"Editoras, parem de olhar para as infames classificações de livros mais vendidos..."
(*) Giorgio Agamben
"(...) Eu conheço – e cada um de vocês, eu acredito, poderia citar – livros que mereciam ser lidos e não foram lidos, ou foram lidos por pouquíssimos leitores. Qual é o estatuto desses livros? Eu penso que, se esses livros eram verdadeiramente bons, não se deveria falar de uma espera, mas de uma exigência. Esses livros não esperam, mas exigem ser lidos, mesmo que não o tenham sido ou não o serão jamais. A exigência é um conceito muito interessante, que não se refere à esfera dos fatos, mas a uma esfera superior e mais decisiva, cuja natureza deixo a cada um de vocês precisar.
Mas agora gostaria de dar um conselho aos editores e àqueles que se ocupam de livros: parem de olhar para as infames, sim, infames classificações de livros mais vendidos e – presume-se – mais lidos e tentem construir em vez disso na mente de vocês uma classificação dos livros que exigem ser lidos. Só uma editora fundada nessa classificação mental poderia fazer o livro sair da crise que – pelo que ouço ser dito e repetido – está atravessando.
Um poeta compendiou uma vez a sua poética com a fórmula: “ler o que não foi jamais escrito”. Trata-se, como vocês veem, de uma experiência de algum modo simétrica àquela do poeta que escrevia por/para o analfabeto que não pode lê-lo: à escrita sem leitura, corresponde aqui uma leitura sem escrita. Com a condição de precisar que também os tempos estão invertidos: lá uma escrita que não é seguida por nenhuma leitura, aqui uma leitura que não é precedida por nenhuma escrita.
Mas talvez em ambas essas formulações está em questão algo de similar, ou seja, uma experiência da escrita e da leitura que põe em questão a representação que nos fazemos habitualmente dessas duas práticas tão estreitamente ligadas, que se opõem e ao mesmo tempo remetem a algo de ilegível e de inescrevível que as precedeu e não cessa de acompanhá-las.
Vocês terão compreendido que me refiro à oralidade. A nossa literatura nasce em íntima relação com a oralidade. Porque o que faz Dante quando decide escrever na língua vulgar, senão justamente “escrever o que não foi jamais lido e ler o que não foi jamais escrito”, isto é, aquele “falar materno” analfabeto, que existia somente na dimensão oral? E tentar colocar por escrito o falar materno o obriga não simplesmente a transcrevê-lo, mas, como vocês sabem, a inventar aquela língua da poesia, aquela língua vulgar ilustre, que não existe em nenhuma parte, mas, como a pantera dos bestiários medievais, “espalha em toda parte o seu perfume, mas reside em lugar nenhum”.Eu conheço – e cada um de vocês, eu acredito, poderia citar – livros que mereciam ser lidos e não foram lidos, ou foram lidos por pouquíssimos leitores. Qual é o estatuto desses livros? Eu penso que, se esses livros eram verdadeiramente bons, não se deveria falar de uma espera, mas de uma exigência. Esses livros não esperam, mas exigem ser lidos, mesmo que não o tenham sido ou não o serão jamais. A exigência é um conceito muito interessante, que não se refere à esfera dos fatos, mas a uma esfera superior e mais decisiva, cuja natureza deixo a cada um de vocês precisar.
Mas agora gostaria de dar um conselho aos editores e àqueles que se ocupam de livros: parem de olhar para as infames, sim, infames classificações de livros mais vendidos e – presume-se – mais lidos e tentem construir em vez disso na mente de vocês uma classificação dos livros que exigem ser lidos. Só uma editora fundada nessa classificação mental poderia fazer o livro sair da crise que – pelo que ouço ser dito e repetido – está atravessando.
Um poeta compendiou uma vez a sua poética com a fórmula: “ler o que não foi jamais escrito”. Trata-se, como vocês veem, de uma experiência de algum modo simétrica àquela do poeta que escrevia por/para o analfabeto que não pode lê-lo: à escrita sem leitura, corresponde aqui uma leitura sem escrita. Com a condição de precisar que também os tempos estão invertidos: lá uma escrita que não é seguida por nenhuma leitura, aqui uma leitura que não é precedida por nenhuma escrita.
Mas talvez em ambas essas formulações está em questão algo de similar, ou seja, uma experiência da escrita e da leitura que põe em questão a representação que nos fazemos habitualmente dessas duas práticas tão estreitamente ligadas, que se opõem e ao mesmo tempo remetem a algo de ilegível e de inescrevível que as precedeu e não cessa de acompanhá-las.
Vocês terão compreendido que me refiro à oralidade. A nossa literatura nasce em íntima relação com a oralidade. Porque o que faz Dante quando decide escrever na língua vulgar, senão justamente “escrever o que não foi jamais lido e ler o que não foi jamais escrito”, isto é, aquele “falar materno” analfabeto, que existia somente na dimensão oral? E tentar colocar por escrito o falar materno o obriga não simplesmente a transcrevê-lo, mas, como vocês sabem, a inventar aquela língua da poesia, aquela língua vulgar ilustre, que não existe em nenhuma parte, mas, como a pantera dos bestiários medievais, “espalha em toda parte o seu perfume, mas reside em lugar nenhum. (...)"
Ler a íntegra: https://revistacult.uol.com.br/home/sobre-a-dificuldade-de-ler/
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