
POESIAS ESCOLHIDAS
Águia da vida
Letícia Mariana
O tremor de um corpo em chamas,
O sentido que me falta!
O voar que pulsa num segundo,
O tempo não me resta!
Águia da vida que luta,
Fúnebre festa sem convidados,
Solitário voo.
As mãos sangram de saudade,
Imensidão infeliz!
Fúnebre festa lotada de seres,
Solitária poesia.
Águia da vida que morre,
Desencontro sarcástico de um fim.
Um coração humano e sádico,
O tremor de um tempo em chamas.
LAVRADOR DE OUTONOS
DE Joao Batista Gomes Do Lago
Chegado é o tempo da colheita!
Há muitos frutos para se colher
Depois dum verão causticante (e)
Antes que o inverno de águas torpes
Carregue para o leito das correntes
Toda beleza das rosas e das flores.
Venho dos campos de terras tombadas
Ardidas e calcinadas por mãos assassinas
Onde se plantaram o fogo do madeiro
Hoje a cruz de cinzas que volatiza a Cida
Transformando todos os frutos em carvão
Enferrujando a lavoura e a água e o sal.
Lavrei-me de todas essas rudezas (e)
Diante do altar de todas as plantações
Viscerálgico como carpideira solitária
Fui carpindo uma a uma minhas dores
Plantando em cada semente visionária
A possibilidade de me ser toda floresta.
Todo o fruto da terra que ainda me resta
Colho-o com as mãos duma criança
Para comê-lo com o sabor da esperança
Visceral diante do altar da vida
Como se fora a última hóstia dos mortais
Para queimar o fogo dos dias finais.
Talvez assim – quem sabe! – o fogo pagão
Aprenda a arar a terra de todos os campos
Salvar todas as nascentes de qualquer Jordão
Capaz de banhar a vida com todos os encantos
Gerados do ventre da terra… E ao final
Cantar o terço numa oração de bem-aventurança.
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