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Convidado especial: De João Batista do Lago . "Sonho de uma noite de primavera".

Contos & Crônicas

11/10/2021 às 10h40 Atualizada em 11/10/2021 às 11h13
Por: Mhario Lincoln Fonte: JB do Lago
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JB do Lago
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Sonho de uma noite de primavera

De João Batista do Lago *

Fazia dias que vinha atormentado, desorientado, desconexo de tudo e de todos. Era uma situação incômoda. Alimentação e sono precários. Inatividade completa. Foi quando, naquela noite, algo ocorreu e que me deixou perplexo. Totalmente perplexo. Encontrava-me sonolento e já quase dormindo. De repente senti algo fustigando os meus pés. Sem olhá-los esfreguei-os um sobre o outro e vice-versa. Passados alguns segundos aquela sensação se me ocorrera novamente. Agi como da maneira anterior. Entretanto, pela terceira vez, aquela sensação incômoda de que algo estava me tocando os pés ficou mais evidente. Resolvi, então, verificar o que estava me mexendo. Inicialmente imaginei ser uma aranha. E ao pensar nessa possibilidade ocorreu-me um verdadeiro calafrio. Tomei coragem e resolvi verificar o que estava percutindo os meus pés…

Fui tomado literalmente por um susto indescritível. Ao ver aquela imagem encolhi-me todo. Um misto de medo e pavor tomaram de conta de todo o meu corpo. Estava em pânico. E não me lembro de qualquer outro momento idêntico em toda a minha existência. Logo imaginei-me louco. “Estou ficando louco…” - pensei subitamente. Em seguida imaginei-me mentecapto. Somente nesses dois casos – loucura ou morte – poderia ser possível vivenciar o que estava acontecendo comigo naquele instante inusitado para mim, mas com certeza, para qualquer outro ser humano. Aos pouquinhos fui recobrando a minha certeza de que não estava com escassez de capacidade intelectual. Aquela experiência era real. Tão real quanto o meu pensamento…

“Como poderia aquilo está acontecendo!?” - questionava-me sem parar. “Por quê via-me numa outra espécie!?” - indagava-me atônito, e agora, definitivamente perturbado, pois, nada de lógico apresentava-se como factual, porém, aquela imagem pictórica estava refletida e refletindo no meu espelho imaginário. Era perturbador aquela experiencialidade. “Sim, eu sou um ser humano e tenho certeza de que sou constituído de corpo, mente e alma, no entanto, eu não estou me refletindo como um ser hamano” – pensava aceleradamente buscando uma resposta, sequer, para a solução daquela experienciação. Por outro lado, aquela imagem que se me refletia era constituída de corpo mas, com certeza, sem mente e sem alma. “Como poderia ser eu? Como poderia me representar?” - indagava-me abstruso e recôndito…

E enquanto martelava minha alma por respostas convincentes e que fizessem sentido para a minha mente e meu corpo, então perdidos naquele labirinto, ouvi uma voz feminina aveludada e pausadamente irritante perguntando: - “Por quê te martirizas tanto comigo? Por quê desejas eliminar-me da tua existência? Por quê não me aceitas como teu puro espírito? Por quê te recusas a me ser-me como teu eu?”. Se pasmo estava, neste instante, fiquei totalmente perplexo e confuso diante do acontecimento. Ela era real! Ali não estava apenas a representação de uma figura. Ali estava diante de mim, uma coisa que me questionava a partir de agora. Ali estava a coisa sui de mim mesmo. Ali estavam o espelho e o Narciso. Ali estavam o drama, a tragédia e a comédia de mim mesmo. Enfim, alí me estavam os tudos e os todos.

Ato contínuo perguntei-lhe meio sem jeito: “Por quê me perturbas?”

E ela sem-cerimônias balançou a cabeça negativamente além de esboçar um sorriso sarcástico, o que me deixou profundamente irritado, diria mesmo, com raiva profunda daquela figura que se me aparecera do nada. E aquele sorriso evoluiu para uma gargalhada estridente que chegou mesmo a incomodar os meus ouvidos e todo o meu corpo. Intentei chutá-la mas, ela, prontamente fez um sinal de reprovação dizendo: - “Não. Não podes agir dessa maneira! Não podes eliminar, pura e simplesmente, a Coisa que é toda tua… e somente tua”. Estas palavras me perturbaram ainda mais. Tive vontade de esganá-la… de eliminá-la definitivamente. E ela continuou: - “Sou o teu Bem e sou o teu Mal, assim como não sou nem teu Bem, tampouco teu Mal. Eu tão-somente sou a Coisa imanente que existe no teu Si. Sou a Estética, sou a Ética, Sou a Moral e a Religião e a tua Filosofia. Sou a Poiésis e a Poesia. Sou o Bufão e o Vilão. Sou a ferida e a cicatriz. Sou tua Guerra e sou tua Paz. Sou a Miséria e sou a tua Riqueza. Sou a tua Sorte, assim como sou o teu Azar. Sou o teu céu, assim como o teu inferno. Enfim, sou o Deus e sou o Diabo.

Após ouvir tal discurso pensei: “Como pode esta figura abominável pensar tudo aquilo que penso? Como pode ela assegurar para si todos os meus valores, todas as minhas teorias, todos os meus conceitos? Não. Nada disso pode ser verdadeiro. Eu devo está louco!

E novamente ela balançou a cabeça negativamente com aquele sarcasmo visceral.

Tomei-me de coragem plena e perguntei-lhe: - “Por quê me perturbas? Que te fiz eu para vires perturbar a minha paz?”

De que paz falas? - redarguiu.

- Estava eu aqui tranquilo com os meus pensamentos e já quase dormindo quando me aparecestes do nada…

- Como assim, do nada!? Porventura te consideras “nada!?”. E enfatizou: - “Eu sou a tua existência em ato… eu sou os teus pensamentos! Eu sou, enfim, a tua alma finita e infinita. Sou a tua eternidade procrastinada no teu corpo finito. Sou a morte que transpira dos teus poros em direção à infinitude da natureza…

- Por quê imitas o que penso, o que falo e o que escrevo?

- Porventura esquecestes que sou os esgotos por onde fluem todas as palavras, todos os versos, todos os poemas, todos os romances, todas as escrituras sagradas e apócrifas? Por onde vazam todas as vidas? E todas as mortes?

- Isso é puro proselitismo – disse eu.

- Pode ser – respondeu ela – mas, se perceberes com atenção devida não vives sem os meus dramas, as minhas tragédias e minhas comédias. Eu estou aqui para lembrar-te definitivamente que sou o teu corpo, que sou a tua mente e que sou a tua alma. Como teu corpo sou um teatro. Como tua mente sou toda criação. Como tua alma sou todo o teu texto.

A essas alturas já me estava acostumando com a aquela figura, mesmo que ainda restasse um pouco de asco por ela, com aquele ser que continuava a me incomodar devido a sua altivez peçonhenta e altamente narcótica. Ao mesmo tempo intrigava-me aquela aparência despótica e toda a sua representação em mim. Eu não me via como um ser humano mas, como aquela figura minúscula postada diante de mim, impávida mas, impoluta, desde aquele instante em que se me assomou.

No dia seguinte acordei bem tarde. E antes de abrir definitivamente os olhos, pensei naquela ratazana que me fez companhia por toda a noite. Sim, agora sei que tudo não passou de um sonho. Um sonho estranho mas, como sonho, muito real. E durante muitas horas pelo dia corrente tive a sensação de que aquela ratazana estava em mim, estava comigo. Pensava comigo. Que era verdadeiramente a minha alma. Senti prazer e gozo mas, sobretudo, desejo e potência de viver.

*João Batista do Lago é poeta, membro da Academia Poética Brasileira e articulista do FACETUBES.COM.BR

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