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Zeca Baleiro abre o jogo em um texto de 2009 e conta dois segredos, insegredáveis...

Segredo 01: "Arari, para quem não sabe, é a cidade onde nasceram meus pais e irmãos, e onde vivi até os oito anos uma infância de fazer inveja a Monteiro Lobato. Só não nasci lá por conta de um pequeno acidente de percurso (...)".

25/12/2023 às 06h55 Atualizada em 28/12/2023 às 19h13
Por: Mhario Lincoln Fonte: Zeca Baleiro/"Bala na Agulha" (Ed. Ponto de Bala)
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Zeca Baleiro em arte-colagem de MHL.
Zeca Baleiro em arte-colagem de MHL.


MUZAK

Zeca Baleiro


Desde que lancei meu último disco, (2009) a pergunta que mais tenho ouvido é: "O que é muzak?". Muzak é uma canção que compus há dez anos e que foi gravada pela cantora Rita Ribeiro em seu segundo disco, Pérolas aos Povos,
de 98, agora regravada por mim neste Baladas do Asfalto e Outros Blues.

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Fiz a música depois de ler matéria no jornal O Estado de S. Paulo sobre compra de votos na cidade de Arari, interior do Maranhão, com direito a foto na capa e tudo o mais.


Arari, para quem não sabe, é a cidade onde nasceram meus pais e irmãos, e onde vivi até os oito anos uma infância de fazer inveja a Monteiro Lobato. Só não nasci lá por conta de um pequeno acidente de percurso. Minha mãe ficara grávida aos 36 anos, idade considerada de risco naqueles tempos, e foi aconselhada a ter o bebê que vos escreve num hospital na capital - todos os meus irmãos haviam nascido de parteira, à moda antiga. O certo é que mesmo tendo nascido em São Luís, sempre me considerei um cidadão arariense de fato.


Por isso, estando tão longe de casa e ao ver a foto da minha cidade (quase) natal, uma paisagem tão íntima quanto um segredo, ali, exposta num grande jornal, de importância e circulação nacionais - ainda que num contexto nada lisonjeiro -, senti um banzo danado, me
emocionei e me pus a compor sem saber onde aquilo iria dar. Pois deu na sala de espera do dentista, lugar onde se costuma ouvir aquela música ambiente, banal e inofensiva.


Pois muzak (agora vamos finalmente à resposta) é justamente o nome dado a essa música que se ouve como se ela estivesse tocando ali desde que o mundo foi criado e que preenche o tempo das salas de espera em combinação perfeita com as revistas de fofocas.


Billy Vaughn, Ray Conniff, Paul Mauriat, Frank Pourcel, Xavier Cugat e Richard Clayderman são alguns dos grandes e incontáveis músicos que se destacaram nessa arte de fazer música de elevador (ou easy listening), espécie de avó do que hoje os modernos chamam de lounge ou ambient. Reza a lenda que a origem do nome deve-se a um selo americano que se chamava exatamente... Muzak. Inteiramente dedicado a esse gênero, acabou por lhe emprestar o nome e, por tabela, a todo tipo de música inócua, que toca no consultório, no táxi ou no saguão do hotel, e que não deixa rastros, como o vento. Com o passar do tempo, acabou por nomear qualquer música sem invenção, convencional demais.
A canção que fiz, e à qual dei tal nome, é dedicada a Roberto Carlos, e há nela algo de auto-ironia, pois ali me coloco na condição de
um fazedor de muzak, um compositor de canções destinadas à banalização e à fugacidade.


Quando a fiz, sincera e modestamente não imaginava que um dia veria grandes platéias cantando em coro algumas de minhas canções.
Um dia, quem sabe, algum paciente ansioso e trêmulo as ouvirá na ante-sala do dentista, o que talvez seja (nunca saberemos ao certo) o real destino de toda canção.

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Zeca Baleiro
29 OUT 2005


Texto retirado do livro "Bala na Agulha" (Ed. Ponto de Bala), publicado neste dezembro de 2023, no Intagram do artista.

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Joema Carvalho Há 2 anos CuritibaAdoro o Zeca Baleiro! Transita pela música popular brasileira e outros gêneros de forma muito particular. Reinventa músicas com a sua versão. Já estive em alguns shows e pretendo ir em outros!!
Joizacawpy Há 2 anos São Luís Zeca Baleiro é sem sombra de dúvidas um dos grandes nomes da Música Popular brasileira, com tons próprios ele dita suas canções de modo a não só nos agradar, mas nos fazer pensar. Zeca tem um quê de humildade que ganha ainda mais a minha admiração, sou fã desse grande nome da música brasileira e orgulhosa por ser este maranhense.
LiaHá 2 anos Manhattan It doesnt matter where you are, Baleiro. New York, Bangkok, Paris. Just call and Ill come. I love you. Lia Traves. New York-Manhattan
João Tertuliano GonçalvesHá 2 anos São Luís do MaranhãoTem uma parte da música, muito melancólia e agoniada, até de tédio. [Na ante-sala do dentista ouço meu Muzak. Minhalma dorme num velho porão. Rima de almanaque]. Ou será introspecção e desencanto? Só sei que é um eu lírico que parece estar preso em um momento difícil, buscando significado em pequenos detalhes. Sei lá, pode ser tudo, mas eu senti uma sensação de melancolia e reflexão. Isso é inegável.
HortênciaHá 2 anos RioNão importa se ele nasceu em Arari ou em São Luís. O que importa é que Baleiro é a maior representação viva da nossa música.
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