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Isaac Souza: poeta, escritor, historiador, compositor e imortal da Academia Caxiense de Letras – ACL

Paulo Rodrigues é membro da Academia Poética Brasileira.

06/10/2023 às 11h53 Atualizada em 06/10/2023 às 12h21
Por: Mhario Lincoln Fonte: Paulo Rodigues/Isaac Souza
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Isaac e Paulo
Isaac e Paulo

Nota do Editor: uma das partes que mais me chamou a atenção nessa bela entrevista de Paulo Rodrigues, da Academia Poética Brasileira com Isaac Souza, da Academia Caxiense de Letras, foi a questão da  complexa relação entre história e poesia, segundo Aristóteles e a Epistemologia da Narrativa: verdade ou sedução? (Mhario Lincoln).

 

Por Paulo Rodrigues

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PR – Isaac Souza, o Ferreira Gullar repetia sempre: “a arte existe porque a vida não basta”.  A arte acrescenta alguma coisa aos espaços da vida?    
IS - Eu acho que não, Paulo, e eu vou te explicar o que isso significa.
A arte é produção de vida, não um preenchimento de espaços. Entende? As pessoas citam muito essa máxima do Gullar, e ela funciona como um tipo de justificação e elogio da arte. Mas eu discordo dela em um nível basilar. Ao dizer que a arte existe porque a vida não basta, o poeta mostra uma sensibilidade reacionária por duas razões: primeiro, coloca arte e vida em polos distintos, até opostos; segundo, reduz a arte a um adendo, um complemento da vida. Se a arte existe porque a vida não basta, ela é um tapa-buraco, um remendo. Eu não posso aceitar que a arte seja isso, quando eu experimento a arte como o próprio tecido da vida, saca?
Assim como Newton pensava tempo e espaço como coisas distintas, mas Einstein demonstrou que são um só tecido espaço-temporal, e que a distinção está apenas na limitação de nossa percepção objetiva, também eu discordo do grande poeta de que arte e vida sejam coisas diferentes, e que aquela complete esta. Assim como o tecido espaço-tempo é o lugar de nossa existência física, o tecido arte-vida é o lugar de nossa experiência subjetiva.
Estou mais próximo de Nietzsche quando afirmou que “a vida sem a música seria um erro”; ele assumia exatamente essa indissociabilidade entre existência concreta e experiência estética no ser humano. Não se vive sem sonhar. Aliás, Shakespeare já havia antecipado Freud, ao dizer que ‘somos feitos da mesma matéria que os sonhos”. Percebe isso? O velho bardo já afirmava a síntese matéria-sonho, arte-vida. Heidegger, leitor de Nietzsche, também concluiu a mesma coisa: ao dizer “poeticamente, eu habito”, ele estava nos mostrando que não podemos habitar um mundo que não seja recoberto por significações e narrativas. Você não vive numa casa de alvenaria, vive nas memórias e esperanças que ali há.
Então, não. A arte não acrescenta coisas aos espaços da vida. A arte é o próprio lugar de acontecimento da vida.

2.  PR – Poeta, você mantém, no seu site, a escrita diária? O processo criativo muda conforme o gênero?
IS - Essa pergunta é pequena, mas ela é fagulha pra queimar muita pólvora. Primeiro, eu vou te dizer que não, eu não escrevo todos os dias. Nem para o site, nem para nada. Eu até admiro esses escritores americanos, que trabalham com metas de laudas diárias. Até mesmo Bukowski, com o alcoolismo e outros vícios, não deixava de produzir ao menos 25 laudas datilografadas todas as noites antes de dormir. Mas a ética norte-americana é produtivista, industrial e comercial. A ética arraigada nas profundezas da alma nordestina é outra, é a de plantar pra ter o que comer, e pra ter o que compartilhar, respeitando o tempo da terra, das águas e das sementes. Eu nunca fui lavrador da terra, mas sou descendente de lavradores, e como lavrador da linguagem e do pensamento, um “palavrador”, é assim também que eu me comporto. Escrevo para me nutrir, e para compartilhar-me com os outros. Mas é preciso respeitar o tempo de maturação das leituras, das experiências, dos diálogos, dos aprendizados, até mesmo das dúvidas, dos esquecimentos, das recusas.
Porém, há uma contradição no que eu disse. Quando eu falo que não escrevo todo dia, é preciso definir claramente de que escrita estou falando. É a escrita literária e ensaística. Porque, de fato, uma vez que vivemos num mundo de comunicações digitais, eu escrevo todos os dias. Tanto em trocas de mensagens como eu publicações nas redes sociais. Algumas dessas publicações, embora totalmente improvisadas, tem estrutura e tom de crônica ou de comentários jornalísticos. Quer dizer, existe uma ampla produção escrita de todos nós, uma produção que não é exatamente o que nós chamaríamos de “nossa escrita”, que não colocaríamos em um livro numa biblioteca. São textos-catarro, textos-suor, textos- fluidos, textos-dejetos. coisas que vamos soltando por aí, sem muito critério estético nem pretensão de longevidade. Textos esteticamente irresponsáveis. Eu faço muito isso, porque me posiciono muito nas redes digitais. Mas já é uma coisa normal, essa expressão escrita a toque de caixa – uma escrita que se comporta quase com a fala.
No mês de junho, eu fui poeta homenageado em um sarau dos estudantes de Letras da Universidade Estadual do Maranhão de Caxias. E, veja que coisa curiosa, eu sou reconhecido como poeta sem ter jamais publicado um livro de poesia. Quando esses alunos fossem procurar poemas meus, eles certamente usariam a Internet. E eles poderia acessar absolutamente qualquer coisa que eu tenha publicado em qualquer lugar. Textos bons ou ruins, poemas bonitos ou feios. Eu uso muito da ironia e da fantasia. Eu já escrevi versões diferentes (misturando fato e ficção) da minha própria vida em momentos diferentes. Então, eu poderia chegar àquele sarau e me deparar com textos que escrevi para o descarte ou com uma biografia minha completamente fantasiosa.
Então, decidi criar o site. É uma plataforma de publicação mais barata e acessível que um livro. Mais tentacular também. E que me permitiria um tipo de curadoria de toda essa massa aleatória de textos que escrevi ao longo dos anos. Entende? Ele é mais um “acervo autorizado”, digamos assim. E uma antologia, uma seleção. Eu nem mesmo escrevi texto algum para o site, até agora. O que fiz de inédito foram as colagens que servem de capa a cada postagem. Eu sou fazedor de fanzines, e uso a técnica e o raciocínio zineiro para criar aquelas imagens, que são releituras dos textos. De resto, tudo ali é requentado.
E tudo isso está relacionado com a segunda parte de sua pergunta, sobre o processo criativo. Sim, ele muda com o gênero – escrever verso é diferente de escrever prosa, escrever prosa de ficção é diferente de prosa ensaística, e escrever o verso do poema para ser lido é diferente de escrever verso de canção. Para cada uma dessas modalidades de texto, existe um tratamento, existem técnicas principais, existem tempos, existem táticas específicas. Claro que também existe uma linha geral do processo criativo do escritor que atravessa todo e qualquer gênero que ele escreva. Em Salgado Maranhão, há solenidade até na legenda do Facebook; Millôr tinha humor em todas as suas linhas. Mas, Paulo, acho que existe uma coisa ainda mais radical a se pensar quando a questão é escrever Literatura.
A Literatura é filha da imprensa. Michel Foucault, numa conferência, demonstrou que a Literatura é uma forma de expressão essencialmente moderna, que se formou no XVIII e se consolidou no XIX (e deve ter entrado em declínio no XX). Os Rapsodos não faziam Literatura, Virgílio não fazia, Dante, Cervantes… todos esses autores que, pela magnitude de seus textos, foram transformados em mestres da Literatura praticavam uma escrita que, historicamente, não se nomeava a si mesma como Literatura. Foi com a invenção da imprensa, que a possibilidade de popularização da leitura, e que fez do trabalho do escritor uma prática secular, profana, é que ideia de um saber chamado Literatura passou a existir. Ou seja, os anos 70, Foucault estava nos dizendo que a Literatura é uma forma de expressão, de arte, de saber (e, portanto, de poder) cujo destino estava ligado ao de uma tecnologia analógica: a imprensa.
Literatura é a grande arte do mundo da comunicação analógico. A forma de fazer Literatura, os processos, as técnicas, os métodos, de criação literária estão todos atrelados a ferramentas e a formas de recepção analógicas. Observe que o início da hegemonia do rádio (portanto, da hegemonia da voz falada no espaço público) coincide com a diluição do romance em fluxo de consciência e formas coloquiais da língua. Podemos multiplicar os exemplos. Poderíamos buscar nas técnicas de “prosa espontânea”, “escrita automática” uma ligação com a máquina de escrever portátil. A pergunta é: como a mudança radical da comunicação e das ferramentas analógicas por uma comunicação e ferramentas digitais já afetou nossos processos de escrita, de leitura, e como isso forma, reforma, deforma, informa, conforma, a Literatura. Ou ainda se a Literatura ainda é possível num mundo digital.
Quando a plataforma de escrita era o papel, isso demandava tempo para a produção de publicações. Um texto de jornal (que era um texto ligeiro) tinha, no mínimo, 24 horas de validade. Na plataforma digital não há hiato entre a escrita e a publicação. Às vezes, sequer entre a escrita e a leitura. Isso gera uma situação instável, uma ansiedade por dar respostas imediatas. A maneira de escrever se torna cada vez menos reflexiva, menos ambiciosa de sabedoria, menos atrelada à leitura. Porque a leitura também é outra. Como a escrita acontece quase como uma fala, a leitura que ser veloz como o ouvido. A maioria das pessoas não trocaria um vídeo por um texto, a menos que o texto seja, digamos “audiovisual”. Os novos manuais de redação te ensinam a formar frases e textos com potencial de aparecerem mais nas pesquisas do Google.
Então, não apenas o gênero altera o processo criativo – a plataforma de escrita altera, e a relação com o leitor e com a leitura alteram. E, por fim, o modelo predominante de comunicação social interfere em nossos processos criativos. Eu não acredito em uma Literatura, com L maiúscula, mas acredito na possibilidade de literaturas, com minúscula, literaturas menores. Talvez a grande literatura não sobreviva à superação da imprensa, mas no caule morto desse grande carvalho brotem fungos, liquens, orelhas-de-pau, ervas e outras coisas que tais.

3.   PR – Poeta, a música para você é um tema de poesia? Como o autor convive com o compositor?

IS - Eu cheguei em Caxias, aos 20 anos de idade, e algum tempo depois conheci o Renato Meneses, grande parceiro. Desde o início, ele me chamava de bardo. Nós usamos bardo como sinônimo de poeta, mas, como você sabe essa sobreposição não é completa  - não se considerarmos a figura moderna do poeta. O poeta moderno, o poeta que faz Literatura, ele é um escritor. Ele escreve “cantos”, porém não canta literalmente. No entanto, os avatares mais antigos do poeta, quando as sociedades ou eram ágrafas ou predominantemente analfabetas (incluindo as elites), eram na verdade músicos. Palavras como rapsodo, aedo, bardo, menestrel, todas remetem a um tipo de profissional da música, em primeiro lugar. A poesia nasceu dentro da música, como música. O exemplo grego é famoso, mas em todas as sociedades antigas o acervo poético é criado e transmitido em forma de canção. 
Na modernidade, a ascensão da cultura escrita fez com que o controle dessa forma de linguagem se tornasse um símbolo de poder e elitismo – o letrado versus o analfabeto. Esse estado de coisas fez com que o poeta, que sempre foi um especialista fabricante de artefatos de linguagem, tornasse-se também um perito da escrita. Mas ele deixou gravada na memória do idioma suas raízes musicais. Os poemas são chamados de cantos, canções, baladas; quem inspira ainda é a Musa; o próprio poeta, muitas vezes, é nomeado cantor. No Brasil do século XX, de população predominantemente analfabeta, a grande poesia foi, sem dúvida, a canção popular. As pessoas conhecem a poesia de Caetano Veloso, de Belchior, de Raul Seixas, de Cazuza, elas nunca ouviram falar de Murilo Mendes, Mario Faustino, os irmãos Campos. E há daqueles casos; gente que nunca leu João Cabral de Melo Neto, mas conheceu Morte e vida severina, ou que nunca teve um livro de Drummond, mas aprendeu com Paulo Diniz o E agora, José?
Eu me sinto privilegiado por ser um poeta que sabe tocar, que sabe cantar, que sabe versejar para o papel e para o vento, que faz poesia de tinta e de som. O poeta-escritor ensina o poeta-músico e vice-versa. Eu quase não passo por estações secas. Quando estou infértil na escrita, tenho fertilidade na música, seja compondo canções, seja como instrumentista solo com certo virtuosismo, ou ainda como fazedor de fanzines. E todas essas formas de expressão, embora específicas, se influenciam mutuamente.


4.  PR – Você está entre os finalistas do Festival de Música Samuel Barreto, em Pedreiras Como você avalia os festivais de música no Brasil? Há espaço para novos talentos?
IS – Cara, o lance é o seguinte. Existe a indústria fonográfica e existe a música. Os compromissos da indústria não são os mesmos da música. A indústria fonográfica não precisa de música necessariamente, ela precisa de trilhas sonoras que as pessoas possam consumir rapidamente e, mais que isso, que ela (a indústria) possa reproduzir com facilidade.
Vou tentar explicar. Eu falei há pouco que a imprensa (como mídia, como plataforma) orientou a prática da Literatura (escrita e leitura), pois com a música essa relação entre mídia e linguagem também ocorre. Quando a mídia era o LP, o artista compunha um álbum, você comprava o álbum, a capa do álbum muitas vezes era uma obra de arte à parte, que dialogava com a música do álbum, você ouvia o álbum do começo ao fim, e você o repetia, você lia as letras no encarte, via as fotos do artista. Era uma experiência integrada. E você realmente ouvia aquilo. Se você não tinha o álbum, você mandava uma carta ou ligava para uma rádio, pedia a música, você esperava para ouvir. A música era feita para ser ouvida, e você queria ouvir a música. A indústria procurava quem soubesse fazer música, realmente.
Hoje, a mídia é digital, a música é ouvida na plataforma de streaming. Não é mais  no formato álbum, é no formato playlist. E você não precisa ir pra casa passar uma tarde livre ouvindo música. Você carrega seu tocador (o celular) pra todo lugar. E você deixa a música tocar enquanto faz todo o resto de coisas: tem playlist para malhar, playlist para transar, playlist para viajar, para dançar, para cantar no chuveiro. Você ouve enquanto assiste, enquanto conversa no WhatsApp. O objetivo da música passa a ser, basicamente, o de tocar sem ser ouvida. Se você é um artista e quer que sua música entre numa playlist, ela deve ser “inaudível”, ela deve se manter no padrão, no mood. Entende? Ela deve se adequar ao template.
Fora isso, existe a questão do poder econômico. No ano passado, houve o escândalo dos cachês milionários de prefeituras aos cantores sertanejos. Aquilo escancarou uma aliança corrupta entre o agronegócio e o show business. Transferência de recursos públicos para o segmento do sertanejo por meio da influência politica – naturalmente qu para todo “toma lá” corresponde um “dá cá”. E nós vemos o apoio desses artistas a políticos de direita. Como isso incide sobre a música? De maneira óbvia. Com um volume tão grande de dinheiro, esse segmento consegue financiar facilmente sua hegemonia nos mass media. E o ciclo se repete.
Só que, lembre-se, eu te disse que essas trilhas industrializadas precisam ser de consumo fácil, mas também de reprodução fácil. Ou seja, quanto mais padronizada, quanto mais modular é uma música, mais ela interessa à indústria fonográfica hoje. Se eu te perguntar o que é melhor, Fred Mercury ou Henrique e Juliano, você provavelmente diria Fred Merury. Mas se você fosse um executivo do show business, você preferiria a dupla sertaneja. Não porque eles vendem mais (o gosto também é produzido em série pela indústria), o problema é que você não tem como replicar um Fred Mercury – mas uma dupla de sertanejo universitário você pode fabricar dezenas por temporada (e você realmente o faz). Entende? Indústria é linha de montagem, interessa o que pode ser reproduzido em série. Por isso à indústria interessa o medíocre, não o excepcional. E é por isso que nós somos reféns disso que o Renato Meneses já chamou de monocultura musical.
A música, por outro lado, é artesania.
Hoje, nós, músicos artesãos, lidamos com a indústria fonográfica de maneira similar a como os pequenos agricultores lidam com os latifundiários – sendo sufocados, mas produzindo por resistência. O músico artesão é aquele que busca audibilidade, que não quer ser neutro em uma playlist, que deseja propor uma estética, que não se contenta em se encaixar num gênero (sendo, portanto, genérico). Para esse tipo de músico, de compositor, restam poucos espaços, e os festivais são alguns deles. A Banda CasinoQuebec lançou seu primeiro álbum em 2018, em 2019 nós conseguimos entrar no Festival das Rendas. Em 2020, conseguimos fazer um pitching no Porto Musical, aí paramos pela pandemia, e até hoje não retornamos de fato. Mas sempre entendemos que nosso lugar era o palco dos festivais. Não nos enquadramos nos padrões de consumo dos bares e das boates. Sequer sabemos explicar o nosso som, porque  nós o trabalhamos em busca de autenticidade, não de lugar em uma prateleira. Agora estou no Festival Samuel Barreto, e isso me dá muita alegria.

5.  PR – Você está fazendo doutorado em História. É possível uma convergência entre História e Literatura? 
IS – Veja bem, a História e a Literatura são especialidades. No século XIX, a consolidação do sistema capitalista e todos os seus mecanismos ainda vigentes trouxe consigo e especialização do trabalho – que Marx chamou de alienação. É quando você, ao contrário do artesão (e foi por isso que usei a analogia com o artesão, quando falei da música), não participa nem tem o controle de todo o processo de produção de uma peça (em vez de produzir um sapato, você apenas cola os solados). O certo é que esse esquema de trabalho especializado também se reproduz nas profissões intelectuais, e se você olhar direito é justamente nessa época que a História e a Literatura se consolidam como saberes autônomo. Ou seja, essa separação entre História e Literatura é um efeito ideológico da sociedade industrial. Se nós retrocedermos um pouquinho mais no tempo, não haverá a figura do historiador isolada da do escritor, ou do filósofo. Havia o erudito, ou simplesmente escritor. Ele narrava o passado, ele contava histórias fictícias, ele discorria sobre temas diversos. Voltaire, Rousseau, Erasmo, Morus, o que ele eram exatamente? Cândido ou O otimismo era literatura ou filosofia? O Príncipe é Filosofia, Ciência Política ou História? A História da França, de Michelet, não é Literatura?
O que quero dizer é que a ideologia da divisão do trabalho, inclusive do trabalho intelectual, nos obrigou a encaixotar nossos saberes. Então, a ambição positivista da história de ser uma ciência fez com que os historiadores se esforçassem para encontrar uma especificidade para seu campo. Oficialmente, essa busca se deu pelo método (a história era ciência porque operava a partir de um método próprio). Mas, como no final, o que o historiador faz é escrever um livro em que narra uma história (exatamente como Balzac ou José de Alencar), essa especificidade foi conquistada por um esforço de diferenciação da Literatura (o que se fez extraoficialmente pelo estilo).
Na prática, o historiador vai de um texto (o documento) a outro (o artigo, a tese etc.). Ele lê e escreve, e ao escrever ele lança mão dos mesmos recursos que qualquer escritor. As mesmas palavras, as mesmas estruturas gramaticais, as mesmas figuras de linguagem. Não existe apenas convergência entre História e Literatura – elas são irmãs gêmeas e incestuosas. Elas nasceram do mesmo barro e estão em constante promiscuidade.

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6.   PR - Aristóteles afirma na Arte Poética: “o historiador diz o que aconteceu, o poeta o que poderia acontecer”. A história está mesmo próxima da verdade? E a poesia não?
IS – Se eu tivesse que traduzir da maneira mais simples possível o limite epistemológico de qualquer teoria da história contemporânea, eu parafrasearia essa máxima aristotélica assim: o historiador escreve o que pode, o poeta escreve o que quer.
Eu disse acima que o historiador é um escritor. Mas não é um escritor “como qualquer outro”. Um romancista, um poeta, um contista, podem inventar pessoas e fatos – o historiador não pode. Mas isso não significa que ele escreve “o que aconteceu”. O que aconteceu está perdido, o tempo é irrecuperável, em Como se escreve a história, de 1970, Paul Veyne insiste nisso, apesar de soar tão óbvio, pois a história historicista (o realismo histórico) pretendia mesmo narrar “o que realmente aconteceu”. Nós nunca saberemos “o que aconteceu” nem com nós mesmos, e é preciso assumir essa limitação. O  que o historiador tem é um compromisso com a fonte, com o documento, com o vestígio deixado pelo acontecimento. O acontecimento deixa marcas, e o trabalho do historiador deve respeitá-las. Elas estabelecem limites epistemológicos e éticos ao que o historiador pode escrever; ele está até autorizado a deduzir o que a fonte não afirma, mas não a afirmar no lugar dela. E isso não significa confiança cega na fonte, o historiador é um crítico da fonte, um antagonista dela, não seu escravo. Isso porque a fonte também pode mentir. A fonte quer nos seduzir, nos convencer.
Isso coloca o historiador numa situação epistemológica muito peculiar. Ele deve narrar acontecimentos passados, e ele deve respeitar o que as fontes dizem sobre esses acontecimentos. Mas deve assumir que o relato da fonte é enviesado, comprometido, eventualmente mentiroso, e por isso seu trabalho, embora controlado pela fonte, deve ser crítico da fonte.
Então, pensemos. Se o acontecimento é inapreensível, tudo a que temos acesso é à imagem linguística dos acontecimentos, ou seja, o relato, a narrativa. Nesse sentido, todo relato é já poesia, pois é a imaginação (a formação de uma imagem) do real. Nesse sentido, não há verdade “aconteciental”, não uma verdade concreta e absoluta das coisas e dos fatos da qual nós possamos simplesmente nos apropriar. O que há são discursos, há a representação linguística do que as pessoas viveram, pensaram, desejaram.
Nesse sentido, o que diferencia o historiador e o poeta não é quem tem a verdade e quem não tem. A história é capaz de produzir uma verdade com base em suas fontes; a poesia é capaz de produzir verdades com seus próprios métodos. O que diferencia o historiador e o poeta é que o poeta é livre para produzir qualquer signo, qualquer personagem, qualquer espaço, qualquer acontecimento. A história não, ela tem obrigação de informar a partir de que fontes fala e seu discurso se limita aos signos que essas fontes oferecem. Dentro desses limites de honestidade intelectual, a história também é poesia,

7. PR – Deixe uma mensagem para os nosso leitores
IS – Quando era adolescente, eu era de uma Igreja Batista e ouvia a banda Catedral. Uma vez, eles fizeram uma tomada de áudio mandando mensagem para os fãs. O guitarrista disse uma coisa que me marcou muito, e eu sempre replico essa mensagem, todas as vezes que tenho oportunidade: OUÇAM MINHA MÚSICA, VEJAM MEU FILME, LEIAM MEU LIVRO. ME AMEM!
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Paulo Rodrigues Há 3 anos Santa InêsIsaac Souza é um grande estudioso da literatura, no Maranhão. A entrevista ficou muito boa.
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