
Raimundo Fontenele
1
Depois da cerca, bem cuidada e estranha, o cara jazia estendido no chão e uma faca enfeitava-lhe o coração com tinturas vermelhas.
Delegado no local, curiosos em volta, aqueles clichês mixurucas de sempre, e tem muito neguinho por aí faturando os tubos. Mascarado de Escritor Famoso da província, roteirista de TV numa metrópole famosa. Sem falar nos esotéricos e livros de auto-ajuda. Seguidamente atolo o pé em algum paulocoelho ou monicabuonfiglio da vida. A única diferença de cocô de cachorro é que este fede menos.
Ele viu quando o anjo desceu, envolto no seu manto nebuloso de mentiras.
Flores, incensos mis, cabala, Paris, perfume, drogas pesadas, bichice, coisas assim. Um tipo de literatura que vai de Jack Kerouac a Caio Fernando Abreu, que chamo de literatura de vela no rabo e fumaça nos olhos. Deixa o panaca mentalmente cego e de cu ardido. E, no entanto, literatura é dor e ferro nos cortando por dentro.
Isso. Ele estava ferido, caído na sarjeta. A lua, um pedaço de prata que o céu jogava na sua cara, era a única testemunha.
Porra, plagiar é o que mais fazemos vida afora! Então não adianta dizer-se original, posar para foto (infeliz posteridade!), ser vendido nos sebos e consumido por olhos ávidos de bundas e seios, e ser tocado por mãos indignas: ladras, sujas de terra alheia. O sujeito viu o filme A lua na sarjeta e se aproveita disso para escrever um conto como está ali acima. Escrever no Brasil, escrever o Brasil, é possível tal artimanha?
Vânia, era este seu nome.
Outro pé no saco. Toda história, a vida, a arte, tudo tem que ter amor. Um homem, uma mulher. Uma loura fatal. Um homem e um gay. Uma mulher e uma lésbica. Homem, mulher, LGBT, anão, jumento, tudo junto e misturado. E diz-se que tudo é amor. Uma morenaça boazuda. E dessa ninguém escapa. Nem o tal do Rubem Fonseca que dizem que é fera. Tá certo que ele escreve com as entranhas, tem alguns contos genais. E só.
Editora tem um poder que a gente nem imagina. Mas qualquer escritor norte-americano da década de 40 fez tudo de novela policial. Não tem pra nós e nem pra ninguém.
Voltando aos tempos idos, quando ele vestia calças curtas e atirava pedra nos vizinhos. Armava arapucas e depois, com um risinho maligno no canto da boca, esmagava a cabeça dos passarinhos com uma pedra bem grande. Ou então lhes torcia o pescoço ou esfolava-os vivos. Isso e outras coisas mais sutis e cruéis, próprias das crianças.
Inclui-se aí toda a literatura dita autobiográfica, memorialística. Mesmo os fernandossabinos, pedronavas e as esposas de escritores. A poesia barroca. O rococó dos romances regionalistas, uma porrada de filisteus aquartelados em seus templos, agora todos vomitando e cuspindo em cima da gente: “eu escrevo no computador”. Quase como se estivessem dizendo, dedo em riste, para nós, pobres e infelizes mortais: “eu te deleto!” Ó Balzac, fizeste mais pela literatura dos séculos futuros do que todos esses pilantras computadorizados!
– Poeta? Isso é coisa de malandro, rapaz – o merda que escrevia olhava-me rindo e falava cuspindo. Se usasse boné seria a cara do Pardal, aquele ridículo e fascinante personagem do romance de Nelson Algren, O homem do braço de ouro.
E teclou naquela velha máquina Remington o que bem quis. Um pequeno flagrante por porte de uma droga amena. E, por causa disso, todo aquele estardalhaço. Alguém pagou fiança, e às vinte e duas horas e trinta minutos fui liberado. Tomei um táxi e rumei para novas aventuras, sabendo que, de vez em quando, é bom se perder a memória. Apagar todos os vestígios do que dentro de nós incomoda ou faz sofrer.
2
Uma das coisas mais difíceis é falar a verdade na primeira pessoa. Mas, vamos lá. Tentarei ser o menos mentiroso possível.
Revirar o passado é como mexer em baús velhos, arcas antigas. De repente, a gente se depara com um dos dedos de um macaquinho de molas, um brinquedo da nossa infância, quando tínhamos cinco, seis anos, por aí. Uma lembrança forte, que nos faz tremer na base, nosso coração bate mais acelerado. É, recordar é viver de novo.
Fitei por exatos doze segundos os bicos finos de meu samello reluzente. Levantei-me da cama para sair, estava pronto para cair nos braços daquela multidão de bajuladores e interesseiros.
Olhando-me no espelho, vi também como estava triste e envelhecido, mas quando atravessei a porta de vidro e dei de cara com um batalhão de fotógrafos, jornalistas, cinegrafistas, e mais uma corja de bajuladores intrigantes, eu estava sorrindo e acenando para todos.
Desde pequeno tive esta certeza: eu havia nascido para brilhar. Pelo menos foi isso que me veio acontecendo vida afora. Mas só aos poucos minha personalidade ia tomando forma. Às vezes me enganava com ela. Noutras, ela simplesmente me passava a perna.
Da infância mais tenra até os seis anos de idade eu era um doce de pessoa. Uma criança comportada, calada, obediente, respeitava os mais velhos, não tirava meleca do nariz na frente dos outros.
Dos nove aos treze anos perambulei pelas escolas como o aluno mais brilhante, o nota dez em tudo, salvo em comportamento, mas as boas notas encobriam os meus defeitos.
Dos quatorze anos até perto dos vinte, larguei os estudos, arranjei trabalho de escriturário, balconista, locutor, professor, escrivão de polícia. Aprendi a levar vida dupla. Fora do trabalho, eu me transformava num boa vida. Bebida e mulheres. Vivia metendo o focinho em tudo o que era copo e me enfiando em tudo o que era cama de marafona.
A tal de identidade, personalidade, ego, seja qual for o nome que se dá a esse conjunto de sensações, emoções e pensamentos que nos fazem agir, se perdia por entre a fumaça dos cigarros, o vapor barato e azedo de toda ressaca e os triângulos perfumados que as mulheres carregam vocês sabem onde. A doce vida.
Meu nome corria de boca em boca. Para o bem e para o mal, não esqueciam de mim. E isto, achava eu, era um sinal. Por esta época eu escrevia poesia, pintava e desenhava, tocava guitarra bem pra caramba e cantava. Com voz sofrível, mas cantava.
Do álcool e da fumaça dos cigarros caretas para os de maconha e todo tipo de estimulante e alucinógeno, foi um pulo. Com as cordas da guitarra esticadas, os dedos amarelos e sujos de marijuana, a mente entorpecida pela bebida e outros vapores baratos, foi fácil alcançar o topo do mundo, em pouco mais de três anos de uma carreira meteórica rumo ao sucesso. Uma carreira construída por empresários sem escrúpulos, advogados falastrões e executivos de gravadoras ávidos por dinheiro.
Eu havia me tornado um cantor famoso, meus shows arrastavam multidões, garotas deliravam e alguns caras da crítica morriam de inveja, mas colocavam o dedo na ferida: “não passava de um mito fabricado”; “nem cantar o desgraçado canta, é tudo playback”; “um bosta desse pensa que é igual ao Elvis Presley”...
Meus discos vendiam aos milhões, vivia enfurnado em poltronas de aviões, em camas perfumadas de hotéis cinco estrelas, festas privês, cercado de todo tipo de cafajeste.
Advogados, empresários, publicitários, secretárias, assessores, puxa-sacos de mil espécies me sugavam por todos os poros, nas entranhas; por todos os orifícios eu devia cagar, mijar e ejacular dinheiro, sempre mais dinheiro, dinheiro, dinheiro.
No dia que fiz vinte e oito anos, acordei mal. Tinha bebido todas na noite anterior. Ao rolar na cama me dei conta de que não estava sozinho. Os cabelos negros e uns ombros nus trouxeram-me de volta à Janete, e como não tem melhor tesão do que o da ressaca, depois de fumarmos um baseado pela metade, fizemos um sexo a mil, quase duas horas de puro kama-sutra.
Se eu ouvisse Janete, se eu tivesse seguido os seus conselhos, talvez a vida tivesse me sorrido de forma verdadeira e eu tivesse sido feliz. Porque o que ela me disse era uma coisa tão simples, tão natural, uma verdade tão cristalina e que qualquer um pode alcançar, desde que seja uma pessoa livre para isso:
– “O ser simples só depende da liberdade”.
E esta eu não possuía. Tinha vendido minha alma ao diabo, ou não tinha?
3
Alberto Caronte, aos 22 anos, deixou de lado uma promissora carreira literária – seu primeiro livro de poemas figurava na lista dos dez mais do ano.
Ele contava essa passagem de sua vida com palavras próprias, e a seu modo. Impassível, sem um gesto na boca de lábios sensuais, mas tenso, como se estivesse sentado sobre um vulcão, ou uma nuvem.
– Sabe, amigo Fernandes, naquele tempo eu era jovem, portanto acreditava nas maiores sandices. E não sabia que um ser humano trai o outro por prazer, e com delicadeza.
Ele falava e mergulhava um olhar cativante nos nossos olhos, e ria: um riso que incomodava às vezes. Era como se nos alertasse sobre algum perigo, justamente porque o sorriso vinha no momento em que ele pronunciava o “sabe, amigo Fernandes”.
– Fez-me muito mal aquelas picuinhas, eu não conseguia chafurdar naquele esterco literário, um mundo emparedado entre conchavos e vinganças mesquinhas.
Foi tudo o que ele contou sobre o episódio. Entrou em detalhes e pormenores que nada tinham a ver, apenas serviam para ocultar o que ele pensava do mundo. Guardei, pois, somente um resumo do que ele falara e a sua expressão grave e angustiada como eu nunca vira em nenhum homem. E guardei também aquele riso que, embora estranho, era largo e cativante.
Acho que foi isso que me tornou seu amigo durante alguns anos, até o dia em que ele sumiu quase sem deixar rastro. Embora nossa amizade fosse sólida, nosso contato era o m ais esporádico possível. Morando na mesma cidade e bairro quase nunca nos vimos.
Caronte apareceu na minha casa exatamente às nove horas de uma noite chuvosa. Estava sem guarda-chuva, mas com uma capa surrada de cor verde, se não estou enganado. Fiquei de sobreaviso com aquele desconhecido surgindo assim, intempestivamente. Mas, lembro-me agora, ele tinha alguma coisa amistosa no olhar, e me estendeu a mão, apresentando-se e, atropelado como estava com suas palavras e timidez, destaquei claramente o nome de Mário Rezende, um colega do jornal e da universidade, onde eu colaborava com artigos sobre filosofia e arte, e ensinava.
Convidei-o a entrar, ele o fez tirando a capa e colocando-a sobre o espaldar da cadeira que lhe indiquei. Antes que sentasse pude vê-lo de pé, o rosto turvado por alguma agonia insuportável, no contra luz da sala e de um poste de iluminação pública em frente à janela.
Sentou-se, esfregando as mãos uma na outra e depois as passando em volta das orelhas. Um gesto estranho para mim, mas, em seguida, ele riu seu isso de anjo perdido e senti-me confiante como quando pronunciara o nome do Rezende. Olhou toda a sala sem mover a cabeça, movendo apenas os olhos de um jeito que achei mais engraçado que esquisito.
– Uma bela sala, a sua – a voz saiu grave, quase rouca.
Agradeci e perguntei-lhe, polidamente, qual o motivo da visita, acrescentando que estava corrigindo umas provas que devia entregar na secretaria da faculdade na manhã seguinte.
Ele desculpou-se por ter vindo assim àquela hora, sem anunciar-se nem nada, sem nos conhecermos e tal. E estendeu-me uma pasta, dizendo:
– Sabe, professor Fernandes, estive lendo alguns artigos seus sobre filosofia e arte. Na verdade, foi a única coisa inteligente que li desde que cheguei a esta cidade. Gostaria de sua opinião sobre umas besteiras que andei escrevendo ultimamente.
Segurei a pasta e estranhei que só agora a notasse. Nem quando ele chegou, nem quando me estendeu a mão, nem mesmo ao sentar-se notei que a tivesse consigo. Ofereci-lhe café, que ele recusou alegando:
– Ah, professor, uma úlcera de estômago tem me privado de beber e comer as coisas que mais gosto. E hoje ela está terrível. Fica para outra vez...
Dei-lhe meu telefone enquanto nos despedíamos, e prometi-lhe que iria dar uma lida nos seus escritos, pedindo que me ligasse dentro de um ou dois meses. Coloquei a pasta de Alberto Caronte na estante e voltei aos meus afazeres profissionais.
Quinze dias depois, véspera do meu aniversário, numa dessas tardes embaçadas de abril, atendo uma chamada na secretária eletrônica.
– Alô, Professor Fernandes? Incomodo?
Que jeito estranho de falar, pensei. Mas reconheci a voz imediatamente: Alberto Caronte. Ao contrário do nosso primeiro encontro, sua voz era agora macia, uma palavra enrolada em veludo soprada no ouvido. E uma certeira intuição me dissera que era ele. E era.
– Não, em absoluto – respondi, afável.
– Puxa, professor, sei que o senhor não leu todas aquelas bobagens. Não é sobre isso que queria lhe falar...
– Olha, Caronte, amanhã é meu aniversário. Vou receber alguns poucos amigos para um jantar. Coisa simples, nada cerimonioso. Pode vir amanhã, a partir das dezenove horas, terei prazer em recebê-lo.
– Oh, professor... muito obrigado – foi tudo que disse e desligou.
Nem me dera tempo de dizer-lhe como estava vivamente impressionado com a qualidade estética e profundidade emocional e psicológica dos seus escritos. Eu não sabia se fizera o certo convidando-o à minha casa, conhecendo-o tão pouco.
Preciso dizer que Alberto Caronte não apareceu na noite do meu aniversário, conforme lhe convidara e prometera. Nem naquela noite nem nos dias seguintes, nem um telefonema para saber acerca dos seus escritos, nada. Indagado por mim se sabia do paradeiro de Alberto Caronte, meu amigo Mário Rezende me disse exatamente o que eu sabia que iria ouvir: não, ele nunca mais o procurara, apesar de haver marcado com ele um encontro, pois estava precisando de dinheiro e recorrera a si para pedir-lhe uma módica quantia emprestada.
“Sumiu, simplesmente sumiu”, resumiu o Mário.
Ainda o esperei e procurei, um tanto atormentado até com os seus escritos, preocupado com o seu destino, o que lhe acontecera, que porta atravessara para não mais voltar, que silêncio nascera de si que nunca mais me deu notícia alguma.
De posse de um endereço escrito numa folha de papel, que encontrei na pasta que me deixara, fui até uma ruazinha num bairro de classe média. A casa de madeira, de dois pavimentos, era uma pensão de uma senhora de nome Claudina que alugava quartos e fornecia refeições.
Toquei a campainha e uma senhora de cerca de cinqüenta e tantos anos, estatura mediana, morena clara, olhou-me com certa desconfiança, mas cumprimentou-me com um meio sorriso:
– Bom dia, o que o senhor deseja? Se for quarto, tenho apenas um desocupado...
– Bom dia, dona...
– Claudina – ela me ajudou e estendeu-me a mão.
– Dona Claudina – eu disse. E continuei – Não, não é quarto. Na verdade, procuro um inquilino seu, o senhor Caronte.
– O senhor Caronte... – ela me pareceu distante, afastou-se da porta para que eu entrasse – ... mas entre, por favor, e me introduziu numa pequena sala de estar, sentado-se num sofá grande e apontando-me um outro, menor, para que eu sentasse.
– Sou o professor Fernandes, e Caronte esteve na minha casa. Recomendado por um amigo da Universidade, me procurou e deixou comigo uma pasta com vários escritos seus. Convidei-o a voltar lá, para um jantar no meu aniversário e ele não apareceu.
– É, professor, agora lembro de que ele falou no seu nome algumas vezes, elogiou sua distinção e disse que o senhor o tratara muito bem, essas coisas, o senhor sabe.
– Resolvi procurá-lo, e achei esse seu endereço junto aos papéis que deixou comigo.
– Ele estava aqui há apenas três ou quatro meses. Quatro meses, é isto. Um bom sujeito, embora tivesse certas esquisitices, e outras vezes ficava em silêncio, quase não falava, trancava-se e se isolava dois, três dias – disse a senhora Claudina, e desandou a falar, quase não parava para respirar.
Disse que nesses dias de isolamento Caronte quase não comia. Invariavelmente chegava em casa só após a meia noite, às vezes bêbado, sussurrando palavras desconexas, inteligíveis, mas não fazia nenhuma algazarra, nenhum barulho propriamente dito, que a incomodasse ou aos outros inquilinos.
Algumas vezes ouviu seu choro entrecortado de soluços, e blasfêmias e impropérios, como se estivesse acossado por mil demônios e maus sortilégios. Ela sabia que alguma coisa o perseguia, uma culpa, alguma mancha do seu passado, mas ele nunca lhe deu oportunidade de perguntar nada nem sobre sua vida presente, muito menos sobre acontecimentos passados.
O professor Fernandes levantou-se para ir embora, um tanto desapontado, mas Dona Claudina fez-lhe um sinal para que esperasse um pouco e deixou a sala. Voltou após alguns minutos com uma pasta igual àquela que deixara com o professor, e disse-lhe:
– Leve essa pasta, professor, tem alguns papéis escritos, ele a tinha deixado comigo, pedindo-me que a guardasse. Como o senhor é professor, acredito que poderá lhe dar um destino melhor que eu, que, sinceramente, nem sei o que fazer com essa papelada chamada por ele de literatura.
– Muito grato, Dona Claudina. Vamos ver o que tem escrito aqui – e o professor Fernandes escafedeu-se, cheio de curiosidade para com aquela pasta, gêmea da outra que já estava consigo.
Pode dizer-se, com certo exagero, que o professor Fernandes passou aquela noite em claro, lendo e relendo aqueles escritos encontrados nas duas pastas: parte literatura, uns contos que possuíam certo estilo e propósito. E outra parte, escritos caóticos, desencontrados, sem princípio, meio ou fim. Frases soltas. Pensamentos dilacerados.
Mas o que mais intrigava o nosso benevolente professor era algo que ele não conseguia entender. Por que Alberto Caronte deixara com a sua concierge (e aqui o professor introduziu um francês), dona Claudina, a pasta onde estavam os contos bem realizados, correndo o risco de que fossem extraviados, jogados no lixo por aquela senhora semi-alfabetizada e que jamais iria descobrir qualquer valor literário naqueles escritos?
E por que com ele, professor e crítico literário, deixara Caronte justamente aquela, se é que se podia chamar assim, literatura do caos: histórias interrompidas ou mal começadas, frases desconstruídas e até ausentes, algumas, de sentido mais profundo fora do contexto em que foram largadas?
Ao amanhecer o dia, o professor Fernandes saltou da cama com uma resolução tomada. Iria, através da Editora da Universidade em que lecionava, publicar um livro com os escritos de Alberto Caronte. Seria uma espécie de homenagem àquele homem que quase chegara a ser seu amigo, pois alguém que escrevia o que escrevera, ou criara?, devia ter alguma nobreza ou de caráter ou de alma.
Naquela manhã mesmo conseguiu autorização do seu amigo reitor e alguns dias depois recebeu as provas do livro para revisão. Havia encontrado uma folha em branco apenas com um nome Zona Proibida.
Resolveu dar esse nome à primeira parte do livro e nela colocou os escritos do caos, como ele chamara aquelas palavras, falas, sentimentos, tentativas desesperadas com que Caronte tentou comunicar com tinta o que lhe fervia no sangue. E na segunda parte os contos propriamente ditos com seus nomes originais, assim como encontrara na pasta deixada com dona Claudina.
E o livro se chamaria Pedaços de Alberto Caronte, pois no seu nome, tão sugestivo, e naqueles escritos, ele descobrira não apenas o barqueiro que fizera tantas vezes a travessia para o inferno, mas também um barqueiro que tentava atravessar o rio profundo de sua própria vida e realizar um encontro consigo mesmo, alcançando na outra margem um lugar onde pudesse deitar e descansar, ter um pouco da paz com que tanto sonhara e que tão sôfrego buscara durante sua breve passagem por aqui.
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