
Mhario Lincoln*
A trajetória poética plurifacetada de Raimundo Fontenele, incluindo no contexto, poemas e sonetos ("Caixa de Sonetos") – contém trabalhos paradoxais e críticos ao mundo 'arrodeado' de indecências morais, previamente elaboradas com sabor de hortelã, mas altamente poderosa quando o míssil da inconsciência explode suas vísceras líricas.
Acredito que apenas alguns maranhenses (e alguns paranaenses e paulistas), se debruçaram sobre essa obra de Fontenele cheia de 'originalidade, inventividade e de rebeldia', igual escrevi sobre a força poética e o 'mal-estar' que a obra de Nicanor Parra, poeta chileno, causou entre seus pares, após o lançamento de "Poesias e anti-poesias".
Da mesma forma, Fontenele fez estremecer as bases puritanas da elite poética do Maranhão com "A Colheita do Mundo", seu quinto livro, talvez o mais prolixo, seguindo uma outra vertente: a de Nauro Machado, grande e aplaudido poeta conterrâneo.
Não que a poética de Nauro tenha influenciado a escrita, mas bussulou "a maneira de ver o Mundo, as confidências de uma amizade, além de ter sido tutor em muitos livros que ele indicou para que eu lesse e refletisse", disse-me Fontenele.
‘Mutatis Mutandi’, acredito que da mesma forma como Parra criou a anti-poesia, Fontenele também - com "A Colheita do Mundo" conseguiu romper - mesmo de forma hermética - com muitas convenções da poesia tradicional, usando uma linguagem que beira a ironia e a autopiedade, no convexo das estruturas líricas.
Destarte, para mim, que leu alguns dos poemas incluídos nessa quinta obra, me foi difícil captar com segurança, o tom e o ritmo da voz fonteneliana. É simplesmente absurda - fato que a transforma em bela e tocante - a forma desse poeta, hoje residente em Barra do Corda (MA), construir algo delicioso de ler, mesmo com palavras fortes, numa narrativa alucinante que parece nunca "querer" acabar:
"(...) à sombra do muro
arrimo das águas primeiras
(mas turvas)
escrevo versos
que invento líquidos
na tarde clara
de um setembro triste
é assim a tarde trabalhada na madeira
a noite exasperada de sobrancelhas espessas
e o dia findo, findo
agora que das águas
depende o rumo do mar e do amor
que correm junto aos juncos
aos junquilhos
águas do Mearim
águas do Guaíba
águas de ti e de mim
no meu coração marinho (...)".
O que venho tentando admitir: Raimundo Fontenele, (nessas leituras e releituras da obra dele), é um escritor, cujos motes são feitos de momentos; igual a tal da felicidade. Isto é, em cada experiência pessoal pela qual passa, surge a oportunidade de extravasar de uma forma ou de outra, através da escrita. Exemplo disso, uma trilogia única, aplaudida pela crítica da época: "Venenos", "Marginais" e "Amores". São explicitamente três momentos vividos efusivamente pelo autor.
Até mesmo quando o assunto é desmaterializar o 'status quo' das administrações públicas - "O Troglodita", outro livro de Fontenele, consegue uma façanha extraordinária: mostrar os podres de uma 'ratio agendi', sem vincular-se, entretanto, à ideologias ou movimentos bolchevistas.
Isso é um fato raro na história da poesia, mesmo citando, por exemplo, os grandes Neruda ou Thiago de Melo. "O Troglodita", por sua vez, aponta as lanças para a "forma de administrar, pois o bem público é coletivo", como ele me confidenciou. É algo profundamente excitante de ler, se envolver na leitura, contudo, sem sair por aí - necessariamente - vestindo vermelho com uma foice e um martelo às mãos ou com Marx tatuado na língua.
Agora imagina um homem dessa natureza que escreveu duro, na maioria das vezes, escrever contos infanto-juvenis leves?
Pois bem! Ele escreveu 5 livros desse gênero, para uma editora paulista. Ou seja, Fontenele ratifica o velho ditado popular que "a ocasião faz o Homem", como bem disse José de Alencar. Isto é, a cada sensação forte que absorve, uma obra é parida concomitantemente: é fato, sabendo-se que muitos escolhem um só tema para produzirem suas obras e assim o fazem durante toda a vida produtiva. Assim, mais uma vez, Fontenele vai de encontro ao óbvio ululante.
Raimundo Fontenele é, portanto, incentivado a escrever pelo combustível da aura, da sensibilidade, do ‘modus vivendi’, das vibrações akáshicas. Um poeta (especialmente em “Colheita do Mundo"), altamente sensitivo e visceral ao mesmo tempo, capaz de construir versos como, "(...) é assim o meu verso/ um cavalo sem musas/ há poetas demais/ poemas demais/ e a poesia é torta/ ó terra, ainda/ verde ainda/ bela, ainda que tardia".
O importante disso tudo é que ele nunca perdeu a sanidade, nem mesmo sua convulsão lírica, mesmo que de formas diferentes, tempos diferentes, motes diferentes. Evoé, Poeta!
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