Quinta, 19 de Maio de 2022

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E se os Contos de Fadas fossem escritos de forma violenta e libidinosa. Contaríamos para nossas Crianças?????

Convidada: Luciah Lopez, membro da Academia Poética Brasileira.

05/04/2022 às 20h12 Atualizada em 05/04/2022 às 22h27
Por: Mhario Lincoln Fonte: Luciah Lopez
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Luciah Lopez. (Montagem: ML).
Luciah Lopez. (Montagem: ML).

Nota do Editor: E se não tivesse o lenhador para salvar Chapeuzinho Vermelho e sua vovozinha? Na primeira versão dessa fábula, Chapeuzinho, antes de ser devorada pelo Lobo Mau, era obrigada a beber o sangue da avó. Não, sem antes tirar a roupa e deitar-se com o Lobo, na mesma cama. Será que essa história, em sua originalidade, poderia ser contada para os filhos? Pois é. No século XVI os camponeses da França contavam todos esses detalhes violentos e libidinosos aos seus filhos, reunidos em uma roda de fogo. E faziam " para que eles aprendessem o que era errado e o certo e não se deixassem levar por caminhos tortos", diz a professora Jactinha Freitas, estudiosa no assunto.

Mas, o facetubes.com.br convidou a professora e imortal APB, Luciah Lopez para desenvolver esse tema, numa linguagem rápida e simples. O resultado foi extraordinário e resultou num texto que se deve ler e aplaudir. Luciah, revela um outro lado das histórias infantis que vinham sendo contadas boca-a-boca desde o século XVI, dessa forma bizarra, mas que, por questões cristãs, acabaram sofrendo muitas modificações em sua periferia, especialmente pelos católicos os irmãos Grimm e, mais tarde, por Andersen, porém, conservando a linha mestra do conto, quando crianças e adolescentes dorrotam seus algozes e têm, geralmente, um final feliz.

Assim, vale ler esta bela crônica de Luciah Lopez. Divitam-se. Afinal, quem realmente eram Chapeuzinho Vermelho, Cinderela, Branca de Neve, João e Maria, A Bela Adormecida, personagens principais de grandes contos infantis, tão familiares, que passaram de geração a geração, enunciados por trabalhadores analfabetos, que se sentavam à noite em volta de fogueiras para contar histórias? 

Luciah Lopez explica, a partir de Charles Perrault, escritor e poeta francês do século XVII, que estabeleceu as bases para um novo gênero literário, o conto de fadas.

LIBERDADE ÀS NOSSAS CINDERELAS

*Luciah Lopez

Fábulas.

A partir de Perrault, acontece a releitura dos contos de fadas e os contos populares. A forma grotesca com que eram narrados sofreu uma adaptação e toda violência e detalhes libidinosos foram suprimidos, o que de certa forma contribuiu não somente para a consolidação do conceito de infância, mas também  possibilitou o surgimento de novos arquétipos, dentro dos contos originais, tais como: cinderela, bruxa malvada, chapeuzinho vermelho e outros. A Cinderela que originalmente vivia num contexto de assédio moral, incesto, canibalismo  passa a ser a moça recatada que sofre os horrores da fome e maus tratos da madrasta até ser resgatada por um príncipe Encantado finalizam a história vivendo felizes para sempre.  Ainda no século XVI, Chapéuzinho Vermelho, era uma menina descrita como facilmente induzida a participar de orgias, onde se deitava nua na cama com homens sem escrúpulos, e chegou beber o que seria  o sangue da própria avó, morta. Mas com a releitura dos contos de fadas, sob a ótica de Perrault, Andersen e dos irmãos Grimm, a vulgarização e o conteúdo sexual que permeavam essas histórias comumente contadas pelas mulheres com o intuito até mesmo de se protegerem e aos seus filhos, foram gradativamente sendo eliminado, sem que a história perdesse a identidade. Chapéuzinho Vermelho assumiu um perfil angelical, porém a personalidade forte pôde ser comprovada pelo não cumprimento das ordens, como se vê no trajeto sozinho pela floresta, até a casa da avó. E aí acontece toda aquela história envolvendo o Lobo Mau. Tanto, que segue sozinha pela floresta, se depara com o “Lobo Mau”.

Nessa mesma linha, encontramos o conto da Bela Adormecida, que trata sobre a vulnerabilidade e abuso sexual consumado por pessoa e/ou pessoas idôneas aparadas por um casamento que lhes garante essa idoneidade. Diante disso, Bela se mantém indefesa justificando assim o estado de dormência moral da época em questão. “O que se produz ao deformar um conto de fadas é que você move o esquema com qual olha o mundo”, diz Ana Lhurba, em seu novo ensaio sobre a criação de novos arquétipos. 

As diferenças culturais são claras, mas podemos distinguir as informações que cada um traz dentro do imaginário como se fosse uma espécie de sementeira germinando de forma brilhante o que é oferecido desde os contos de fadas, até os romances da atualidade. Esse filão foi amplamente trabalhado na década de setenta não apenas pela Disney, mas outros escritores, dentre eles Robert Coover, do pós-modernismo norte americano, que foi incansável na tentativa de destruir os mitos – e o que vale para uma criança um conto de fadas sem um duende, um monstro ou um ogro malvado?! 

São nos contos de fadas que encontramos as vivências e as paixões que moveram e continuam movendo escritores, músicos, poetas e artistas ao longo dos séculos e que transformam mulheres anônimas em fantásticas Bruxas malvadamente belas em sua essência. 

Então que as nossas Cinderelas, mesmo com uma nova roupagem continuem vivas e livres no imaginário infantil, porque os contos de fadas contam e encantam ao logo dos séculos.

*Luciah Lopez – escritora, poeta e imortal APB

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