UMA BORBOLETA AZUL NA JANELA
Marcos Fábio Belo Matos – professor doutor do Curso de Jornalismo da Ufma Imperatriz
Ontem, pela manhã, apareceu na minha janela uma borboleta azul. Era uma borboleta nem grande nem pequena, mediana. Tinha as asas de um azul translúcido, meio claro. O sol que batia na janela tornava as asas da borboleta mais brilhantes do que, naturalmente, já eram. Não havia nenhum detalhe nas asas – nem círculos, nem listras nem quadrados. Era só o azul azul, mesmo.
Estaria sozinha a linda borboleta? Fui, devagarinho, para não espantá-la, olhar para fora na janela. Olhei e não percebi mais nenhuma outra borboleta. Sim, ela estava sozinha. Era um ser errante, misantropo. Não andava em bandos. Uma borboleta daquelas, vestida de um azul tão belo, poderia, se andasse com outras, causar algum tipo de inveja. Afinal, seria difícil de imaginar outras borboletas tão perfeitas quanto aquela.
Ela estava imóvel. O sol não a incomodava. Nem o vento que entrava devagarzinho. Nem minha presença próximo a ela conseguiu afetá-la. Parecia uma pintura. Emoldurada pelo vão das folhas abertas da janela, aí mesmo é que parecia uma pintura. Uma pintura de algum artista que pintava magistralmente, de algum pintor especialista em natureza viva. Vivíssima!
Aquele bichinho mexeu com a minha sensibilidade. Imediatamente, fui ao notebook e pus uma música instrumental que achei que combinasse com a beleza daquele momento. Acho que acertei, porque, talvez movida pelas vibrações das ondas sonoras, a borboleta mexeu um pouco as asas, para cima e para baixo, abrindo e fechando, duas ou três vezes, o suficiente para dar mais beleza ao instante.
Fui tomado por um impulso e aproximei o dedo indicador direito da base da janela, com muito cuidado, na esperança de que ela passasse para ele. Queria passear um pouco com ela pelo quarto. Queria talvez tirar uma foto para mostrar aos meus amigos no Facebook, no Whatsapp, no Instagram. Já imaginava o sucesso que faria aquela imagem – curtidas, comentários, compartilhamentos. Iria fazer uma legenda à altura...
Mas ela, ao invés de me acompanhar no passeio desejado, voou para cima da janela, ficou inatingível. Peguei a cadeira da escrivaninha e aproximei o dedo de novo. Dessa vez, ela voou para fora do quarto.
Fui procurá-la, olhando para fora da janela. Lá estava ela, pousada numa flor do jardim vizinho. Uma flor azul. Azul como ela, a linda borboleta.
Se você, leitor@, me acompanhou até aqui, permita-me dizer que não houve borboleta nenhuma. Meu quarto nem tem janela que dê para uma paisagem – apenas uma, feia, que fica eternamente fechada e que, se aberta, daria para um jardim de flores artificiais. As janelas que dão para ruas estão cada vez mais raras e as que há, quase sempre, são cerradas por grades de ferro, por causa da onipresente violência, afinal... Essa borboleta vive apenas na minha imaginação. E no meu desejo de, um dia, quem sabe, poder colher, de manhã, borboletas e flores azuis. Minha cor preferida.
Leitor@, ponha essa corruptela na conta dos meus desejos bonançosos. Se não teve borboleta, teve a vontade que lhe pintar, logo pela manhã, uma paisagem agradável.
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