MUZAK
Zeca Baleiro
Desde que lancei meu último disco, (2009) a pergunta que mais tenho ouvido é: "O que é muzak?". Muzak é uma canção que compus há dez anos e que foi gravada pela cantora Rita Ribeiro em seu segundo disco, Pérolas aos Povos,
de 98, agora regravada por mim neste Baladas do Asfalto e Outros Blues.
Fiz a música depois de ler matéria no jornal O Estado de S. Paulo sobre compra de votos na cidade de Arari, interior do Maranhão, com direito a foto na capa e tudo o mais.
Arari, para quem não sabe, é a cidade onde nasceram meus pais e irmãos, e onde vivi até os oito anos uma infância de fazer inveja a Monteiro Lobato. Só não nasci lá por conta de um pequeno acidente de percurso. Minha mãe ficara grávida aos 36 anos, idade considerada de risco naqueles tempos, e foi aconselhada a ter o bebê que vos escreve num hospital na capital - todos os meus irmãos haviam nascido de parteira, à moda antiga. O certo é que mesmo tendo nascido em São Luís, sempre me considerei um cidadão arariense de fato.
Por isso, estando tão longe de casa e ao ver a foto da minha cidade (quase) natal, uma paisagem tão íntima quanto um segredo, ali, exposta num grande jornal, de importância e circulação nacionais - ainda que num contexto nada lisonjeiro -, senti um banzo danado, me
emocionei e me pus a compor sem saber onde aquilo iria dar. Pois deu na sala de espera do dentista, lugar onde se costuma ouvir aquela música ambiente, banal e inofensiva.
Pois muzak (agora vamos finalmente à resposta) é justamente o nome dado a essa música que se ouve como se ela estivesse tocando ali desde que o mundo foi criado e que preenche o tempo das salas de espera em combinação perfeita com as revistas de fofocas.
Billy Vaughn, Ray Conniff, Paul Mauriat, Frank Pourcel, Xavier Cugat e Richard Clayderman são alguns dos grandes e incontáveis músicos que se destacaram nessa arte de fazer música de elevador (ou easy listening), espécie de avó do que hoje os modernos chamam de lounge ou ambient. Reza a lenda que a origem do nome deve-se a um selo americano que se chamava exatamente... Muzak. Inteiramente dedicado a esse gênero, acabou por lhe emprestar o nome e, por tabela, a todo tipo de música inócua, que toca no consultório, no táxi ou no saguão do hotel, e que não deixa rastros, como o vento. Com o passar do tempo, acabou por nomear qualquer música sem invenção, convencional demais.
A canção que fiz, e à qual dei tal nome, é dedicada a Roberto Carlos, e há nela algo de auto-ironia, pois ali me coloco na condição de
um fazedor de muzak, um compositor de canções destinadas à banalização e à fugacidade.
Quando a fiz, sincera e modestamente não imaginava que um dia veria grandes platéias cantando em coro algumas de minhas canções.
Um dia, quem sabe, algum paciente ansioso e trêmulo as ouvirá na ante-sala do dentista, o que talvez seja (nunca saberemos ao certo) o real destino de toda canção.
Zeca Baleiro
29 OUT 2005
Texto retirado do livro "Bala na Agulha" (Ed. Ponto de Bala), publicado neste dezembro de 2023, no Intagram do artista.
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