
Redação do Facetubes c/ pesquisa in: Google/artebrasileiros.com.br
Em recente entrevista com Célia Tupinambá, artista indígena baiana, ela falou sua participação na 60ª Bienal de Veneza, em 2024, onde leva a exposição 'Ka’a Pûera', com curadoria de Arissana Pataxó, Denilson Baniwa e Gustavo Caboco Wapichana.
Nessa mesma entrevista Célia fala sobre um assunto que vem sendo debatido há anos: o Manto Tupinambá. Sobre isso, disse a artista: "eu reaprendi a confeccionar o manto ritualístico de meu povo. Um deles, foi levado para a Europa durante a colonização. Ela explica que o manto é um ancestral, um objeto agenciado pelos rituais Tupinambá, é feminino feito por mulheres".
Na entrevista publicada na revista "artebrasileiros.com.br" Jotabê Medeiros, o autor da reportagem, questiona: "Se já é possível fazer novos mantos, já há o conhecimento, qual o sentido de trazer o manto da Dinamarca? É porque é sagrado?
Célia Tupinambá responde: "O manto e os Encantados me mandaram escrever uma carta em 2022. Eu encaminhei a carta em setembro de 2022 para a Dinamarca. Depois que fiz a escuta, o manto me disse que eu pedisse essa doação para o Museu Nacional. Aí eles me perguntaram: qual manto teria que vir? O embaixador me perguntou e eu disse: “O manto principal, o que está em exposição. Ele me disse que já estava preparado para voltar”. As pessoas riram, acharam que não ia acontecer. Eu acho que muita gente trata o manto como um objeto, e ele é um ancestral. O retorno do manto, em primeiro lugar, serve para poder diminuir esse oceano de distância. Ele tem quase 400 anos, é um manto idoso (risos). E tem uma estrutura, mas essa força de vontade que ele demonstra de regressar para o seu povo tem que ser respeitada, é um ancestral regressado é assim que eu defino. Um ancestral há muito tempo silenciado. Nós chamamos isso de objeto agenciado.
Ele carrega a espiritualidade, é um artefato agenciado pelos rituais Tupinambá. Nem todo mundo entende o que é um objeto agenciado; as pessoas de formação cristã, católica, evangélica, elas têm uma visão de sagrado que eu considero mais volátil, que reduz a quantidade daquilo que significa para gente. Um ancestral é um ser vivo. E isso explica o que levou essas pessoas a cuidarem dessa coisa tão frágil durante tanto tempo; você o vê hoje, ele parece novo. Parece que foi feito ontem. É muito mais do que sagrado para a gente; dizer que é sagrado reduz a potência do que ele representa".
60ª Bienal de Veneza
Acontece na Itália, a partir de 24 de abril de 2024 e o Brasil será representado por uma obra da artista visual, cineasta, escritora, antropóloga e pesquisadora baiana Glicéria Tupinambá, conhecida como Célia Tupinambá. Célia vai levar a Veneza a exposição "Ka’a Pûera: nós somos pássaros que andam", com curadoria de Arissana Pataxó, Denilson Baniwa e Gustavo Caboco Wapichana.
O detalhe interessante é que essa amostra na Itália também a possibilidade de o 'Pavilhão do Brasil' seja renomeado para Pavilhão Hãhãwpuá (nome Pataxó que era usado para descrever o Brasil antes do avistamento português). Um grande grito de Célia e seu povo para as questões de marginalização, desterritorialização e violação dos direitos territoriais, convidando à reflexão sobre resistência e a essência compartilhada da humanidade, pássaros, memória e natureza”. Merece aplausos.
A campanha de Repatriação
Em junho, o Museu Nacional da Dinamarca informou que irá devolver para o Brasil um manto Tupinambá levado para o país no período colonial, durante a ocupação holandesa no século 17.
Em um desafio às normas determinadas de patrimônio cultural e espiritualidade, uma iniciativa notável está sendo realizada para repatriar um manto ancestral da Dinamarca para o Brasil. Originado de uma conexão espiritual profunda, este esforço questiona as percepções modernas sobre objetos ancestrais e sua relevância.
No ano de 2022, motivada por orientações espirituais, uma solicitação foi enviada às autoridades dinamarquesas, solicitando a doação de um manto sagrado ao Museu Nacional do Brasil. O objeto em questão, um manto com quase quatro séculos de história, é mantido em um museu na Dinamarca e destaca-se por sua preservação impecável, refletindo o zelo e a reverência que recebeu ao longo do tempo.
Para aqueles que o veneram, este manto não é apenas um artefato histórico, mas um ancestral vivo, um "objeto agenciado" que carrega consigo uma rica espiritualidade e história. Essa visão contrasta significativamente com as concepções ocidentais tradicionais de objetos sagrados, muitas vezes percebidas como menos integradas na vida cotidiana das comunidades.
A campanha para o retorno do manto ao Brasil representa mais do que uma simples recuperação de um item histórico; é um movimento para restabelecer uma ligação com um ancestral silenciado, uma busca para mitigar a lacuna cultural e espiritual que se formou ao longo de séculos. Este caso ilustra a complexidade e a profundidade das relações entre povos e suas heranças culturais, além das narrativas construídas em torno de objetos que vão além do tangível.
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