimo de fruta arrastar o tempo para o delírio da imagem. Num lance psicanalítico, de forte anamnese:

Quando meu pai viajava a São Luís

eu o esperava em Santa Inês

com as maçãs prometidas. 

[...]

era antes o sonho que ele me dava

na sua carnadura vermelha,

no seu cintilante delírio

de colorir minha vida de menino do interior

que nem conhecia a capital do meu Estado.

O que eu de fato queria da maçã

era a poesia que o mundo me negava.  

    O poema integra o passado e o futuro da lírica de Weliton Carvalho, num frisson de angústia e prazer, que comove. O acadêmico José Ewerton Neto, na apresentação, constata: “o esforço, o suor e a luta, recursos inerentes à contemplação do ofício, foram diluídos na contemplação. A poesia constrói os passos na Rua da Raposa e “se encerra numa cidade inteira”.

    Enamorado pela urbe, por sua gente, suas cores, suas dores, eleva o canto para o mundo. A aldeia está explicita e disfarçada em toda linha discursiva do poeta; na repetência insistente do cotidiano que mistura o provinciano e o universal.

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TEXTO: PAULO RODRIGUES*Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. Venceu o Prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro inédito CINELÂNDIA. É membro da Academia Poética Brasileira. 

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