Terça, 25 de Agosto de 2026 15:39
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Cultura JOEMA CARVALHO

Joema: Que seja 'húmus', enquanto durar. E 'manejos de poda', enquanto houver luta! 

A trajetória literária já permite observar essa continuidade: cada dia mais autêntica, mais consistente, mais madura.

25/08/2026 14h36 Atualizada há 47 minutos atrás
Por: Mhario Lincoln Fonte: Editoria de Literatura e Arte
Imortal APB-PR, poeta Joema Carvalho. (foto pessoal).
Imortal APB-PR, poeta Joema Carvalho. (foto pessoal).

Editoria de Literatura e Arte c/Mhario Lincoln*

Há uma diferença entre escrever sobre a floresta e escrever a partir de uma formação que aprendeu a lê-la. Joema Carvalho pertence ao segundo caso. Engenheira florestal, doutora, escritora e integrante da Academia Poética Brasileira no Paraná, ela levou para a literatura um repertório pouco frequente na poesia: xilema, floema, clorofila, dossel, seiva, solo, fungos, ciclos e regeneração deixam o domínio técnico e passam a participar da construção do verso. Não aparecem como ornamento vocabular. Fazem parte de sua maneira de compreender a existência.

A trajetória literária já permite observar essa continuidade. Joema é autora de Luas & Hormônios, lançado originalmente em 2010, em edição selecionada pela Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, com versão digital posterior; publicou Crônicas de Uma Jornada Florestal, em 2024; participou como coautora de Entre Botânicas Decoloniais: As frutas silvestres de H. D. Thoreau e as frutas brasileiras; organizou e também integrou Tuíra, projeto coletivo de mulheres dedicado à literatura e ao meio ambiente. Sua produção aparece ainda em coletâneas nacionais e internacionais e, há anos, em páginas da Plataforma Nacional do Facetubes.

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É nesse conjunto que floresta, verde, oxigênio e água deixam de ser temas isolados. São elementos de uma mesma visão. Em Cheiro de Cedrela, Joema escreve: “sou várias com as estações”. A frase é curta e esclarece muito de sua poética. A árvore muda sem perder a identidade. O ser humano também atravessa períodos de recolhimento, expansão, perda e recuperação. No mesmo poema, a linguagem científica entra diretamente no campo lírico, inclusive quando a autora aproxima minerais, clorofila e produção de oxigênio da percepção de um corpo que vive, envelhece e se modifica.

Essa relação entre conhecimento técnico e criação literária já ultrapassou o espaço do livro. Em 2024, na Semana da Sustentabilidade da UTFPR, Joema apresentou a palestra “Ambiente Natural: Um Recurso Literário”, dentro de uma programação dedicada ao encontro entre mulheres, natureza, literatura e pintura. O registro institucional da universidade ajuda a compreender que sua aproximação entre ciência ambiental e literatura não é eventual; integra uma linha de trabalho assumida publicamente.

A água ocupa outro lugar recorrente. Em março de 2026, no texto Mulher é Água, a definição aparece sem preparação retórica: “Mulher é água.” Em seguida, a autora associa água, vento, rocha e desgaste à experiência feminina. A imagem interessa menos como elogio à mulher e mais como formulação de movimento. Água não se apresenta como fragilidade. Água exerce pressão, contorna, altera superfícies, encontra passagem. Joema transfere essa física elementar para a experiência de quem precisa administrar ciclos, responsabilidades, pausas e escolhas.

Esse procedimento já estava presente em Luas & Hormônios, obra cujo próprio título aproxima natureza, corpo e ciclos femininos. Ao longo dos trabalhos posteriores, a relação se amplia: a mulher deixa de ser apenas sujeito de uma experiência individual e passa a ser observada dentro de sistemas maiores — família, memória, paisagem, ambiente, tempo. Em textos como A Lenda da Aurora Boreal, a figura feminina surge associada à liberdade, à transmissão entre gerações e à decisão sobre o próprio caminho.

Há, portanto, um conteúdo existencial bastante definido nessa escrita. Em Joema, pertencimento não funciona como declaração de origem. É relação. O indivíduo existe dentro de um sistema, exatamente como uma árvore existe em função de solo, água, luz, organismos e outras árvores. Essa leitura reaparece em sua poesia quando elementos naturais recebem função equivalente à memória, ao afeto e à consciência. A formação florestal fornece à escritora não somente assunto; fornece estrutura de pensamento.

Uvas do Mar talvez seja um dos exemplos mais econômicos dessa operação. O poema começa: “uvas do mar / alimentam-se / do tato / da brisa sutil”. Poucas palavras, quase nenhuma explicação. A matéria vegetal é percebida pelo toque, pelo ar, pela maresia. O Facetubes já havia chamado atenção para essa economia verbal e para a maneira como a autora aproxima botânica e percepção sensorial.

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Em outros poemas, o olhar se desloca da ecologia externa para a investigação do próprio sujeito. Em versos publicados pelo Facetubes, Joema escreve: “no translúcido das folhas / busco o cheiro / através do tato”. É uma construção reveladora. Os sentidos aparecem misturados; folha, cheiro e tato deixam de obedecer às divisões convencionais da percepção. A natureza serve como instrumento de leitura daquilo que acontece dentro da pessoa.

Essa dimensão também aparece quando a natureza desaparece da superfície do poema. Em Cartografia, publicado em 2024, relações humanas passam a ser descritas com vocabulário de orientação, distância, ângulo, deriva e magnetismo. O eu e o outro são colocados numa espécie de mapa afetivo. A experiência profissional da engenheira reaparece na escritora de maneira indireta: medir, localizar, reconhecer limites, perceber deslocamentos.

Em Crônicas de Uma Jornada Florestal, essa convergência ganha forma mais ampla. O livro percorre paisagens brasileiras e observa a relação humana com o ambiente. A obra foi tema de entrevista no programa Literatura Viva, da Rádio UEL, conduzida pelo professor Frederico Fernandes, ocasião em que Joema tratou da literatura como possibilidade de ampliar a percepção sobre natureza e sustentabilidade. A literatura, nesse caso, não substitui o conhecimento ambiental. Dá a ele outra possibilidade de circulação.

A produção mais recente mostra também uma autora em atividade e submetendo seu trabalho a novos espaços de leitura. Em junho de 2026, Joema ficou em segundo lugar em seleção da Rede Internacional Movimentos Docentes com o texto Trem Azul e passou a integrar a coleção Debaixo da Árvore — Crônicas e Contos do Sul, projeto da V&V Editora. O dado é relevante porque situa sua produção para além do circuito acadêmico ao qual pertence e registra um reconhecimento recente de seu trabalho em seleção literária.

Talvez esteja aí a chave mais adequada para ler Joema Carvalho. Sua floresta não é decoração. É método de observação. O verde possui função biológica. A água possui movimento. O oxigênio é consequência de um processo. A mulher possui história, corpo e decisão. O pertencimento nasce da relação entre essas partes. Sua poesia procura exatamente essas conexões.

No conjunto de sua obra, a palavra “respiro” ganha então um sentido menos abstrato. Respirar depende de um ambiente. Depende de troca. Depende daquilo que permanece vivo ao redor de nós. A própria floresta ensina isso sem discurso: nenhuma árvore produz uma floresta sozinha. É nesse ponto que a escritora e a engenheira florestal se encontram. Uma conhece o nome dos processos; a outra procura a linguagem capaz de lhes atribuir experiência humana.

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Joema Carvalho faz poesia a partir desse encontro.

Tanta coisa para escrever, sentir e falar que a editoria esqueceu de, nesta data (24.08.2026) parabenizar Joema por mais um ciclo. Que não seja Húmus, enquanto durar. E, ainda, manejos de poda, enquanto houver luta! 

Mhario Lincoln
Presidente da Academia Poética Brasileira

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