
Mhario Lincoln*
Certa vez encontro com o amigo Lopes Bogéa no Bar do Filipinho. Glorioso, naquela saudosa época. No momento em que me aproximei da mesa ele estava terminando de recitar uma letra que o maestro João Carlos de Nazaré havia feito para uma das figuras lendárias da Cidade de São Luís: Cândido Maluco. Ou Cândido Sabiá, ex-goleiro 'pegador' do então clube de futebol da Ilha, o Phênix.
O jornalista (e radialista/Rádio Timbira do Maranhão), João Batista Lopes Bogéa estava com o advogado Clineu César Coelho. Pedi pra sentar na mesa e ouvi uma segunda letra de uma outra canção também do maestro João Carlos para Cândico Arouche, mais conhecido nas ruas pelas alcunhas citadas acima. Perguntei ao Bogéa sobre o maestro Nazaré e ele me disse, "...o maestro João Carlos Nazaré era um homem de pulso forte, mas um bom homem". Eu não o conheci pessoalmente. Mas gostaria muito de tê-lo.
Em tempo: o músico, mestre e maestro João Carlos Nazaré faleceu em 17 de setembro de 1986, após uma vida plena de atividades a bem da nossa cultura musical, deixando um exemplo vivo de inteligência, dedicação e um nome respeitado na arte musical maranhense.
A primeira letra era uma música intitulada "Pobre Mendigo". A segunda, "Já não sofres mais, pobre mendigo". composições fortes, como de alguns sucessos internacionais da filha, Alcione Nazareth. Para surpresa minha, algum tempo depois desse encontro, Lopes Bogéa lança "Pedras da Rua" e, lá estavam as mesmas letras acompanhadas da vida de Cândido Arouche. É essa história que eu transcrevo, abaixo, sobre, um, dos muitos personagens que perambularam pelas ruas da capital do Maranhão e que, neste livro, Bogéa reúne os mais expressivos.
Vem comigo ouvir e relembrar os bons momentos de uma saudade ludovicense dos anos 70/80. seja bem-vindo!
CANDIDO MALUCO
Lopes Bogéa
Cândido Arouche, mais tarde celebrizado nas rodas esportivas como "Gato" ou "Cândido Maluco" não tinha mais do que 1,60m de altura e era uma mistura de preto com moreno, ou "roxo" como diz a plebe para identificar essas pessoas amorena das com tendência mais para o escuro. Nem gordo, nem magro, Cândido tinha uma particularidade que a todos chamava logo atenção: as mãos eram descomunais, como se tivessem sido planejadas para o corpo de um gigante. Homem letrado porque sabia escrever e ler muito bem, Cândido era também um músico muito solicitado e dava conta do recado quando, em alguma festa, executava o instrumento de sua predileção, o baixo de corda ou rabecão como é mais conhecido.
Segundo o maestro João Carlos Nazaré que o conheceu mais de perto no auge de sua carreira, Cândido Maluco só andava na "pinta", isto é, bem trajado, disputando a moda com os mais elegantes da cidade. Mas a fama mesmo do nosso herói estava no futebol, como um dos astros de sua época, na posição de "guardião" ou goleiro, como queiram. Entre a massa de torcedores, a pergunta comum era se aquele extraordinário goleiro descendia de algum felino, tal a agilidade com que se atracava com a pelota, para evitar a queda da cidadela do "Phênix" clube ao qual pertencia. Além de "Cândido Maluco" e "Gato", deram também a este personagem a alcunha de "Cândido Sabiá" por causa de sua mania de estalar os dedos como matraca, terminando com o clássico gesto de dedo que, naquele tempo chamavam de "aviãozinho" ou "meio do mundo".
Na época em que "Cândido Maluco" era uma das vedetes de nossas praças de esportes, haviam apenas três clubes em São Luís: Vasco da Gama, FAC e o Phênix, este último, como já foi dito, o time do nosso amigo. O apelido de "Cândido Maluco" surgiu por ocasião de um jogo entre o FAC e o "Phênix". Um chute violentíssimo foi desferido contra meta guarnecida por Cândido, aliás, aquilo não era um simples chute, era mesmo um petardo. Todo mundo contava com gol certo, a torcida do FAC já começava a comemorar, quando aparece o Cândido, num salto impressionante, atracando-se com a bola em pleno ar. Foi um delírio em campo, a torcida do "Phênix" vibrando, gritos de alegria ecoando por toda parte. Foi aí que se deu o curioso. Apalermado, Cândido segurou a bola com as duas mãos virou-se para a sua própria meta e atirou-a lá dentro das redes para, em seguida, como um alucinado sair gritando: "goool!... goool!... goool!..." Em meio a esses gritos, ele ia fazendo o clássico sinal com os dedos, o que levou a torcida a entender que alguma coisa não andava certa com o seu ídolo. Examinado pouco depois por alguns médicos, constatou-se que Cândido estava sofrendo das faculdades mentais, o que representava o fim daquela até então gloriosa carreira futebolística.
Igual ao que aconteceu no campo de futebol verificou-se dias depois, quando em meio a uma anima da festa, na qual desempenhava a sua parte no rabecão, Cândido largou o instrumento, começou a gesticular, estalar os dedos e a dar gritos alarmantes, causando o maior alvoroço no salão.
Dos três apelidos, "Cândido Maluco", "Cândido Sabia" e "Gato". estes últimos era o que Cândido mais detestava. Segundo o maestro João Carlos, a recusa de Cândido em ser tratado por "Gato" tinha como razão o fato de a sua esposa o haver traído e abandonado, tornando-se um "gato", como as pessoas chamam esse tipo de mulher que vive de aventuras. Quando alguém perguntava ao Cândido porque a esposa o havia abandonado, ele sempre contava uma história triste e concluía por berrar em altos brados:
Eu sou um corno sem vergonha, corno, corno, corno...
À medida que ia dizendo isto, estalava os dedos e terminava por chorar e cair em histéricas gargalhadas. Ninguém podia falar de leite perto de Cândido porque ele ficava chateado e logo se lembrava da traição da mulher e dizia que leite vinha da vaca, a vaca tinha chifre e ele era um corno. Do mesmo modo não gostava de gato porque gato bebe muito leite lembrava a vaca e a vaca tinha chifre... e assim ia ele ruminando. Ele achava que quando era um bom goleiro e os amigos o chamavam de "Gato" é porque já sabiam que sua mulher o estava traindo. Coisa de quem não está mesmo certo da bola.
Inspirado na história deste personagem, a quem, como já dissemos, conheceu bem de perto, o maestro João Carlos Nazaré compôs em sua homenagem duas canções, cujas letras abaixo transcrevemos, isto no ano de 1950. Quando "Cândido Maluco" se passou desta para a outra vida:
POBRE MENDIGO
Canção de João Carlos de Nazaré
Pobre mendigo
Que vive perambulando
Pelas ruas da cidade
Sempre cantando,
Pobre mendigo,
Eu respeito a tua dor...
Porque sei que foste vítima
De um grande amor
Abandonado
Por aquela que amaste,
Ficaste louco, mendigo também
Te tornaste.
Es mendigo, eu afirmo ser,
Mas mendigo de um coração
Porque ela traiu sem compaixão.
JÁ NÃO SOFRES MAIS POBRE MENDIGO
Canção de João Carlos de Nazaré
Já não sofres mais
Já não sofres mais...
Pobre mendigo,
Já descansas hoje na paz de Jesus,
Foste o mártir que bem soubeste
Levar ao Calvário tua pesada cruz.
Hoje já não contas mais a tua história
E de teu sofrimento ninguém se lembrará
Nem mais os amigos te perguntam:
Quede a tua mulher, ó Cândido Sabiá?
Era essa pergunta que mais te irritava
Quanto isso terminas sorrindo...
Assim:
Que a tua esposa te abandonou,
Que ficaste louco por esse motivo.
E quantos mendigos como tu e loucos
Não existem ainda, aqui entre os vivos?
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Ficha Ténica.
Livro: Pedras da Rua
Composição: Sodré e Isolda Soares
Revisão: Orlandez Viana
Diagramação: Dilane Nascimento
Capa: Elvas Robeiro (Parafuso).
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