Quinta, 19 de Maio de 2022

Nuvens esparsas

Curitiba - PR

Blogs e Colunas ESPECIAIS

Mhario Lincoln resenha "Verônica", novo livro do escritor Roger Dageerre

Coluna de Orquídea Santos, especial.

17/02/2022 às 12h40 Atualizada em 17/02/2022 às 13h19
Por: Mhario Lincoln Fonte: Roger Dageerre
Compartilhe:
ML com o livro de Roger Dageerre
ML com o livro de Roger Dageerre

Antes de entrar em férias, Mhario Lincoln havia escrito essa resenha abaixo, ao ler o novo livro do escritor Roger Dageerre.

Orquídea Santos é Chefe da SECOM, da Academia Poética Brasileira.

"Um Passarinho me contou. E você? Tem Passarinho?"

*Mhario Lincoln

O novo livro de Roger Dageerre VERÔNICA SIMPLESMENTE é uma obra de resiliência. Versa sobre um triunvirato: Roberto, Verônica e Jamille.

Um desses amores platônicos que acabam não dando certo e o amante segue uma vida sem se livrar desse pensamento indolor, mas furtivo e inquietante.

Como diria Luís de Camões:

"Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói, e não se sente;

É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer.

(...)".

Mas, no conto de Roger Dageere, tudo muda de figura e Roberto acaba por se ver numa outra situação. Não idêntica à de Verônica. De certa forma, contudo, digna de frenesi amoroso: finalmente, alguém entra na vida triste dele e a muda por completo.

Artur da Távola, costumava dizer: "O amor... Ah, o amor.../ O amor quebra barreiras, une facções,/ destrói preconceitos,/ cura doenças...". Então, na lógica, vale uma pergunta: será que o novo amor entre Roberto e Jamille é maior que o amor de Verônica?

É assim que o conto se desenrola. Quando Roberto se vê abandonado após um único encontro entre ele e Verônica, o leitor fica se perguntando qual seria o destino dele.

Roberto passa por todas aquelas fases de um homem apaixonado/abandonado. Foi ao bar onde sempre bebia duas cervejas aos sábados e, naquela vez, tentou se embebedar de saudade, não suportando a ausência da amada. No fundo, é como se ele "tivesse criado uma imagem sagrada de Verônica". O Sr. Darciles, o dono do estabelecimento, interveio vendo o suplício do amigo e se pois a explicar que um novo amor poderia aparecer a qualquer momento.

O fato é que essa história foge aos conceitos dos roteiros de Amor. Primeiro, porque não há ódio, nem rancor, nem ciúme, nem traição, nem morte. Segundo, porque o principal personagem recebe uma segunda chance e tem uma nova oportunidade de ser feliz, constituir família e filhos.

Mas, não deixa de ter o ápice. É quando, muito tempo depois, já casado e aquietado, Verônica liga para Roberto e marca um encontro a sós com ele. Jamille ouve a conversa e libera Roberto para o encontro, o que demonstra muita maturidade e apreço do personagem, casada com Roberto.

Por fim, o encontro acontece e Verônica explica o porque do abandono: "voltaria para teus braços se eu merecesse você". Nesse caso, o texto foge ao tradicional cantado pelos escritores shakespearianos, que insistem em escrever sobre o poder esmagador que tem o amor, em conseguir alterar e definir as vidas dos amantes.

E não para aí: Roger Dageerre também foge ao tradicional quando dá um final feliz diferenciado a esse triunvirato amoroso mostrando a sinceridade de Verônica e a capacidade de torcer para que Roberto continuasse feliz com a nova família, sem tentar destruir esse relacionamento. E pelo visto, Verônica teria como interceder negativamente. Isso acaba tornando-a um personagem muito significativo no enredo (não só pelo título), porque o leitor sabe da influência forte desse sentimento, quando "(...) o ato de amar é morar um no outro", ensinado por Mario Quintana.

Assim, mesmo que Roberto vivesse feliz com Jamille, ele, com certeza, correria para os braços de Verônica, caso ela sinalizasse dessa forma. Entretanto é a mesma Verônica a responsável pela continuação da convivência conceitual com Jamille, ao final das contas.

Em determinado momento durante o encontro, passadas as emoções e frios na barriga, Roberto pergunta:

- Como você, Verônica, conseguiu me encontrar, tantos anos depois de nenhum contato?

Verônica mesmo responde:

- "Um passarinho me contou".

Aí, já no finalzinho apoteótico, todo o milagre contextual do conto, traduzido em uma palavrinha só, - "Um passarinho me contou" -, mesmo porque, essa expressão, especificamente no texto do conto, represente um universo imenso de entendimento, pelo que Roberto enseja:

- Então, por que eu nunca lhe encontrei?

Pelo que, sensacionalmente ela responde:

- É porque você não tem um passarinho!

Esse diálogo final é a chave do enigma para o leitor compreender todo o jogo amoroso entre Roberto e Verônica.

É a velha história de Édipo e a Esfinge, retratada óleo sobre tela, pelo francês François-Xavier Fabre:

- Decifra-me ou devoro-te. (Em todos os sentidos).

Eu decifrei! E você?

 

Mhario Lincoln é Presidente da Academia Poética Brasileira.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias