Linda Barros
Professora, Atriz e Membro da Academia Poética Brasileira
A vida pode ter as cores que você quiser, porque nas inconsistências da vida, quem vai dar o tom é você mesmo, como bem disse o ícone da MPB Guilherme Arantes na canção Um dia, um adeus “Só você pra dar a minha vida direção/O tom, a cor”, é dizer que, cada um segue seu arco-íris, mas a cor que vai se destacar mesmo é aquela que você escolher para si. Mas, quem disse que a vida não pode ser em preto e branco? Quem disse que alegria e felicidade têm que ter cor?
Foi o que fez a londrinense radicada em Curitiba, Silvana Mello, em seu livro Ontem e Hoje. Na obra lançada em 2019, a autora deu vida e cor ao texto, sem deixar o leitor desanimado ou triste. Pelo contrário, o livro diagramado todo em preto e branco, dá a vivacidade de quem não se preocupa com tons e cores e ainda assim, é cheio de vida.
O grande poeta Carlos Drummond de Andrade, em suas sábias palavras já dizia No meio do caminho tinha uma pedra Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha? Então pule, ultrapasse, passe por cima de cada obstáculo, faça seu mundo, conte sua história, dê cor (ou não) e vida a cada pedra ultrapassada. Obviamente que a vida é feita de sabores e dissabores e nesse descompasso entre o colorido e o preto e branco, as cores que compõem o cotidiano de cada um estão presentes em todos os lugares, no silencio, no olhar e nas palavras ditas ou não. O livro Preto e Branco, colore a vida e a alma do leitor, a partir de versos que “falam” com profunda exatidão de significados, e que, mesmo nos momentos mais sombrios, é possível entender a mensagem da poeta:
A noite
passou tranquila
e pingou seu orvalho
no
meu
brEU
Em Ontem e Hoje, as palavras são literalmente desenhadas no papel, com um único intuito: levar o leitor a decifrar os diversos segredos, inclusive sobre a própria vida. A jornalista e professora Silvana Mello nos faz querer mergulhar em cada verso, em cada palavra, sejam elas de dor, medo, esperança, sofrimento, romantismo ou de saudade. Lendo essa obra temos a nítida sensação, de cada palavra é arrancada do ventre com a exímia sensibilidade de quem conhece e tem plena consciência do que diz,
Pa... Lavra
Te acho
te viro,
te mexo,
remexo,
num fecho,
desfecho
de mundos...
meu
mundo.
Para o poeta e jornalista Mhario Lincoln, Silvava Mello nessa obra traz “todo um lirismo embutido em um coração que já soube passar por tantos epílogos no palco da vida”. De fato, Ontem e Hoje é um interlúdio, enigmático e imagético, onde a autora em alguns momentos parece ser sua própria imagem refletida em si mesma,
Procura
Eu comigo mesma
caminhamos lado a lado
unidas por pegadas
calcadas por sobre
nossos próprios pés.
Não bastasse a construção do texto de forma elegante e desconstruído ao mesmo tempo, Silvana faz várias homenagens, como a Martin Luther King, a Paulo Leminski, ao poeta e músico Franchico, inclusive com esse poema Silvana Mello foi vencedora do “III concurso de Poesias Alice Ruiz”, da Prefeitura Municipal de Curitiba,
A... Deus
Pendeu
O poeta,
Pendulou entre
A vida e a morte,
Entre a ida e a vinda.
Seu canto
Preso na garganta
Tombou seus braços
E abraços
Olhos perdidos
Finda o poema.
Em cena,
Último ato,
Perpetuado na retina.
Por fim, a escrita carismática de Silva Mello em preto e branco, consegue colorir o Ontem e Hoje de todo o cinza que a vida é capaz de se mostrar.
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