
Bioque Mesito, poeta, fala sobre outro grande poeta: imortal APB, Paulo Rodrigues Sobre: Cinelândia (Editora Folheando, 2021)
Roteiro de esperanças
O poeta Paulo Rodrigues, desde O abrigo de Orfeu (Penalux, 2017), seguido de Escombros de ninguém (Penalux, 2018) e Uma interpretação para São Gregório (Prêmio Alvares de Azevedo/UBE-RJ-2019, Penalux, 2019), vem ganhando notoriedade em sua obra. Digo obra, e não um conjunto de poemas, pois há muito tempo já abandonou essa postura de colecionar poemas, e, sim, construir seu trabalho literário em livros cada vez mais próximos de uma densa atmosfera poética.
Uma interpretação para São Gregório já demonstra um aporte mais apurado do que seus livros anteriores para a busca do estético. Explico. O que quero aproximar com o conceito de estético é que Rodrigues busca alinhar suas fontes internas com o que o mundo apresenta em seus olhos, ou seja, a metafísica do olhar deste poeta já brilha em condensar com mais poder de atração seus versos.
Paulo Rodrigues e sua obra.
Neste seu novo trabalho literário Cinelândia (Editora Folheando, 2021), observa-se que o cantar de grande parte dos poemas é o que André Cancian chama de metafísica moderna, pautada na investigação da realidade sem separar a natureza dos seres ou dos objetos, mantendo a compreensão mais próxima do leitor, como no enxuto e eficaz Roliúde, um dos melhores poemas do livro: sentava-se na esquina/de costas pra rua./a mesma camisa,/a mesma calça,/os mesmos sapatos./era um homem/invisível./catava feijão./nunca ouviu falar/em mais valia./sonhou com um barranco,/na Serra Pelada./curou-se da doença./não do feijão. (p.34).
Paulo Rodrigues é sagaz e caminha pela densa busca do conceito de Antoine Saint-Exupéry que ensina que “A perfeição é atingida não quando não há mais nada a acrescentar, mas quando não há mais nada para tirar”. Porém, essa perfeição que denominamos de busca pelo apuro estético, é sofrida. Mas o homem nunca conseguirá a iluminação, o sucesso, a liberdade, o amor, o estranhamento... se não for pela senda do sofrer. Rodrigues escolheu o caminho das chagas, o olhar naureano do consumir toda a existência. Busca por fazer uma obra, repito: uma obra e não um amontoado de poemas e versos, para tentar colocar o corpo no paraíso da poesia.
Este seu Cinelândia é seco. Perambula pelo ontológico, pelo existencial, pelo realismo fantástico, liquefeito em histórias de heróis e anti-heróis, um bem elaborado roteiro de personagens que não são moradores da Europa, pequeno burgueses, pautados na fuga das sagas medievais ou no sertão sofrido, tão já mastigado por tantos autores nestes últimos tempos. Rodrigues narra seres urbanos, moradores próximos à realidade, o que tempera e deixa gostosa a leitura e a releitura deste livro. Vejamos, então:
Alex cabeça de Gato
Bebeu pingos de chuva
Nas calçadas do Rio de Janeiro
(Ninguém disfarça o azulejo quebrado, p. 40).
Ou:
A vida, às vezes, é uma esponja de aço.
Pior que bala. Ela fere. Arranha.
Mete o ferro imperialista, entre a pele e a alma
(Carta ao metalúrgico, p. 45).
Ou ainda:
Iriana mora na rua.
foi comida pelo pai;
pariu cinco filhos nas calçadas.
(Gaia, p. 55)
Paulo Rodrigues cria um livro que muito bem poderia encenar trajetórias de roteiros de películas de Glauber Rocha, Quentin Tarantino ou Woody Allen, personas sofridas, identificadas com a existência e o cotidiano trágico. A observação pelos atrativos da Praça Floriano (Cinelândia-RJ) e seu entorno serviram como molde de barro para esta obra homônima: um canto de desespero, um sonhar com um mundo mais justo, um levitar de nossos piores medos.
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Convidado APB:
Bioque Mesito, é poeta
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