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Antologia é um sucesso de crítica. Aplausos para Dolores Flor da Cruz Leite e Nauza Luza Martins

Antologia

25/10/2021 às 12h33 Atualizada em 25/10/2021 às 13h34
Por: Mhario Lincoln Fonte: Divulgação
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LIVROS FÍSICOS: Ufa! eles ainda existem.

Mhario Lincoln

Eu aplaudo aquelas pessoas que insistem em produzir obras em livros físicos. Essa atitude é algo de grande relevância, haja vista a tendência inevitável de transformar a leitura em algo totalmente virtual, através dos e-books eletrônicos.

E mais ainda: um livro físico de qualidade. Essa análise é o resultado de minha leitura, neste final de semana da "Antologia dos Escritores Contemporâneos", organizada por Dolores Flor da Cruz Leite, homenageando a poeta e colaboradora do www.facetubes.com.br, militante cultural Nauza Luza Martins e com a participação recorde de poetas e escritores de muitos lugares do Brasil, destacando-se Bernadete Laurindo, Irineu Jaeger, Manoel Rodrigues Leite e Romeu Donatti (Sinop MT), Helena Takka (S.Paulo), Isabella Hendrix (BH), Leni Zilioto e Neiva Pagno (Lucas do Rio Verde MT), Lúcia Araújo (São Carlos MG), Mauza LKuza Frazão (S.Luís-MA), Roberto Monadeo (Brasília), Rosangela Schmidt (Florianópolis), Valter Figueira (Carlinda MT) e Vânia Sarges (Abaetetuba PA).

O livro é composto por uma prosa suave, bem elaborada, escrita por cada participante, mostrando a variedade de costumes e pensamentos que este Brasilzão possui. Ideias, regionalidades, devaneios próprios, inquietudes e tantas outras características que só mesmo um volume desses poderia reunir.

Portanto, fica meu agradecimento a Nauza Luza Martins, em especial, por ter-me dado a oportunidade de mostrar minha narrativa, "No meio do Rio, um Redemoinho Existencial", onde falo de um encontro muito especial durante uma tempestade, em meio à floresta tropical de minha região. Abaixo, um conto de Nauza Luza Martins e o meu. Ambos publicados nesta coletânea:

O MOÇO DA JANELA

Nauza Luza Martins

Era a quarta vez naquele dia que Sabrina passava naquela rua e lá estava ele. Rosto cínico e olhar penetrante. Olhava-a como se quisesse despi-la. “Será que não tinha nada melhor para fazer do que ficar o dia todo estatelado naquela bendita janela? ”. Sabrina se perguntava diariamente, e acabava sempre irritada ao lembrar que não só a rua como precisamente aquela casa, eram para ela passagens obrigatórias. Ela ia e voltava do trabalho ou a qualquer lugar que fosse e lá estava ele sempre de plantão com seu meio sorriso enigmático na janela.

Sentia emoções contraditórias. Ora ficava irritada ora satisfeita ao pensar nele, a quem havia apelidado de “o moço da janela”. Com o tempo, acostumara-se a vê-lo como parte integrante dos enormes e antigos casarões daquela rua. Por várias vezes já havia imaginado aquela janela sem ele, ali debruçado, e não gostara da sensação. A rua ficaria tristemente vazia, perderia aquela graça e expectativa que a presença daquele homem de alguma forma lhe proporcionava.

Todos os dias enfrentava o mesmo ritual. Saía de casa às sete horas da manhã, já um pouco esgotada pelas tarefas domésticas exigidas pelos dois irmãos mais velhos que relutaram inicialmente em aceitar sua necessidade de trabalhar. “Não lhe damos tudo o que precisa? ” Perguntaram em uníssono.

Na verdade, eles foram surpreendidos com o fato já consumado. Sabrina arranjou um emprego com a ajuda de uma amiga da igreja e, só os informou no primeiro dia de trabalho quando perguntaram aonde ela ia tão cedo, toda arrumada e perfumada. 

Eram muito ciumentos, carinhosos e cuidadosos. Se sentiam responsáveis por sua segurança e sobrevivência na cidade grande onde sua mãe concordara que a levassem da pequena cidade natal onde nasceram e a família ainda vivia para continuar os estudos e buscar outras perspectivas para sua vida.

Sabrina sempre fora determinada, gostava de estudar, fazer novos amigos e sonhava em trabalhar para ser independente financeiramente. Se sentia incomodada em depender dos irmãos para suas mínimas necessidades. Os irmãos saíram de sua pequena cidade decididos a vencer na vida e a tirar a família da situação de pobreza em que sempre viveram.

Todos os dias, na volta para o almoço com os irmãos no espaçoso apartamento de um só cômodo onde viviam, passando ali, próximo à casa verde de janelas brancas, sentia uma estranha sensação de bem-estar. Desejava ter coragem para se dirigir ao moço da janela que a fitava com seu costumeiro meio riso e olhar misterioso com um não sei quê de sarcasmo e ironia. Qual seria seu nome? Antônio, Pedro, João? Antônio lhe ficava bem, ele tinha um certo ar de Antônio mesmo! Era tão familiar e tão estranho ao mesmo tempo, sempre ver aquele moço na janela e nada saber sobre ele.

Já durava meses aquele encontro diário, a troca de olhares, um quase relacionamento, sem palavras. Ele parecia divertir-se ao vê-la. Tinha um ar de “gozador da cara de todo mundo” que a irritava. Mas tinha uma certeza: ele a observava diariamente com certo interesse. Sabia que chamava a atenção dos homens. Tinha seu próprio estilo de se vestir. Possuía cabelos bonitos, longos e ondulados, olhos expressivos e o corpo cheio de curvas. Já ouvira isso antes da sua mãe.

Finalmente descobriu que ele se chamava Daniel. Alguém que passava o cumprimentou com um “Oi Daniel, tudo bem? ” Parecia tão simples e o nome bíblico lhe caía bem, era inusitado. Sentiu-se repentinamente íntima dele. Até já sabia seu nome.

Naquela tarde olhou-se longamente no espelho, precisava se cuidar mais. De repente, começou a se sentir negligente com sua própria imagem. Se sentia bonita mas tinha consciência das limitações financeiras para roupas, sapatos e bolsas melhores. Acreditava que sua postura altiva e segura compensava seu estilo simples e despojado de se vestir por ora. 

- Sabrina! Ouviu alguém chamá-la pelo nome. Virou-se e viu Daniel em pé na porta da casa verde de janelas brancas. Ainda incrédula, viu-se frente a frente com ele. Era alto e mais bonito de perto. Ele a olhava fascinado, parecia ouvir o som descompassado de seu coração. Teve ímpetos de abraçá-lo, mas conteve-se. Sentia-se leve, flutuante e aceitou, sem pensar muito, o convite dele para entrar em sua casa. Queria mostrar-lhe algo - dissera ele.

Ela não havia se preparado para aquele momento, para aquela emoção. Viu-se repentinamente diante de si mesma! Um grito de surpresa saiu involuntariamente de sua garganta. Era ela mesma naquele quadro. Então ele era um artista? A imagem que ele fez de si mesma era sensível, com um certo mistério e sensualidade discreta que jamais sonhara possuir. Sua imagem parecia viva na tela! Ele se aproximou olhando-a nos olhos e beijou-a longa e apaixonadamente. Uma vida cheia de promessas e novas emoções começava nesse momento para Sabrina.

(Lua de Vênus)

Nauza Luza Martins                                                   

São Luís, 28/04/78.

 

NO MEIO DO RIO, UM REDEMOINHO EXISTENCIAL*

Chuva forte. Dessas que traz o cheiro característico de mato e de terra molhada. Estávamos no meio do rio, atravessando de uma banda para outra. Precisávamos chegar rápido do outro lado para tentar cruzar a trilha, sem atolar os pés na lama que se formava.

Comecei a remar com mais rapidez. Ela, sob a proteção de uma sombrinha escalpelada, tentava se proteger da chuva. Eu, preocupado com as correntezas perigosas que se formavam com o vento forte e balançavam a canoa com violência. Esta, virou e nós dois fomos empurrados rio abaixo.

Por quase 50 metros rolamos nas águas lamacentas até encontrarmos um galho vivo no meio do rio, como se suas folhas fossem beber água. Os galhos das árvores do interior do Nordeste, apesar de florescerem em brejos, geralmente aguentam um boi brabo amarrado. Portanto, não seria problema aguentar dois humanos cheios de pavor.

Agarrei primeiro o cipó, depois consegui segurar minha parceira com força pela calça jeans que ela usava. A calça, no estilo da moda, rasgada nos joelhos, rasgou mais ainda. Não sei de onde tirei tanta rapidez para segurá-la por uma das pernas, enquanto os restos da calça jeans se perdiam nas águas escuras do rio.

Gritei firma: “Pega a minha mão. Pega a minha mão”.

O esforço hercúleo dela não foi suficiente. A cada minuto as pernas da calça rasgadas à altura dos joelhos, começavam a descosturar. Estava eu numa situação desesperadora. Se solto a mão do cipó, desço o rio e morreremos os dois. Se com a outra mão, solto a perna, ela se perde na correnteza.

A chuva torrencial e o vento balançavam as outras árvores e vários galhos se despedaçavam. O rio era conhecido como um ninho de cobras. Mais uma coisa para que eu me preocupasse.

Na verdade, estávamos, os dois, numa missão de reconhecimento de novos animais silvestres, descobertos na região. Éramos biólogos e precisávamos levar os resultados de nossas descobertas para o Centro de Triagem, antes que escurecesse.

Era um perigo latente passar a noite sem nenhuma proteção naquela floresta tropical. Ela tinha mestrado. Era competente. Eu a respeitava muito como profissional e quando fui designado por nosso departamento de pesquisa para passar a semana colhendo materiais e anotando novas descobertas, fiquei muito feliz. Ela, sempre de forma profissional, cumpria sua missão de forma impecável. 

Dormimos na noite anterior numa cabana improvisada pelos índios que nos orientavam, na clareira, dentro da mata. Ela, reservada, preferiu dormir fora da cabana, embaixo de uma grande árvore centenária. Pela manhã, quando tirei o café da fogueira e ofereci uma caneca de alumínio, ela queimou os dedos e disse: “muito quente”. Esse foi o mote para que eu perguntasse: “por que você dormiu fora? ”. Pelo que ela respondeu: “não existe nada mais espetacular do que dormir olhando a lua e ouvindo a música do farfalhar das palmas das árvores de Babaçu...

Logo chegou o líder da expedição, índio Canela Apaniekrá e disse com um sotaque bem enrolado: “vocês ir sozinho. Canoa pequena cabe só dois”. Íamos levar os resultados obtidos naquela semana de trabalho.

Casco é uma canoa bem pequena mesmo. Empolgado com tudo, esqueci da possibilidade de escolher um bote motorizado. Mas, em minha cabeça maluca, acabei achando que o casco frágil, seria uma aventura melhor. E olha no que deu. Lá estava eu com uma mão no cipó e outra na perna da calça jeans da parceira de trabalho. Ainda bem que eu entrelacei no meu corpo uma bolsa térmica e bem selada, que preservava todo o resultado de nossa pesquisa. 

De repente, um outro cipó, de uns 3 centímetros de diâmetro, cai bem à frente da parceira. Ela imediatamente se agarra ao galho e se arrasta até a beira do rio. Eu então abraço-me ao meu galho e também me esforço para chegar à margem. Meu braço direito estava realmente com câimbras, de tanto segurá-la contra a correnteza forte do rio.

Ela chegou primeiro. Estendeu a mão para me ajudar a subir o pequeno barranco, liso, enlameado, atabatingado. Escorreguei algumas vezes. O vento jogava folhas em nossa direção e quando ela olhou para o rio novamente gritou: “veja do que escapamos! ”. Uma cobra gigante estava passando à nossa frente, no embalo das águas lamacentas.

Foi então que ela me puxou com muita força. E eu, desequilibrado, cai por cima dela. Nos sujamos todos de lama. Ela então olhou para minha cara cheia de tabatinga e riu: “nunca pensei que um dia estaria aqui, por baixo de você, admirando um cara lamacento e tão sensual”. Tomei um susto. Nunca havíamos chegado nem perto. Nem falado disso. Nem pensado nisso – quer dizer eu já tinha imaginado alguma coisa quando fui designado nessa viagem.

Então, ela me abraçou fortemente, olhou nos meus olhos e perguntou: “sabe qual é o gosto de tabatinga? ” E antes que eu pudesse responder ela me beijou fortemente.

A chuva forte, gritos de prazer, encobertos pelo assobio dos ventos, folhas que se soltavam, os intermitentes pingos de vida por sobre a nudez paradisíaca dela. Como num milagre, serenou a chuva e o vento. E o cheiro da terra molhada se transformou no cheiro do perfume patchouli, que ela usava...

(*) Mhario Lincoln é fundador e presidente da Academia Poética Brasileira

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