Prefácio
"Toda Lida"
(*) Lindevania Martins
Como retratar uma mulher? As possibilidades de existência de cada uma são muitas. Pintar um retrato feminino implicará sempre em deixar alguma coisa de fora, correndo o risco de reduzir a heterogeneidade da experiência vivida. Em um ato corajoso, as competentes escritoras Adriana Bezerra Silva e Carla Sílvia Souza da Rocha aceitaram correr o risco. Se, por um lado, a completude é impossível, por outro, é necessário reconhecer que nos identificamos com muitas das vivências das nossas companheiras de gênero, enxergando as semelhanças que nos aproximam inclusive em narrativas ausentes do nosso próprio cotidiano.
“Toda Lida”, obra composta por dez sonetos e dez aforismos, abraçando incompletudes e similitudes, nasce com um objetivo declarado: trabalhar, através da arte, na superação da violência contra a mulher, em especial aquela que ocorre dentro de relacionamentos amorosos abusivos. É em tom de denúncia que é escrito o primeiro aforismo de similitude: “Calada, maltrata, agredida/Julgada, descartada, desprotegida/Afrontada, espancada, escondida/Desnorteada, anulada, sofrida/Denúncia, registro, boletim/Distância, medida, delegacia/Ameaçada, jurada, assassinada”.
Fazendo coro ao slogan de que o pessoal é político, e partindo do entendimento de que histórias individuais de violência agem sobre o imaginário coletivo, de forma que é impossível a cada mulher não ser atingida pela atmosfera de controle e opressão que recai sobre si e suas companheiras, Adriana Bezerra Silva e Carla Sílvia Souza da Rocha abordam o universo feminino em sua riqueza e complexidade, mas vão além da violência pura e simples, tratando inclusive de temas como o erotismo, como se vê em Desejo: “Nossas carnes frenéticas e desnudas/Abraçadas intensamente pelo desejo/Contornam as nossas bocas mudas”, bem como em “Senhora de Si”, em que uma mulher mulher confessa: “Gostaria de ter os meus vinte e tantos anos/Para deslizar meu corpo em tua pele macia”.
Entre as reflexões que seus poemas e aforismas nos trazem, destaca-se aquelas feitas em torno do trabalho feminino, inclusive nesse que se desenrola a partir do amor, em que palavras que remetem a um cenário idílico como “tempero” e “amor de mãe” são quebradas por outras como “delegacia” e “pesadelo”. Registre-se que o próprio título , “Toda Lida”, já remete ao trabalho das mulheres, brincando, ao mesmo tempo com o ato de leitura ou interpretação, como se fosse possível ler uma mulher completamente, como se ela fosse um texto.
Como bem salientam as autoras em sua apresentação, não é possível. Os ideais totalizantes são fadados ao fracasso, pois viver é um processo que se completa apenas ao fim.
(*) Lindevania Martins
Poeta e prosadora. Mestre em Cultura e sociedade. Defensora Pública titular do Núcleo de Defesa da Mulher e Populaçao LGBT (MA).
MARISE MANOEL Marise Manoel: “ (...) guardar poemas cansa”
FERREIRA GULLAR Cinquenta anos depois, Poema sujo retorna a São Luís como memória, linguagem e resistência
ESPECIAIS Uma vitória em versos: a Academia Cearense de Literatura de Cordel escolhe seu Hino
CORDEL BRASILEIRO ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica
JOEMA CARVALHO Joema: Que seja 'húmus', enquanto durar. E 'manejos de poda', enquanto houver luta!
Auxilium duplex Há um grande movimento contra alimentar a biografia de Carolina Maria de Jesus com a 'romantização da miséria humana'. Mín. 6° Máx. 14°
Mín. 6° Máx. 10°
Tempo nubladoMín. 6° Máx. 16°
Tempo nublado
Coluna de RUY PALHANO A crise na Justiça e os impactos comportamentais, institucionais e morais
Academias Brasil/Exterior Coirmãs JOÃO AURÉLIO DO VALE: “ENQUANTO HOUVER QUEM CARREGUE ESSA BANDEIRA, A HISTÓRIA DO MEU PAI NÃO IRÁ MORRER”
Marco Neves De Homero ao autoclismo português: 3000 anos de grego
Esmeralda Costa ACLC celebra cinco anos de existência cultural e escreve página histórica