Linda Barros, escritora e atriz. Eleita Vice-presidente Regional da Academia Poética Brasileira, seccional MA.
Todos nós, seres humanos, temos o direito e o dever de seguir nosso caminho, mesmo que passando por todos os percalços, independente de sexo, raça, cor, tamanho, todos temos direitos, voz e vez, temos direito e lugar de fala, principalmente, se sabemos o que dizer, embora sabemos que vivemos em uma sociedade que, hora ou outra, tenta nos calar. Nesse sentido, a palavra, escrita ou falada, é nossa maior “arma”. Escrever é um ato impensável. Será? Escrever as vivências, talvez não.
Escrevivência é o percurso que um autor ou autora dá às suas ideias, a seus personagens com grande abrangência de valores e mensagens. O grupo Teatro Improviso selecionou seis contos da obra Olhos D’Água (Rio de Janeiro; Pallas: Fundação da Biblioteca Nacional, 2016), de Conceição Evaristo, e levou para o palco, mesclando relatos fictícios, mas que todos se identificam com essas histórias, tornando a narrativa mais próxima da realidade.
Conceição Evaristo é romancista, contista, linguista e professora. É também uma das autoras mais aplaudidas e uma das mais expressivas da literatura brasileira contemporânea. Em suas obras vamos encontrar temáticas que tratam de temas como a desvalorização da mulher, da exploração humana, da invisibilidade de pessoas afrodescendentes, de pessoas marginalizadas, como prostitutas, mães solteiras e de pessoas que vivem em condições precárias nas ruas. A autora do romance Ponciá Vicêncio (2003) tem uma linguagem simples e agradável, que agrada a todos os públicos leitores.
É nesse submundo invisível (ou visível para quem não quer enxergar) que o diretor deu vida às personagens que contaram histórias e vivências em diferentes perspectivas, o que não custa lembrar que apesar da decisão da autora da obra em dar ênfase às mazelas de uma pequena parcela da sociedade, ressalta-se "bala perdida não escolhe raça", como disse o escritor e crítico literário José Neres.
No palco, cinco atrizes – Nicolly Maciel, Mika Soeiro, Jennifer Froes, Fitcha e Vitória Candeira – se juntam, se separam e se juntam outra vez para dar vida e vivenciar fatos corriqueiros da sociedade contemporânea, uma parte da sociedade que, por muitas vezes, é mal vista (no sentido de ver e não enxergar), excluída e oprimida por sua cor, sua classe social ou sua opção de vida.
O cenário dá um tom efusivo ao espetáculo, simples, mas com riqueza de detalhes, com mensagens metaforicamente fortes e onde misturam elementos de cena que dialogam com a plateia. A sonoplastia é outro detalhe que não passou despercebido, com uma combinação e harmonia sem destoar em nenhum momento o universo dos personagens.
Olhos D’Água é uma obra composta por 15 contos, focados principalmente em personagens afrodescendentes, em que enfatiza questões identitárias nas várias modalidades de violências do cotidiano. E foi nesse universo multifacetado que foi feita uma releitura dessas vivências na linguagem teatral pelo grupo Teatro Improviso.
Tanto a obra original de Conceição quanto o espetáculo teatral são recomendadas para que estas e futuras gerações possam conhecer e vivenciar de perto problemas tão comuns, mas muitas vezes ignorados pela sociedade contemporânea.
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