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A Praça do Panteon, no Centro de São Luís, recebeu, no dia 27 de agosto de 2026, o busto do padre e escritor João Mohana. A solenidade, realizada pela Prefeitura de São Luís, por meio da Fundação Municipal de Patrimônio Histórico, em parceria com a Academia Maranhense de Letras, incorporou definitivamente sua imagem ao conjunto de personalidades que ajudaram a construir a memória intelectual, literária e cultural do Maranhão. A escultura foi produzida pelo artista plástico Eduardo Sereno.
A homenagem teve também um sentido reparador. Durante décadas, o nome de João Mohana já ocupava posição consolidada na literatura, na vida religiosa e na história intelectual maranhense, mas sua presença ainda não havia sido materializada naquele espaço público reservado aos nomes de referência do Estado. Com o descerramento do busto, essa ausência foi finalmente corrigida.
João Mohana reuniu em uma única trajetória atividades que raramente se encontraram com semelhante intensidade. Foi médico, exerceu a pediatria, tornou-se sacerdote, escreveu romances, teatro e dezenas de livros sobre espiritualidade, comportamento humano, relações familiares e vida religiosa, atuou como conferencista e ainda realizou uma extensa pesquisa sobre a memória musical do Maranhão.
Nasceu em Bacabal, em 15 de junho de 1925, filho dos imigrantes libaneses Miguel e Anice Mohana. Viveu parte da juventude em cidades como Coroatá e Viana, passou por São Luís e formou-se em Medicina na Bahia. Exerceu a profissão médica antes de seguir a vocação sacerdotal. Entrou para o Seminário de Viamão, no Rio Grande do Sul, e foi ordenado padre em 1960. Faleceu em São Luís, em 12 de agosto de 1995.
Na literatura, alcançou reconhecimento nacional muito cedo. Em 1952, seu romance “O Outro Caminho” recebeu o Prêmio Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras. Vieram depois numerosas obras editadas por casas como Agir, Loyola e Paulinas, algumas traduzidas para outros idiomas. Entre seus livros de ficção, reflexão e espiritualidade ficaram títulos como Maria da Tempestade, O Mundo e Eu, Sofrer e Amar, A Vida Sexual dos Solteiros e Casados, Casar para Crescer, Namoro é Isto e Plenitude Humana.
Em 1970, João Mohana foi eleito para a Cadeira nº 3 da Academia Maranhense de Letras, posição que ocupou até sua morte. A própria AML o manteve entre seus antecessores históricos, ao lado dos nomes que formaram sucessivamente aquela cadeira.
Sua escrita apresentou uma característica particular: não estabeleceu fronteiras rígidas entre literatura, formação humanística, espiritualidade e observação do comportamento humano. Antônio Martins de Araújo, ao escrever sobre Mohana para a Academia Maranhense de Letras, recordou que o sacerdote havia feito sua opção pela “cura das almas” depois da experiência como médico pediatra e identificou em sua produção uma procura simultânea pelo “deleite estético” e pelo “crescimento ético” do leitor.
Essa combinação explicou parte de sua singularidade. Mohana conheceu o corpo pela Medicina e procurou compreender a interioridade humana pelo sacerdócio. Escreveu ficção, estudou relações familiares, refletiu sobre sofrimento, sexualidade, educação e vida espiritual. Sua obra circulou por temas que, sobretudo em determinadas décadas do século XX, nem sempre eram abordados com naturalidade dentro dos ambientes religiosos.
Há, entretanto, um João Mohana que ainda precisava ser mais conhecido fora dos círculos especializados: o pesquisador da música maranhense. Durante aproximadamente três décadas, Mohana procurou partituras, identificou compositores, conversou com músicos e familiares, percorreu cidades e reuniu documentos que poderiam ter desaparecido. O resultado dessa investigação apareceu em “A Grande Música do Maranhão”, publicado originalmente em 1974.
O conjunto documental recolhido por ele tornou-se o Acervo João Mohana, preservado pelo Arquivo Público do Estado do Maranhão. Estudos acadêmicos estimaram a coleção em aproximadamente duas mil obras, abrangendo música erudita e popular, composições religiosas, valsas, missas, música de câmara, repertório orquestral e documentos importantes inclusive para a reconstituição histórica do choro no Maranhão.
Esse trabalho adquiriu dimensão ainda maior com o passar do tempo. Entre 2017 e 2019, projeto desenvolvido no âmbito da Universidade Federal do Maranhão, com apoio da FAPEMA, revisou o catálogo, digitalizou documentos e ampliou o acesso ao acervo. Ou seja: partituras que Mohana havia decidido procurar décadas antes continuaram fornecendo matéria para pesquisadores do século XXI.
Foi uma contribuição extraordinariamente concreta para a memória cultural do Estado. João Mohana não preservou apenas ideias em seus próprios livros. Ajudou a impedir que parte da música produzida no Maranhão desaparecesse fisicamente.
Por isso sua entrada no Panteon Maranhense representou mais que uma homenagem religiosa ou literária. Ali passou a ser lembrado o médico que se tornou sacerdote; o romancista premiado pela Academia Brasileira de Letras; o acadêmico da Casa de Antônio Lobo; o conferencista; o autor que dialogou com questões humanas complexas; e o pesquisador que recolheu vestígios da criação musical maranhense antes que muitos deles se perdessem.
No ano anterior ao descerramento do busto, quando se comemorou o centenário de seu nascimento, esse reconhecimento já havia ganhado dimensão pública. Em 2025, João Mohana foi escolhido patrono da 18ª Feira do Livro de São Luís, cuja programação adotou o tema “João Mohana: a palavra em corpo e alma”.
A chegada ao Panteon completou, assim, um ciclo de reconhecimento. Décadas antes, naquele mesmo espaço da cidade, outra cena havia se incorporado à memória cultural de São Luís.
Em 8 de setembro de 1981, tive a honra de participar, em nome da Prefeitura de São Luís, como poeta e então presidente da Sociedade de Urbanismo e Melhoramentos da Capital — Surcap —, da entronização do busto em bronze de Bandeira Tribuzi na Praça do Panteon.
Naquela oportunidade, disse poucas palavras. Delas, uma frase permaneceu comigo: “Os poetas são as áreas verdes da cidade.”
O tempo passou, o Panteon foi restaurado e recebeu novos bustos. A partir de 2022, uma intervenção promovida pelo Município recuperou 18 deles e acrescentou sete monumentos, entre eles a reconstrução do busto de Humberto de Campos e homenagens a Nascimento Moraes Filho, Celso Magalhães, Jomar Moraes, Sousândrade, Aluísio Azevedo e Ferreira Gullar.
Neste 27 de agosto de 2026, João Mohana chegou. Chegou com algum atraso histórico, mas chegou ao lugar que sua obra já havia conquistado havia muito tempo.
Seu busto passou a ficar diante dos que atravessaram a cidade e construíram a inteligência cultural do Maranhão. E aquele bronze adquiriu sentido porque por trás dele havia livros, sermões, medicina, teatro, pesquisa, milhares de páginas escritas e aproximadamente duas mil partituras preservadas para as gerações seguintes. O Panteon não recebeu apenas mais uma escultura.
Recebeu parte da memória intelectual do Maranhão que ainda lhe faltava.
E a Praça, que já guardava poetas, escritores e pensadores, passou também a guardar João Mohana — um homem que fez da palavra, da fé, do conhecimento e da pesquisa diferentes caminhos para chegar ao mesmo lugar: o ser humano.
Fontes: Academia Maranhense de Letras; Academia Brasileira de Letras; Prefeitura de São Luís; Câmara Municipal de São Luís; Universidade Federal do Maranhão; Arquivo Público do Estado do Maranhão; Revista Música/Universidade de São Paulo; Anais do SIMPOM/UNIRIO; Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Maranhão; O Imparcial e Maranhão Hoje.
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