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Tema trazido pelo convidado Paulo Rodrigues (APB): "O Metapoema em Carlos Vinhort)"

"Carlos é um autor múltiplo, no entanto, guarda parte da produção poética para discutir o poema e a alucinação poética".

20/04/2021 às 11h40 Atualizada em 22/04/2021 às 23h03
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodrigues
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O METAPOEMA EM CARLOS VINHORT

“confio aos poemas/ toda sorte que abriga  minh'alma”.

(Carlos Vinhorth)

Convidado especial: Paulo Rodrigues * 

     O livro Do Eu ao Outro – Um trajeto poético do Carlos Vinhorth, lançado pela Editora 360º em 2016, apresenta quatro seções que ampliam a semântica dos textos: sonetos de amor plausíveis; faces da vida; este, aquele e outros poemas e para não dizer que não falei de amor.

Vinhorth.

Carlos é natural de Santa Inês. Venceu vários concursos literários. Faz parte da antologia SAFRA 90 e lançou o disco PERFIL em parceria com o músico vianense Toninho Rabelo, em 2002. Recebeu o título de cidadão vianense em 2005 e em 2007 foi convidado de honra para participar da comemoração dos 750 anos de Viana do Castelo, em Portugal. 

      A pergunta inicial do ensaio é: o que é metalinguagem poética? A metalinguagem acontece quando o signo explica-se a si próprio. De tal forma, que a poesia quando construída para refletir sobre si, marca este importante fenômeno da linguagem. Carlos é um autor múltiplo, no entanto, guarda parte da produção poética para discutir o poema e a alucinação poética.

       Na página 75, o poeta usa a língua portuguesa para pensar a heterogeinade linguística entre nós: 

MINHA PÁTRIA É POLIGLOTA  

Minha flor 

virou fulô

no mar das ondas caboclas.

 

Um celeiro de linguagem

bem mais certa

mais errada que se ache

cada língua, uma guerra

de palavras e sotaques.

  

Meu sol 

também é só,

para melhor se faz mió

quem não sabe a cartia

se imbola no próprio nó.

 

Minha pátria 

é poliglota

de mil línguas, uma só.

 

    Chalhub (2002, p.47) afirma: “a metalinguagem, como traço que assinala a modernidade de um texto, é o desvendamento do mistério, mostrando o desempenho do emissor na sua luta com o código. O poema moderno é crítico nessa dimensão dupla da linguagem”. O enunciador tem plena consciência da força da metalinguagem. Reconhece a dimensão antagônica dos usos das variantes em língua portuguesa:  “ Um celeiro de linguagem/ bem mais certa/ mais errada que se ache/ cada língua, uma guerra/ de palavras e sotaques”.

     “Minha pátria/ é poliglota/ de mil línguas, uma só”. Marcos Bagno nos ensina que o mito da unidade linguística entre nós deve ser descartado. Carlos repete a ideia da unidade linguística com (uma ironia finíssima). É mesmo uma denúncia da repetição do erro. 

    A linha discursiva aqui não importa tanto. Buscamos o procedimento metalinguístico na poética de Carlos Vinhorth. Logo, na página 116, o poema MEU POEMA II:

 

Cadáver esvanecido

   relíquia de um ser

        de tantas e tantas vezes

              cruelmente assassinado.

 

Dilacerado por vendavais

   a golpes feridos de punhais

       que sangram arduamente

             as veias de seu ego.

 

Grito sem eco

     de um clamor malogrado

          que lentamente arqueja

                no vácuo 

                     do espaço extremo 

                           da incompreensibilidade. 

                       

    A poesia nunca é apenas um exercício da razão. O poeta percebe isto e usa o poema para comunicar o grito incomunicável: “Grito sem eco/ de um clamor malogrado/           que lentamente arqueja/ no vácuo/ do espaço extremo/ da incompreensibilidade”. 

     Carlos Vinhorth mostra os vendavais e os golpes dos punhais, com um verso carregado de muita musicalidade e metapoesia.

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Paulo Rodrigues.

TEXTO: PAULO RODRIGUES – Professor de literatura, poeta, escritor e autor de O Abrigo de Orfeu (Editora Penalux, 2017); Escombros de Ninguém (Editora Penalux, 2018). Ganhou o prêmio Álvares de Azevedo da UBE/RJ em 2019, com o livro Uma Interpretação para São Gregório. Venceu o Prêmio Literatura e Fechadura de São Paulo em 2020, com o livro inédito CINELÂNDIA. É membro da Academia Poética Brasileira.

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