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"AS CORES DO SWING ", livro de Augusto Pellegrini, Capítulo 7, parte 5

Publicação autorizada pelo autor.

15/12/2021 às 12h23 Atualizada em 20/12/2021 às 21h03
Por: Mhario Lincoln Fonte: Augusto Pellegrini
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Pellegrinni em New Orleans (Mont.ML).
Pellegrinni em New Orleans (Mont.ML).

AS CORES DO SWING 

Livro de Augusto Pellegrini 

Capítulo 7 – As cores do swing – Parte 5 

Tommy Dorsey era conhecido como “o cavalheiro sentimental do swing” embora na verdade pouco tivesse de cavalheiro ou de sentimental. Tommy Dorsey era ranzinza, briguento e beberrão, e do seu mau gênio nem seu irmão mais velho, Jimmy Dorsey, se livrava.

Musicalmente, porém, ele arrasava. As tardes de domingo nunca foram as mesmas desde que Dorsey estreou no Paramount Theater, lotado de adolescentes que não podiam ver de perto as suas bandas preferidas, pois a maioria tocava à noite. A verdadeira loucura que tomava conta dos jovens era uma prova eloquente do carisma e do “punch” da orquestra.

Tommy era um trombonista que tocava seu instrumento de uma maneira bem comportada e que também executava o trompete com qualidade. Entre 1928 e 1935 ele dividiu com o seu irmão Jimmy (saxofonista-alto) a Dorsey Brothers Orchestra, que fez uma série de gravações e apresentações até que as constantes brigas entre eles forçaram a separação e a divisão da orquestra em duas.

A orquestra de Tommy foi sempre mais bem sucedida do que a de Jimmy, mas ambos seguiram suas carreiras individualmente sem maiores problemas (eles se juntariam de novo em 1953 e tocariam juntos até 1956, quando a parceria foi novamente desfeita, desta vez devido à morte de Tommy).

Capa LP.

A música popular americana ganhou um precioso reforço quando Artie Shaw, fascinado pelo som de Nova Orleans, decidiu enfrentar o desafio de adaptar o estilo meio erudito do seu clarinete ao jazz.

Desde pequeno, Shaw ouvia com regularidade os compositores Stravinsky, Bártok, Ravel e Debussy, o que viria mais tarde influenciar decisivamente na concepção dos seus arranjos. Desde cedo, também, ele se confessava um grande admirador de Louis Armstrong. Quando jovem, Artie Shaw não perdia a oportunidade de ver Armstrong nas sessões vespertinas do Savoy Ballroom, em pleno bairro negro do Harlem.

Shaw era judeu, e os judeus não tinham tanta implicância com os negros, pois eles também sofriam a sua parcela com a discriminação por parte dos brancos católicos e protestantes. Ele frequentava os guetos negros com muita naturalidade, na medida em que os negros lhe transmitiam os fluidos positivos da sua música.

No início dos anos 1930, a orquestra de Artie Shaw era apenas uma orquestra coadjuvante no panorama musical da cidade, e não estava entre as mais famosas. Para se ter uma ideia, em 1934 ele tinha um contrato para fazer o fundo musical para as orquestras de ponta, colocando os seus músicos por detrás das cortinas do palco para tocar suas canções enquanto a atração do dia – Tommy Dorsey, Casa Loma ou Bob Crosby – se preparava para tocar.

Quando finalmente explodiu, em 1936, Artie Shaw surpreendeu o mundo das orquestras com a apresentação de músicas ao mesmo tempo fortes e melódicas.

Artie Shaw revolucionou o próprio swing, pois não se limitou a executá-lo da maneira convencional como todos o faziam. Ele trouxe para a orquestra alguns elementos caribenhos como o beguine, ritmo criado nas Ilhas Martinica e Guadalupe, e alcançou um enorme sucesso com a música “Begin The Beguine”, criação do compositor Cole Porter, composta em 1935 quando Porter se encontrava em uma viagem de turismo na Indonésia e nas Ilhas Fiji.

Shaw também foi um dos primeiros bandleaders brancos a contratar uma cantora negra – nada menos do que Billie Holiday – para fazer parte efetiva das turnês da sua orquestra, o que lhe causou muitas dores de cabeça quando das suas apresentações em hotéis de luxo ou nos clubes da moda.

Outra orquestra que se transformou em uma coqueluche para o público foi a de Harry James.

James passou por diversas orquestras, entre as quais Ben Pollack e Benny Goodman, como leading trumpet, e o som inconfundível do seu instrumento era claramente reconhecido mesmo quando tocava ao lado dos músicos do seu naipe. Esta particularidade o animou a buscar seu caminho como líder de orquestra, montando seu próprio grupo em 1939.

A história daria razão à sua decisão. Afinal, além dele poucos músicos entre toda a miríade de trompetistas de jazz marcaram a sua presença com um som tão expressivo.

Capa LP.

A orquestra de Harry James não se limitou aos salões ou às excursões, como praticamente o faziam as demais big bands. Ela enveredou pelos caminhos do cinema, participando de diversos filmes a partir de 1944 – “Carnegie Hall”, “Bathing Beauty”, “A Miracle Can Happen”, “Young Man With A Horn”, “The Big Beat” e “The Ladies Man” – que foram grandes sucessos de bilheteria e que ajudaram James a projetar seu nome em todo o mundo.

Harry James tocava um “swinging jazz” forte e empolgante, da mesma forma em que conseguia produzir canções e baladas de grande beleza, ocasião em que se assemelhava às antigas orquestras convencionais que ainda agradavam parte da massa popular.

Já a orquestra de Glenn Miller pode não ter sido a melhor banda de swing nos seus anos áureos, mas foi com certeza a que mais se identificou com o sentimento americano, pois além de fazer uma música alegre e de fácil compreensão, o que agradava indistintamente a todos os ouvidos, ela encarnou como ninguém o patriotismo de um país envolvido numa guerra em três continentes.

Capa LP.

Glenn Miller era um trombonista de razoáveis recursos técnicos que em 1927 fazia parte da orquestra de Ben Pollack e na primeira metade dos anos 1930 se destacou como músico free-lancer e arranjador. Miller formou sua orquestra em 1938 e a partir daí colecionou sucessos, numa época em que o swing dominava o panorama musical dos Estados Unidos.

Buscando criar uma sonoridade diferente daquela que se ouvia na época, Glenn Miller inovou, colocando o clarinete como líder do naipe dos saxofones e fazendo-o tocar em uníssono com o sax-tenor, o que fez com que a orquestra adquirisse um som especial, suave e aveludado, principalmente nas músicas mais lentas. Diz a lenda que isto teria acontecido por acaso, quando o saxofonista líder machucou a boca durante um ensaio e os músicos tiveram que ser remanejados.

Quando a guerra recrudesceu, Miller trocou o paletó de gala pelo uniforme militar e se engajou nas forças armadas com a patente de capitão, formando a Glenn Miller Army Air Force Band, que durante dois anos fez mais de oitocentas apresentações para os soldados americanos na frente de batalha.

Capa LP.

Nesses anos todos a sua popularidade ofuscou todos os outros bandleaders, inclusive Benny Goodman, lhe valendo um disco de ouro pela gravação de “Chattanooga Choo Choo” (Harry Warren e Mack Gordon) e, a exemplo de Harry James, a participação em alguns filmes de Hollywood, como “Orchestra Wives” e “Sun Valley Serenade”.

Em dezembro de 1944, o avião no qual Miller viajava de Londres para Paris desapareceu em pleno voo por sobre o Canal da Mancha, encerrando de maneira trágica a carreira de um músico que ajudou a construir uma parte importante da história da música norte-americana e que foi pranteado como herói.

No entanto, em que pesem as qualidades de Dorsey, Shaw, James, Miller e todas as outras bandas extraordinárias das décadas de 1930 e 1940, a orquestra de Benny Goodman é considerada pelos críticos especializados como a mais perfeita banda de swing, sendo a principal responsável pela forma com que o estilo se consolidou nos Estados Unidos e também no mundo. Pode-se afirmar que Benny Goodman conseguiu levar adiante a chama do swing durante mais de trinta anos, mesmo depois que outras orquestras desistiram e que outros estilos modernizaram e elitizaram o jazz, levando-o dos salões de danças para as salas de concerto.

LP/Capa.

Muitos críticos afirmam que a versatilidade de Goodman e a sua intimidade com o clarinete eram devidas à associação feita entre a música clássica e os pioneiros de Nova Orleans. Tocando uma música que continha um charme insuperável e uma alegria insuspeita, Goodman transformou o aspecto comercial das bandas de simplesmente dançantes para um jazz – por sinal, também dançante – de alta qualidade.

Benny Goodman começou a se apresentar em público em 1921, quando tinha onze anos, imitando o clarinetista Ted Lewis no Central Park Theater em Chicago, e a partir daí tocou numa banda de colégio chamada Austin High School Gang da qual faziam parte outros adolescentes que mais tarde se transformariam em excelentes músicos de jazz, como o trompetista Jimmy Mc Partland (eventual “substituto” de Bix Beiderbecke na opinião dos críticos), o saxofonista Bud Freeman e o trombonista Frank Teschemacher.

Depois, Goodman tocou com o próprio Bix e participou de gravações feitas pelas orquestras de Ben Pollack, Ted Lewis e Paul Whiteman, antes de decolar na sua carreira brilhante.

Benny Goodman resgatou a dignidade do clarinete quando o jazz já prescindia do instrumento – e isto também vale para Artie Shaw – deixando para trás na preferência do público jazzista muitos clarinetistas importantes, como Sidney Bechet, Johnny Dodds, Jimmy Noone, Buster Bailey, Barney Bigard e Jimmy Hamilton.

Video-Bonus - Trumpet Blues (Harry James)

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