Fahrenheit 451 e o poder dos livros
Gabriel Barros Neres - Jornalista
Duas notícias me chamaram a atenção para poder escrever este texto. Numa livraria em São Paulo um cliente derrubou uma pilha de livros e os arremessou em direção aos vendedores. O livro era a biografia “Lula”. Quando o autor da obra, Fernando Morais, tomou conhecimento do acontecido, ele declarou à coluna da Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo: “Em vez de destruir os livros, eu prefiro que as pessoas primeiro comprem, paguem e depois incendeiem. Acho mais justo [com os funcionários da Livraria]. Pode comprar dois, dez, até cem e fazer uma fogueira”.
Acredito que houve ironia, pois, sendo justo, ele também falou: “Eu até prefiro que [a pessoa] leia para aprender um pouquinho da história do Brasil”.
A outra notícia é do banimento da graphic novel "Maus", de Art Spiegelman, de uma escola no sul dos Estados Unidos por conter linguagem imprópria e nudez. "Maus" apresenta um mundo antropomórfico (os animais são os humanos) e narra a história do pai de Art, Vladek Spiegelman, um rato judeu que tenta escapar das garras dos gatos nazistas e sobreviver ao Holocausto. A história foi vencedora do Prêmio Pulitzer em 1992.
As duas notícias me motivaram a finalmente ler Fahrenheit 451 (Biblioteca Azul, 3° edição, 216 páginas), do escritor americano Ray Bradbury (1920 - 2012). Considerado um clássico da ficção científica, lançado originalmente em 1953, a narrativa nos apresenta um mundo distópico onde as pessoas são mais robóticas e menos sentimentais, passam a maior parte do tempo vendo um tipo de televisão interativa e ouvindo radioconchas e estão proibidas de possuírem e de lerem livros, exceto manuais e aqueles livros que ensinam o básico para apertar botões e parafusos.
A punição para quem tem uma biblioteca particular secreta é a cremação dos livros, ação executada pelos Bombeiros. Também há uma guerra acontecendo naquele mundo, vários bombardeios são ouvidos e se aproximando daquela cidade.
É nesse contexto que acompanhamos Guy Montag, um bombeiro que sente um imenso prazer em queimar coisas, mas tem sua visão de mundo abalada quando conhece a vizinha Clarisse McClellan, uma adolescente considerada incomum para aquela realidade por conversar com as pessoas, observá-las e questionar o mundo em que está inserida. Montag se afeiçoa à jovem vizinha e passa a refletir sobre uma pergunta deixada por Clarisse: “Você é feliz?”.
A pergunta, somada a um encontro anterior com um ex-professor no parque e a uma posterior missão de queimar uma biblioteca em que a dona se recusa a sair da casa mesmo em chamas, faz Guy Montag refletir se ele quer continuar sendo bombeiro. E mais: passa a ter curiosidade para saber o que há nos livros e por qual motivo ele os queima e por que a sociedade os teme.
É comum numa obra de ficção científica que tão ou mais importante que o enredo seja a discussão deixada para o público refletir. Fahrenheit 451 possui bastante temas interessantes e, mesmo escrito quase 70 anos atrás, bem atuais. A sociedade dentro do livro é alienada, acreditando que são mais felizes com os olhos presos na tela. Na época, era uma alusão às pessoas que deixavam o livro de lado para assistir à televisão. Hoje pode ser comparada também com o celular e o computador. Também há a questão dos sentimentos, explicada pelo personagem Beatty, o capitão dos Bombeiros:
“-[...]O que queremos nesse país, acima de tudo? As pessoas querem ser felizes, não é certo? Não foi o que ouviu durante toda a vida? Eu quero ser feliz, é o que todo mundo diz” (p. 82).
A solução para manter a felicidade, segundo Beatty, é queimar. Algo triste como o luto não existe, pois o corpo é cremado cinco minutos depois. Questionar os porquês deixa as pessoas tristes e os livros trazem questionamentos, trazem outros sentimentos além da felicidade. Se alguém é pego lendo, os próprios vizinhos fazem a denúncia aos Bombeiros. Para extravasar algum sentimento ruim, eles dirigem veículos a 160 quilômetros por hora em largas avenidas. É assim que funciona o mundo de Fahrenheit 451.
Guy Montag aprende qual o poder dos livros. Ao final, encarando as consequências de seus atos, Montag descobre que há outra forma de se ler o livro e que há esperança para uma sociedade cada vez menos leitora.
Entre arremessar um livro nas pessoas ou comprar e queimar 100 exemplares, é preferível que o livro seja lido, mesmo que para ser apreciado ou odiado. Como resposta ao banimento na escola, "Maus" entrou na lista dos mais vendidos na Amazon dos Estados Unidos. Afinal, o maior poder do livro é o conhecimento que ele nos passa.
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NOTA DO EDITOR: Gabriel Barros Neres é um jovem jornalista maranhense que vem se destacando desde quando lançou seu primeiro livro, analisando a pegada de outro maranhense ilustre José Louzeiro. O livro, fruto de sua tese em formação superior, trata do "Jornalismo Literário: uma análise de 'Aracelli, meu amor': à luz do Novo Jornalismo". Nesse trabalho, em texto pós-capa, o professor, dr. Marcos Fábio Belo Matos escreve: "(...ao contrário do que se possa pensar, o jornalismo ganhou muito em volume narrativo com a prática dos romances-reportagem. ampliou para o leitor, a possibilidade de contato com a prosa mais densa daqueles jornalistas que ele já admirava (...)". Este é um fato relevante e se vê, na história coreografada de Gabriel Barros Neres, uma dicotomia entre o real e o investigado, com pinceladas de rápida indagação ficcional, ratificando o que Gabriel diz logo às primeiras páginas de sua escrita, "... há muitos pontos de contato entre o jornalismo e literatura. As duas áreas trabalham com a ideia de narrar um acontecimento, sendo que primeira parte de aspectos de uma realidade e a segunda pode recorrer à imaginação, msmo que também possa inspirar-se em fatos (...)".
Desta forma, imbuí-me do direito de dizer essas palavras porque senti as mesmas necessidades embrionárias, quando cursava Jornalismo, na UFMA, já tendo em minhas mãos Carteira de Jornalista Profissional e Carteira do Sindicato e já estando praticando-o, desde meus 14 anos, quando me foi atribuída a condição de "repórter amador" e me designado para fotografar "presuntos", no plantão dos sábados, na periferia da cidade, pelo glorioso José de Riabamar Bogea, diretor e dono do Jornal Pequeno, matutino ativo em São Luís-Ma.
Destarte, nota-se claramente a inserção definitiva (com o texto acima: "Fahrenheit 451 e o poder dos livros"), de Gabriel Neres Barros nessa pleura mística da interpretação e interpelação literária, não só de um resenhista comum. Mas de um fazedor de histórias em cima de outras histórias, o que qualifica o texto por ter em seu bojo, interpretação própria, configuração própria, sob o original pensado e usufruído pelo autor original. Ou seja, no meu bestunto, escrever sobre o que está escrito (ou acontecido) ou imaginado, é por vezes mais difícil do que a criação de um texto ínsito, pois corre-se o risco de cometer intempéries, infectanto a seiva da planta, já enraizada em terreno único.
Parabéns, caro Gabriel. Bola pra frente. Aqui, no Facetubes, a casa é sua.
Mhario Lincoln, editor-sênior.(www.facetubes.com.br)
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