
JOGO DE PALAVRAS UM POETIZAR PROFUNDO
Joizacawpy Muniz Costa, professora, poeta e analista de literatura.
Escolhi ler o livro “Jogo de Palavras“ da poeta maranhense Nauza Luza Martins hoje radicada em Brasília. Preparei-me para um mergulho que logo, em primeiros olhares, me remeteram a uma imersão cujas águas límpidas e correntes me convidavam a leitura de forma gentil.
O livro se inicia com o próprio jogo de palavras disposto num lirismo filosófico que nos permite fazer pausas na leitura para pensar e refletir “O tempo nada significa diante do concreto realizado/o que importa não é o fato em si mesmo, mas a forma como se concretiza. ” É inevitável para o leitor não produzir uma reflexão sobre o que a poeta versa.
Segue o versejar de Nauza num desfraldar de entrega a poesia evocando “o silencio das palavras” que perpassa pela inquietude da necessidade de movimento “preciso de inconstância”. O verdadeiro evocar de um combustível necessário.
A poesia de Nauza Luza segue em caminhos variados, em rios que exigem mergulhos profundos. Ela oferece uma abordagem de temas importantes subsidiados por seu lirismo, por sua experiência de vida e pelo seu sentir. Superação, confidências o nascimento do amor, ela se desnuda sem preocupações com olhares e julgamentos alheios.
No fazer poético da escritora há esmero com a escrita, um cuidado na tessitura das composições de seus versos, oferecendo ao leitor uma riqueza ao adentrar a obra. “Olhos incertos fitam a penumbra/tropeçam nas contingências do pensamento... há riqueza nos detalhes da poética que se revelam na habilidade de descrever alguns aspectos com recursos minuciosos proporcionando ao leitor uma maior conexão com a escrita. (Fitam a penumbra) detalhe riquíssimo na escrita permitindo o visualizar da cena, e isso na poesia, porque tal recurso é mais comum na narrativa em prosa.
Percorro mais linhas e encontro um ápice de romantismo que salta do intimo da poeta com uma força expressiva. “Olhei lá fora a chuva era você/a noite era você/ e o tempo era você! De repente... eu vi-me poeta... o reconhecer da poesia que faz parte do seu ser.
Em seguida uma avalanche de sentimentos cravados na poesia de Nauza a debulhar emoções, espaços vazios, reflexos, o tempo, o feminino.
A escritora continua seu fazer poético cravejado de jogo de palavras o que oferece a sua obra uma beleza cuidadosamente tecida não apenas guiada pelos sentimentos como também por sua razão incrustada de inteligência. “Passado distante, mas sempre lembrado, /futuro sonhado ainda não planejado/presente vivido sem ritmo e sentido. O jogo de palavras se mostra de forma clara oferecendo ao leitor um poema com lírica ritmada que envolve o apreciador e ainda evoca as fases do tempo de forma muito inteligente. Ela continua a viagem transbordando sentimentos com ares intimistas desfraldando sonhos, ideias e desejos.
Nauza Luza saúda a mãe não só de forma brilhante como profunda. Uma profundidade capaz de enxergar não só os seus sentimentos, mas os sentimentos daquela que a trouxe a luz da vida. Ela aborda ainda a temática da maternidade e de um jeito muito forte a concebe como seu projeto de sucesso familiar que ela denominou em três atos homenageando os filhos com o que há de mais precioso, a poesia sentida.
Nauza evoca ainda em seus poemas a voz dos excluídos, mostrando sua sensibilidade não só poética, mas sobretudo humana, pousando o olhar sobre aqueles que nada tem e empresta a estes o ecoar de suas vozes em versos. E continua sua poeticidade impregnada de humanidade que enxerga uma criança em mendicância e brada para que aquela cidade Brasília enxergue esse ser desamparado. Nauza encerra sua viagem poética numa prece que traz à tona o seu altruísmo.
A escrita de NAUZA Luza Martins é esmerada cuidadosamente composta num compromisso literário que se estampa em suas obras, feitas com um lirismo maduro de uma escrita que reluz o amor pelo que faz. Ressalto ainda que em muitos momentos há um forte traço narrativo na poesia desta grande poeta.
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