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Releituras do Mhario Lincoln: "Rodó: a louca invisível das ruas de São Luís do Maranhão"

Durante aqueles segundos em que encarei seus olhos, senti uma história refletida neles. Algo tipo abandono, incompreensão, desamor e solidão.

25/04/2021 11h27 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: ml
Mhario Lincoln
Mhario Lincoln

Releituras:

Rodó: a louca invisível das ruas de São Luís do Maranhão

(*) Mhario Lincoln

 

Eu e Dolores, minha primeira namoradinha do colégio, saímos da aula no Liceu Maranhense naquela segunda-feira com vontade de tomar um sorvete diferente. Chamavam de ‘milk-shake’. E só quem fazia à época, em plena rua Grande, a principal via comercial de São Luís-Maranhão, era a recém inaugurada ‘Lojas Acácia’. Tinha de morango e chocolate misturado a uma grande novidade: o Ovomaltine, produto energético importado da Suíça, por representantes brasileiros, desde 1930, mas que só nesse período, chegava na cidade.

Dobrando a esquina da rua do Passeio para descer a rua Grande, a primeira parada foi inevitável para admirar o Palacete Gentil Braga, um prédio de azulejos, tombado pelo Patrimônio Histórico, construído no século XIX. De repente, alguém ‘trisca’ em meu ombro e pede “um de cumê”. Dolores se afasta rapidamente de mim e se encolhe mais perto da parede do sobrado, levando os braços ao peito. 

Ilustração: ML

Ao virar, dei-me conta dos olhos esbugalhados. Pareciam ser maiores que a boca com poucos dentes. Era ‘Rodó’, figura folclórica das ruas da cidade. Diziam ser ela "fugida de um manicômio local". Eu senti medo, sim. Não era a 'Rodó' que eu ouvira falar. Uma mulher faceira, toda 'empiriquitada', com batom nos lábios, perfume, roupas justas e cheia de pulseiras nos braços. Diante daquela cena completamente diferente, confesso que tive medo. Mas depois, ela me encarou – com expressão faminta – e repetiu “dá um de cumê”. Eu tinha alguns trocados no bolso. Havia sobrado do meu lanche na banca do ‘Companheiro’ vendedor de cachorro-quente na porta do Liceu. Um sanduíche diferente, apesar do nome. Era feito de pão massa-fina, com carne moída bem temperada, rodelas de tomate e pepino, sem esquecer a pimenta feita por ele mesmo, à gosto do freguês. Todas as segundas, uma promoção imbatível. Pedia dois e pagava a metade do segundo. Por isso sobraram os trocados.

Na verdade, eu pensava em levar o segundo para Dolores, lá no pátio interno do Liceu, jogando vôlei. Mas... estava tão saboroso que decidi oferecer o milk-shake na saída para compensar o cachorro-quente do ‘Companheiro’. E assim se sucedeu, até encontrar ‘Rodó’.

Olhei por alguns instantes aquele rosto e decidi tirar o troco do lanche e dar para ela. Logo, aquela expressão triste se transformou em alegria. Abriu um sorriso do ‘tamanho de um bonde’ e tentou me abraçar. Recuei e ela insistiu. Recuei novamente até colar as costas no azulejo secular do prédio Gentil Braga. Acuado, ela se atirou nos meus braços e chorou! Senti todas as lágrimas sem vê-las. A cabeça dela pendia sobre meu ombro direito. A camisa branca, da ‘farda’, à altura do ombro, ficou molhada, favorecendo a marca dos lábios dela, quase invisíveis, como invisíveis eram todos aqueles que perambulavam pelas ruas, sem pelo menos, alguém parar e ouvir suas histórias.

‘Rodó’, então, deu de ombros e se perdeu na esquina da rua do Passeio. Ela estava praticamente nua. Um ‘corpete’ e uma calcinha de pano colorido, desses que a sociedade usa para costurar suas roupas de fofão para as folias de Momo, com guizos, felicidade e diversão. 

Bastava isso, para cobrir suas intimidades. E mesmo assim, passava despercebida de todos e de tudo, abordando transeuntes que se esquivavam e lhe davam as costas.

Aprendi demais com ‘Rodó’, a Louca das Ruas. Durante aqueles segundos em que encarei seus olhos, senti uma história refletida neles. Algum tipo de abandono, incompreensão, desamor e solidão. Não interessava se ela agia dessa forma. Possivelmente agia assim para chamar a atenção e se fazer visível.

*************

Muitos anos depois, jornalista e trabalhando no ‘Jornal Pequeno’, entrevistei alguém que conhecia ‘Rodó’, desde a infância. E falei que não entendia meu encontro com Rodó naquelas condições adversas ao que realmente tinha ouvido falar. Ele me disse que eram raríssimos os surtos psicóticos dela. Porém, quando acontecia, fazia exatamente desse jeito. Após me explicar sobre esse fato (até então desconhecido), me contou a história: ela trabalhava de babá na casa de um ‘bacana’, que havia ido ao interior maranhense buscá-la para tomar conta dos filhos dele.

Não demorou muito para que a menina adolescente, morena de olhos vivos, despertasse o interesse sexual do patrão. E, num domingo de Carnaval, quando a patroa e os meninos saíram para participar de uma matinal infantil, o patrão, na sala, bebendo e cheirando ‘rodó’ (lança-perfume), chamou-a e começou a acariciá-la. Ela refutou! Bastou isso para que o patrão enfurecido lhe batesse violentamente e lhe privasse da respiração, forçando-a a cheirar o entorpecente até ela desmaiar. Foi estuprada e abandonada no quarto dela, depois.

Quando a esposa voltou, o patrão contou a história de que a babá teria roubado os ‘rodós’ dele, ficado maluca e tentado matá-lo. Chamaram a polícia. O médico-legista constatou que ela estava entorpecida de ‘rodó’. Essa foi a razão de Maria do Carmo, a babá, ter sido internada por um longo período, em uma casa de tratamento psiquiátrico, até tornar-se adulta e fugir de lá com a roupa do corpo. 

No manicômio, todos a chamavam de ‘rodó’ por causa do episódio com o ex-patrão. Ninguém acreditou na história verdadeira. Ninguém deu mais bola para a pobre Maria do Carmo, nem os internos que dela morriam de medo.

*************

Quando lhe dei os trocados, tentei segui-la com os olhos. Vi quando virou a esquina da rua do Passeio e percebi que aqueles trajes íntimos, era a forma de protestar contra a sociedade silenciosa, como se quisesse provar sua inocência. Mesmo continuando a ser somente uma ‘louca invisível’.

Ainda deu para ver ‘Rodó’ entrar na ‘Casa Amarela’, comércio de miudezas, e com os trocados comprar uma pequenina boneca de plástico, apertar com a mão direita por sobre o peito e desaparecer no rumo da Praça Deodoro, com um pano de cortina enrolado à altura do ‘rendengue’, doado pela dona da loja. 

Seria então, a carência, a solidão, o desprezo, a verdadeira fome de 'Rodó', quando ele me pediu "um de cumê"?

Quanto mais apertava a boneca de plástico ao peito, mais ela aparentava felicidade. Nem sei quanto tempo tal emoção durou. Mas naquele momento, ela estava feliz!

 

*Mhario Lincoln é jornalista e presidente da Academia Poética Brasileira.

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