
A força de Nicanor Parra, o irmão mais velho de Violeta Parra
OS AUTORES QUE VOCÊ PRECISA CONHECER ANTES DO FINAL DO ANO.
Uma análise crítica da poesia chilena e seu alcance no Brasil, revela uma situação lamentavelmente restrita: além de Pablo Neruda e Gabriela Mistral, laureados com o Prêmio Nobel, poucos poetas chilenos alcançaram o público brasileiro. Este cenário é exemplificado pelo caso de Nicanor Parra, um dos maiores poetas chilenos, cuja obra só recentemente foi compilada em uma antologia no Brasil, pela editora 34: Para Maiores de 100 Anos.
A crítica acerca dessa antologia é poderosa, pois acredita ser essa obra uma amostra de originalidade, de rebeldia e da inventividade do poeta chileno, que criou a antipoesia, um gênero que rompe com as convenções da poesia tradicional e se aproxima da linguagem cotidiana, do humor e da ironia. A crítica também destacou que a antologia é a primeira grande seleção de poemas de Parra publicada no Brasil, em edição bilíngue, e que abrange toda a sua trajetória poética, desde Poemas e antipoemas (1954) até El último apaga la luz (2017). Elogios, inclusive, para os tradutores Joana Barossi e Cide Piquet, que conseguiram captar o tom e o ritmo da voz parriana.
QUEBRANDO PARADIGMAS
Em 1954, o Chile testemunhou o nascimento de um novo gênero poético, que rompia com as convenções estéticas e ideológicas da época: Nicanor Parra (1914-2018), físico e matemático de formação e irmão mais velha de Violeta Parra.
Publicou Poemas e antipoemas, uma obra que sacudiu o cenário literário do país e da América Latina. Com uma linguagem coloquial, irônica e provocativa, Parra questionou os valores e as formas da poesia tradicional, representada pelos seus ilustres compatriotas Pablo Neruda, Vicente Huidobro, Pablo de Rokha e Gabriela Mistral. Parra não poupou críticas aos poetas que se consideravam vanguardistas, mas que, na sua opinião, ainda estavam presos a uma visão romântica, metafísica e elitista da arte.
“Segundo os doutores da lei este livro não deveria ser publicado / (…) /E eu decidi declarar guerra aos cavalieri de la luna”, anunciou ele no prefácio do livro.
Poemas e antipoemas é um marco na poesia latino-americana do século 20, pois inaugura a antipoesia, um conceito que Parra definiu como “a poesia sem pureza, sem ornamentos, sem ilusões”. A antipoesia busca a comunicação direta com o leitor, usando a fala cotidiana, os paradoxos, as contradições, o humor e a autoironia. A antipoesia é também uma forma de resistir à morte, esse “hábito coletivo” que ronda os versos de Parra. “só a morte diz a verdade / a poesia mesmo não convence”, escreveu ele em um dos seus antipoemas mais famosos, “O último brindis”. Parra foi um poeta que não se conformou com as normas, que se reinventou constantemente e que influenciou gerações de escritores com a sua rebeldia e originalidade.
PÓS-MORTE
No Chile, após a morte de Parra, foi publicada a biografia mais extensa sobre ele, "Nicanor Parra, rey y mendigo", escrita por Rafael Gumucio (Ed. UDP). Este trabalho é uma contribuição significativa para a compreensão de Parra, mas infelizmente, não há particularidade em sua publicação no Brasil. A abordagem de Gumucio na biografia é peculiar, misturando memória pessoal e reflexão crítica, e questionando a própria natureza da biografia como gênero.
SE ME OCURREN IDEAS LUMINOSAS
Nicanor Parra
En un banco del Parque Forestal
Casi me vuelve loco una mujer.
¡Esa sí que fue noche de Walpurgis!
Empezamos tratándonos de usted.
Yo no tenía mucho que decir,
Ella cambia de tema a cada rato.
Hace clases de piano a domicilio,
Ella misma costea sus estudios,
Enemiga mortal del cigarrillo,
Sigue taquigrafía por correo,
Piensa matricularse en Obstetricia,
El hinojo la hace estornudar,
Sueña que se le extirpan las amígdalas,
El color amarillo la subleva,
Piensa pasar el dieciocho en Linares,
Hace un mes se operó de apendicitis.
Una vez se cayó de un eucalipto.
Como si todo esto fuera poco
Dice que su cuñado la persigue:
Noches atrás se le metió a la pieza.
Yo le recito un soreto de Shakespeare.
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TRADUÇÃO LIVRE
IDEIAS BRILHANTES VEM ATÉ MIM
Nicanor Parra
Em um banco no Forest Park
Uma mulher quase me deixa louco.
Essa era a noite de Walpurgis!
Começamos falando sobre você.
Eu não tinha muito a dizer,
Ela muda de assunto o tempo todo.
Ele faz aulas de piano em casa,
Ela mesma paga seus estudos,
Inimigo mortal dos cigarros,
Siga a abreviatura por correio,
Pensando em ingressar em Obstetrícia,
Funcho a faz espirrar,
Sonhe que suas amígdalas foram removidas,
A cor amarela a revolta,
Ele planeja passar o décimo oitavo em Linares,
Há um mês ele fez uma cirurgia de apendicite.
Uma vez ele caiu de um eucalipto.
Como se tudo isso não bastasse
Ela conta que o cunhado a persegue:
Noites atrás ele entrou no quarto.
Recito para ele um soreto de Shakespeare.
Em tempo:
Antes de morrer aos 103 anos, disse Parra: ‘Vou e volto!'
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