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"A LÃ VERMELHA". Academia Imperatrizense de Letras, 30 anos. Por Edmilson Sanches

Homenagem.

27/04/2021 09h47 Atualizada há 2 semanas
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Por: Mhario Lincoln Fonte: Edmilson Sanches
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Terça-feira, 27 de abril de 2021 - Academia Imperatrizense de Letras, 30 anos

A LÃ VERMELHA

Convidado: Edmilson Sanches*

Uma reflexão para o ano 2091

Foto: Edmilson Sanches

Na parte ocidental da África, os pastores utilizavam um interessante sistema para contar suas ovelhas.

Cada pastor agrupava seu rebanho e, em fila, os animais iam passando, um a um. A cada ovelha que passava, uma concha era enfiada em uma lã branca. Quando chegava a dez, suspendia-se a contagem, tiravam-se todas as conchas da lã branca e colocava-se uma delas em outra lã, de cor azul.

Reiniciava-se a contagem e, a cada grupo de dez conchas na lã branca, correspondia uma nova concha enfiada na lã azul. Quando esta, por sua vez, contasse dez conchas, à maneira do que acontecia na lã branca, também tinha todas as suas conchas retiradas e uma nova lã, agora de cor vermelha, recebia uma concha.

Parece claro que a primeira lã, a branca, reunia as conchas das unidades; a azul, a das dezenas; e a vermelha, a das centenas. Se a quantidade total de um rebanho fosse, por exemplo, 532 ovelhas, o pastor deveria ter cinco conchas enfiadas na lã vermelha, três na azul e duas na branca. A lã azul, portanto, era múltiplo de dez da lã branca e a vermelha, múltiplo de dez da azul. Não há registro do que vinha após a lã vermelha -- talvez outra lã vermelha, ou talvez não houvesse, por justiça social, nem um pastor com mais de mil ovelhas...

No rebanho das eras, a Academia Imperatrizense de Letras (AIL) completa seus 30 anos neste dia 27 de abril de 2021. No ano passado, portanto, a AIL cobriu-se pela última vez de céu e nuvem, ao pôr suas duas primeiras conchas na lã azul e oito conchas na lã branca. Agora, são 30 anos e está tudo azul.

Trinta anos até pode não ser muito, mas já é representativo -- dir-se-ia, já foi suficiente para comprovar que Academias, quando com propósitos (bons propósitos), e trabalho (muito trabalho), são sim úteis e necessárias a uma sociedade.

Desde o final da década de 1970 ou início dos anos 1980, no século  -- e milênio -- passado (soa estranho isso), que eu tencionava reunir um grupo de humanistas para desenvolver ações relacionadas à cultura de Imperatriz. Neste aspecto, a cidade permanecia sem um referencial mais consistente, institucionalizado, embora sua história de quase 130 anos, à época. 

Procedente de Caxias, onde a cultura, sobretudo a cultura literária, assenta-se em bancos de praça, mina de rios e riachos, brota de brotos de flores e gorjeia em cantos de sabiás, com a alma impregnada disso tudo, estranhava que, sendo uma terra de também tantas riquezas, Imperatriz ainda não tivesse um símbolo de tradição que representasse uma delas -- sua cultura literária. A Academia é esse, embora não único (ainda bem...), símbolo cultural.

Mas, inicialmente, antes da Academia, contatei pessoas e juntei alguns de seus escritos e lancei, em 1979, o "Safra – Jornal de Literatura", de muitas intenções e poucas edições. Depois, na universidade, curso de Letras, o lançamento da "1ª Antologia Literária dos Universitários de Imperatriz". Em ambos os casos, embora tenham existido e tenham documentado produção literária, nenhuma dessas ações persistiu o suficiente para encher de conchas a primeira lã.

Mas, à medida que a Vida enfiava sua concha de anos na lã do Tempo, diversas outras ações culturais e comunitárias, individuais e coletivas, foram se somando no meu fazer cultural e social no município de Imperatriz. Hoje, para contar uma a uma essas tantas ações, a lã da História teria de ter outra cor, que não é nem branca nem azul nem vermelha.

No conjunto desses (a)fazeres, a Academia Imperatrizense de Letras é símbolo, é marca, é ação -- e, com 30 anos, firma-se, senão como tradição, ao menos como a mais luzidia referência, o mais orgânico e organizado dos elementos do “sistema” cultural não oficial do município e mesmo da região, senão de todo o interior do Estado.

Como agregado de literatos e humanistas “em geral”, mas, antes disso, como uma reunião de pessoas cientes e conscientes, a Academia não para na letra, não limita a linha de seu verso e sempre aumenta pontos contando mais que contos – constrói realidade(s), pois que é em uma Realidade maior que ela atua e da qual é ao mesmo tempo agente e usuária. Assim, a Academia envolve-se em assuntos e desenvolve ações para além do espectro tradicional a que muitas entidades do gênero se circunscreve. Porque, à maneira freiriana, antes de ler os livros é preciso ler o mundo. Antes de falar ÀS pessoas impõe-se falar COM elas.

Neste 27 de abril de 2021, a Academia veste-se toda de azul. E deve ser azul de metileno que é aquele que, como ensina a Química, protege contra ataque de certos pequenos seres, funciona como antídoto contra envenenamentos e, ô, Glória!, ainda pode indicar que, embora as décadas, estamos menos enferrujados (a Química chama de oxirredução...). Assim, a Academia distancia-se dos anos de experimentos e os consolida em três décadas de experiência. Afirmando-se como tradição na História, mas pensando a contradição do quotidiano.

É assim que a Academia Imperatrizense de Letras deve chegar à lã vermelha, em 2091, centenariamente jovem.

Porque velho não é o que nasce no século passado. Velho... é o que não vive o presente.

Porque velho não é ter nascido há anos. 

Velho é não renascer agora.

Chegaremos à terceira lã.

*EDMILSON SANCHES

Fundador e ex-presidente da Academia Imperatrizense de Letras

Cadeira 5 – Patrono: Vítor Gonçalves Neto

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Palavras do poeta Salgado Maranhão (Original do texto):

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