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Dá para fazer uma narrativa poética forte, rebelde e inédita sem influência ideológica?

Dá sim! É o que mostra o quinto livro - "A Colheita do Mundo" - do poeta maranhense Raimundo Fontenele, cuja história literária orgulha o povo do Maranhão.

05/12/2023 às 08h45 Atualizada em 05/12/2023 às 21h33
Por: Mhario Lincoln Fonte: Mhario LIncoln
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Arte: MHL
Arte: MHL

Mhario Lincoln*

 

A trajetória poética plurifacetada de Raimundo Fontenele, incluindo no contexto, poemas e sonetos ("Caixa de Sonetos") – contém trabalhos paradoxais e críticos ao mundo 'arrodeado' de indecências morais, previamente elaboradas com sabor de hortelã, mas altamente poderosa quando o míssil da inconsciência explode suas vísceras líricas.

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Acredito que apenas alguns maranhenses (e alguns paranaenses e paulistas), se debruçaram sobre essa obra de Fontenele cheia de 'originalidade, inventividade e de rebeldia', igual escrevi sobre a força poética e o 'mal-estar' que a obra de Nicanor Parra, poeta chileno, causou entre seus pares, após o lançamento de "Poesias e anti-poesias".

 

Da mesma forma, Fontenele fez estremecer as bases puritanas da elite poética do Maranhão com "A Colheita do Mundo", seu quinto livro, talvez o mais prolixo, seguindo uma outra vertente: a de Nauro Machado, grande e aplaudido poeta conterrâneo.

 

Não que a poética de Nauro tenha influenciado a escrita, mas bussulou "a maneira de ver o Mundo, as confidências de uma amizade, além de ter sido tutor em muitos livros que ele indicou para que eu lesse e refletisse", disse-me Fontenele.

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Mutatis Mutandi’, acredito que da mesma forma como Parra criou a anti-poesia, Fontenele também - com "A Colheita do Mundo" conseguiu romper - mesmo de forma hermética - com muitas convenções da poesia tradicional, usando uma linguagem que beira a ironia e a autopiedade, no convexo das estruturas líricas.

 

Destarte, para mim, que leu alguns dos poemas incluídos nessa quinta obra, me foi difícil captar com segurança, o tom e o ritmo da voz fonteneliana. É simplesmente absurda - fato que a transforma em bela e tocante - a forma desse poeta, hoje residente em Barra do Corda (MA), construir algo delicioso de ler, mesmo com palavras fortes, numa narrativa alucinante que parece nunca "querer" acabar:

"(...) à sombra do muro

arrimo das águas primeiras

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(mas turvas)

escrevo versos

que invento líquidos

na tarde clara

de um setembro triste

é assim a tarde trabalhada na madeira

a noite exasperada de sobrancelhas espessas

e o dia findo, findo

agora que das águas

depende o rumo do mar e do amor

que correm junto aos juncos

aos junquilhos

águas do Mearim

águas do Guaíba

águas de ti e de mim

no meu coração marinho (...)".

 

O que venho tentando admitir: Raimundo Fontenele, (nessas leituras e releituras da obra dele), é um escritor, cujos motes são feitos de momentos; igual a tal da felicidade. Isto é, em cada experiência pessoal pela qual passa, surge a oportunidade de extravasar de uma forma ou de outra, através da escrita. Exemplo disso, uma trilogia única, aplaudida pela crítica da época: "Venenos", "Marginais" e "Amores". São explicitamente três momentos vividos efusivamente pelo autor.

 

Até mesmo quando o assunto é desmaterializar o 'status quo' das administrações públicas - "O Troglodita", outro livro de Fontenele, consegue uma façanha extraordinária:  mostrar os podres de uma 'ratio agendi', sem vincular-se, entretanto, à ideologias ou movimentos bolchevistas.

 

Isso é um fato raro na história da poesia, mesmo citando, por exemplo, os grandes Neruda ou Thiago de Melo. "O Troglodita", por sua vez, aponta as lanças para a "forma de administrar, pois o bem público é coletivo", como ele me confidenciou. É algo profundamente excitante de ler, se envolver na leitura, contudo, sem sair por aí - necessariamente - vestindo vermelho com uma foice e um martelo às mãos ou com Marx tatuado na língua.

 

Agora imagina um homem dessa natureza que escreveu duro, na maioria das vezes, escrever contos infanto-juvenis leves?

Pois bem! Ele escreveu 5 livros desse gênero, para uma editora paulista. Ou seja, Fontenele ratifica o velho ditado popular que "a ocasião faz o Homem", como bem disse José de Alencar. Isto é, a cada sensação forte que absorve, uma obra é parida concomitantemente: é fato, sabendo-se que muitos escolhem um só tema para produzirem suas obras e assim o fazem durante toda a vida produtiva. Assim, mais uma vez, Fontenele vai de encontro ao óbvio ululante.

 

Raimundo Fontenele é, portanto, incentivado a escrever pelo combustível da aura, da sensibilidade, do ‘modus vivendi’, das vibrações akáshicas. Um poeta (especialmente em “Colheita do Mundo"), altamente sensitivo e visceral ao mesmo tempo, capaz de construir versos como, "(...) é assim o meu verso/ um cavalo sem musas/ há poetas demais/ poemas demais/ e a poesia é torta/ ó terra, ainda/ verde ainda/ bela, ainda que tardia".

 

O importante disso tudo é que ele nunca perdeu a sanidade, nem mesmo sua convulsão lírica, mesmo que de formas diferentes, tempos diferentes, motes diferentes. Evoé, Poeta!

 

 VÍDEO-BÔNUS

(Na TV do Facetubes)

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Wellson Alves de Oliveira Há 3 anos Coelho Neto- Maranhão A obra A Colheita do Mundo era uma espécie de livro de bolso na minha vida nos idos de 1988. Eu havia conhecido poesia nas aulas de literatura um ano antes. Poetas como Cruz e Sousa,Casimiro de Abreu e Castro Alves eram os meus consumos mais ávidos. Porém no final de 87,conheci Raimundo Fontenele,falei-lhe do meu apreço por poesia e literatura e ele me apresentou a sua obra A Colheita do Mundo. Houve uma mudança predileção na minha relação com a poesia e sua obra me influenciou profundamente
Raimundo Fontenele Há 3 anos Barra do Corda Maranhão Sim, Leonice, final dos anos 70, poeta maranhense, com o nome de Fontenele e louco, certamente era eu. Que bom estar presente em suas boas lembranças poéticas e humanas.
Sanchez, LionHá 3 anos Córdoba, comunidad autónoma de Andalucía. este es mi verso/ un caballo sin musas/ hay demasiados poetas/ demasiados poemas/ y la poesía está torcida/ oh tierra, todavía/ aún verde/ hermosa, aunque sea tarde. Inconcebible.
Leonice Friger (LU) (Grupo Feira do Poeta).Há 3 anos Hoje moro aqui em Maringá PRSerá o mesmo Fontenele, maranhense, que eu conheci no Largo da Ordem há muito tempo, aqui em Curitiba, Mhario? Esse poeta maravilhosamente louco que bebeu água direto da fonte do cavalo da praça. Foi muito bom conviver com ele algumas vezes.
Alcina Maria Silva AzevedoHá 3 anos Campinas - SP águas de ti e de mim, no meu coração marinho( Raimundo Fonteneli). Maravilhosa forma de expressar um amor.
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