Crédito: Editoria de Literatura e Arte — Plataforma Nacional do Facetubes
Na crônica “A Rua”, texto de abertura de A Alma Encantadora das Ruas, João do Rio parte de uma declaração sem reserva: “Eu amo a rua”. Dessa confissão nasce uma interpretação da cidade como organismo social. A rua deixa de representar endereço, passagem ou desenho urbano. Ganha memória, temperamento, linguagem, vícios, afetos e história. Para o cronista, ela nasce da ação humana, acumula os sinais de cada época e conserva aquilo que seus habitantes produzem, sofrem, celebram e escondem. A formulação central vem cedo: “a rua tem alma”.
Essa personificação sustenta toda a crônica. João do Rio percebe que os espaços urbanos interferem na formação das pessoas e recebem delas uma identidade. Há ruas ligadas à miséria, ao comércio, à violência, à religião, à vaidade, ao prazer, à memória e ao medo. Cada uma adquire uma espécie de biografia coletiva. A cidade registrada pelo autor surge como arquivo humano escrito diariamente por trabalhadores, mendigos, comerciantes, artistas, criminosos, crianças, políticos e anônimos. É nessa convivência que a crônica alcança uma de suas dimensões centrais: a rua funciona como documento vivo das relações sociais.
O instrumento dessa leitura é o flâneur, figura que João do Rio incorpora ao próprio ofício. Flanar, segundo ele, significa caminhar, observar, refletir e comentar. É “perambular com inteligência”. Seu observador não permanece protegido pela janela nem se limita aos ambientes formais da cultura. Entra nos becos, acompanha multidões, ouve conversas, percebe gestos, segue personagens e recolhe os sinais mínimos da existência urbana. Desse método nasce uma escrita situada entre literatura, reportagem e interpretação social: o acontecimento cotidiano ganha sentido porque alguém decidiu caminhar devagar o bastante para enxergá-lo.
Há também uma concepção de pertencimento que atravessa o texto. Para João do Rio, o lugar participa da construção do indivíduo. As ruas possuem seus tipos, suas expressões, seus hábitos, suas formas de convivência e até seus conflitos. O homem leva consigo algo do espaço em que vive. A observação ultrapassa a paisagem física e alcança uma questão social ainda reconhecível: a cidade distribui experiências de acordo com seus territórios. Cada bairro guarda códigos, modos de falar, hierarquias, aspirações e formas particulares de sobrevivência. Por isso, quando afirma que “a rua é a nossa própria existência”, o cronista transforma a geografia urbana em experiência humana.
A força literária de “A Rua” está igualmente no movimento entre fascínio e inquietação. A mesma rua que oferece liberdade produz exposição; o espaço do encontro abriga também a maledicência, a violência, a fome e a exclusão. João do Rio não constrói uma paisagem urbana higienizada. Sua cidade contém luz, ruído, pobreza, prazer, religiosidade, marginalidade e contradição. Ao recordar que a literatura moderna encontrou inspiração nesse universo, aproxima sua própria crônica de uma tradição em que a cidade deixa de funcionar como cenário e passa a exercer ação sobre os personagens, sobre a linguagem e sobre a consciência de quem a percorre.
O encerramento concentra a essência do texto. Depois de percorrer ruas concretas, João do Rio cria uma última via, sem localização nos mapas: a “rua da Amargura”, construída pelo sofrimento, pela calúnia, pela inveja, pela injustiça e pela dor humana. Nesse ponto, o Rio de Janeiro deixa de ser somente o território observado. A rua alcança dimensão universal. Todas as cidades possuem caminhos visíveis; todos os homens atravessam caminhos interiores. É essa passagem do cotidiano para a condição humana que mantém a crônica viva. João do Rio começa amando a rua e termina revelando aquilo que nela permanece depois que fachadas, costumes e gerações desaparecem: o registro das pessoas que passaram, viveram, sofreram e deixaram no chão da cidade alguma parte de sua história.
À propósito do tema, vale reproduzir soneto de Mhario Lincoln(*) que fala de "Flâneur" e das Ruas de São Luís:
Soneto do Flâneur de São Luís
*Mhario Lincoln
Flanando — só — pelas ruas da cidade,
volto, cansado, ao chão que me viu nascer.
Nos ombros trago o peso da saudade
e um nome eterno que insiste em viver.
Passei a vida longe, em desencontros,
mas teu rosto guardei como verdade.
Agora, em cada esquina, em cada ponto,
teu perfume acende minha fragilidade.
Porém, o silêncio enfim me respondeu.
Entrei no velho Gavião, de ferro e frio,
e no mármore, teu nome se escreveu.
Roubei uma pétala — gesto tardio —
e a última lágrima que me escorreu
selou, no adeus, meu derradeiro fio.
(*) Autorizada a reprodução.
Crédito: Editoria de Literatura e Arte — Plataforma Nacional do Facetubes
O NEGRO NO MARANHÃO Projeto “Diáspora Maranhense” busca reconstruir memória negra e revelar encontros históricos apagados
Especiais Clélio Silveira Filho: comunicação, empreendedorismo e reconhecimento público no coração do Maranhão
ODISSEIA O intelectual Odorico Mendes no século XIX, já havia conduzido Homero ao território da língua portuguesa
Homem dos mil Livros Ryoki Inoue: o brasileiro que transformou disciplina em mais de mil romances
VIVÊNCIAS Escritoras negras ocupam a Escadaria do Bixiga e transformam memória em reparação
Marcus Saldanha BOMBA: “Artista rotulada como regionalista pela indústria cultural acabou esquecida pelos maranhenses” Mín. 15° Máx. 25°
Mín. 18° Máx. 31°
Tempo nubladoMín. 17° Máx. 32°
Chuvas esparsas
AUGUSTO PELLEGRINI Augusto Pellegrini: As Cores do Swing - Bill Hollman, Billy Eckstine, Billy May
COLUNA DA AMCLAM - Academia Maranhense de Ciencia, Letras e Artes Militares Rumo aos 200 Anos: PMMA celebra o Dia do Soldado e Dia dos Veteranos
ACADEMIA POÉTICA BRASILEIRA Josué Montello fez de São Luís um território universal da literatura e levou a memória negra do Maranhão ao mundo
Joizacawpy Costa “A força e coragem de Joizacawpy Costa”, colunista do Facetubes