Professor, Doutor Marcos Fábio Belo Matos ([email protected]).
Amigos não são todos iguais. Nem existe aquela história de que “um amigo sincero se reconhece nas horas de dificuldade”, como diz um ditado popular. Nada disso. Existem amigos, de distintas qualidades e para distintas finalidades.
Existem aqueles amigos para curtir a vida, para sair, para badalar. Existem aqueles para nos colocar no eixo, nos chamar à razão, como o grilo falante, uma espécie de “voz da consciência”. Existem aqueles para nos tirar das dificuldades. Existem amigos para tirar boas fotos, estando nelas ou não. Existem até os amigos de cama – aqueles que nos amam como se nos amassem, mas que apenas curtem os nossos instintos, e nós os deles. E existem os amigos para chorar.
Esses são os mais íntimos. São aqueles que conhecem as nossas fraquezas; aquelas que nós escondemos, por medo, por impossibilidade de manchar nossa imagem pública, de borrar a maquiagem ou de parecer fra(n)co diante de quem não queremos. Aqueles que estão prontos a nos ouvir dizer coisas que os demais amigos não precisam saber; mais: nem sonham em saber... Aqueles que nos dão bem mais que o ombro, nos dão os braços para nos envolver, a cama para deitar e molhar, o quarto para que as paredes recebam o reverbero dos nossos gritos de dor e desesperança. Aqueles que, enfim, guardam nossos maiores segredos e ajudam a secar as nossas lágrimas...
Nem todos podem ser amigos para chorar. Muitas vezes, não é por falta de vontade, mas de qualidade. Muitos não têm experiência para assumir a tarefa – que não é fácil nem romântica; é, ao contrário, árdua e opressora, porque quem ouve chorar também chora, muitas vezes por dentro, que é o choro pior, porque não escorre... Muitos têm uma vida tão agitada que não conseguem parar para nos ouvir chorar – sim, porque, apesar de vivermos em alta velocidade, o choro precisa de tempo, de silêncio e de inércia; o mundo de quem chora e de quem ouve chorar precisa parar; não dá para ser “amigo para chorar” com o Whatsapp ligado enquanto você se esvai... E, muitos, enfim, não têm interesse em saber dos seus problemas, porque, para eles, você é uma fortaleza e não pode passar uma outra imagem; você é a referência de positividade, e não queira mudar isso. Mudar isso seria destruir mitos – e o ser humano precisa de mitos para referenciar sua vida. Não queira mudar isso; é a sua utilidade na vida deles.
Os “amigos para chorar” também não somos nós que escolhemos. É a vida que nos mostra. E não serão muitos, ao longo da sua vida. Às vezes, uma meia dúzia, que nos acompanharão em várias etapas da nossa vida, porque o tempo tratará de espalhá-los pelo mundo. Outras vezes, apenas dois ou um, que estarão ao nosso lado pela vida toda.
E como cultivar esses amigos? Não precisa fazer nada. Eles são como cactos. Não precisam de cuidados especiais. Só precisam que o amor que os une vá sendo depositado, na frequência que a vida impuser. Devem ser apenas guardados. E bem guardados. Talvez “no lado esquerdo do peito”, como ensinou Milton Nascimento, na sua belíssima “Canção da América”. Talvez num porta-retratos, ao lado da nossa cama. Talvez num álbum secreto, numa dessas redes sociais que existem por aí – e que ainda existirão. Ou talvez ainda numa caixinha de música, ocupando o lugar da bailarina.
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