Simplesmente Carvalho Junior
José Neres, professor, escritor e pesquisador.
Em exatamente dez anos, um jovem professor da cidade de Caxias, graduado em Letras e com grande habilidade no manejo com as palavras, decidiu tirar seus textos da gaveta e publicá-los. Em pouco tempo, ele publicou cinco livros, participou de dezenas de antologias, promoveu a divulgação de escritores de sua terra, tornou-se uma das maiores referências culturais de sua região, criou inúmeros laços de afeto e de amizade por todo o Maranhão, foi eleito para duas academias de letras, andou por boa parte do Brasil levando sua poesia, caiu no gosto de inúmeros leitores e, silenciosamente, partiu rumo à eternidade.
Esse talentoso rapaz, que recebeu o nome civil de Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior, decidiu rebatizar-se nas águas da poesia e começou a assinar seus trabalhos com o nome de Carvalho Junior. Dono de uma excelente dicção poética, ele gostava de brincar com as palavras e sabia inocular em seus versos o máximo possível da carga de poeticidade que os vocábulos podem aceitar dentro de um contexto literário.
Depois de algumas investidas em trabalhos quase artesanais, em 2011, ele publicou seu livro de estreia – “Mulheres de Carvalho”, que teve boa receptividade, principalmente por conta dos jogos de palavras das anfibologias que povoavam as estrofes e que divertiam o leitor, conduzindo-o a reflexões sobre variados temas, que vão desde os conceitos de poesia até a relação do homem com ele mesmo. Logos nessas primeiras páginas, Carvalho Junior já começava a chamar a tenção para seu estilo de escrita.
Em 2013, ele trouxe a luz seu livro “A rua do sol e da lua”, um livro no qual os poemas passeiam por uma mescla de lirismo e telurismo, sem cair nas tentações de pieguice que são tão comuns nesses tipos de texto. No ano seguinte, ele decidiu tratar dos questionamentos das variadas fases da vida em poemas aparentemente levas, mas que escondem reflexões acerca do estar no mundo e ao mesmo tempo servem como homenagem a pessoas que eram bastante caras ao poetas. Foi com essas ideias que ele lançou o seu “Dança dos dísticos”.
Leitor voraz dos grandes poetas das diversas literaturas, Carvalho Junior foi deixando os jogos de palavras e os chistes em segundo plano e acabou polindo o conteúdo seus poemas o com mesmo cuidado de um ourives bilaquiano preocupado com as formas. Desse modo surgiu, em 2017, o livro “No alto da ladeira de pedra”, no qual é possível perceber não apenas um trabalho com as palavras, mas também uma preocupação com os jogos de imagens poéticas que emanam de cada termo. Trata-se de um livro mais amadurecido, sem deixar de lado a carga de ironia de bom humor, que são duas características que perpassam toda a obra do poeta caxiense.
2019 foi a vez de Carvalho Junior publicar “O Homem-Tijubina & outras cipoadas entre as folhagens da malícia”, no qual a preocupação social, que é pontual em poemas dos demais livros, ganha maior projeção. Em uma mistura bem equilibrada de prosa poética e questionamento em versos, o poeta lembra que “somos feitos / das mesmas fomes / dos nossos pais”. Os textos desse livro tiveram uma recepção tão forte entre os leitores e admiradores do poeta, que ele passou a receber o epíteto de Homem-Tijubina nos círculos literários.
Vinham mais livros por aí. Um já totalmente organizado, com prefácio do professor e crítico Antônio Ailton, já se encaminhava para o prelo. Outros trabalhos começavam a ganhar vulto, como uma pesquisa sobre a vida e a obra de Déo Silva. Porém, no- dia 30 do mês de março, o poeta não resistiu às complicações oriunda da contaminação pelo Covid 19 e partiu desse mundo, indo levar suas poesias para outras paragens onde seus leitores ainda não podem ter acesso.
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