
Por Mhario Lincoln*, jornalista sênior e editor da plataforma do Facetubes.
No cerne da cultura brasileira, a celebração do Sábado de Aleluia carrega consigo uma prática ancestral: a malhação do Judas. Essa tradição, que simboliza a repulsa pela traição de Judas Iscariotes a Jesus Cristo, tem se transformado ao longo dos anos, especialmente após a emblemática 'Semana de Arte Moderna de 1922' - acreditem!
O que outrora era um ato simbólico, hoje se revela, em muitos casos, como uma explosão de violência coletiva, distorcendo seu propósito original. A Igreja Católica, que historicamente tem adaptado festas pagãs ao seu calendário religioso, parece ter negligenciado à evolução desse ritual. A malhação do Judas, que deveria ser uma manifestação de fé e reflexão, se converteu em um espetáculo de fúria, onde a vingança se sobrepõe ao perdão pregado por Cristo. Na minha modesta opinião, um dos paradoxos modernos que envolvem, inclusive, educação pessoal, religião e política. Infelizmente!
Essa contradição, repito, é um paradoxo que merecia ser analisado à luz dos ensinamentos cristãos. A violência desmedida observada nesses eventos não apenas contradiz a mensagem de amor e perdão do cristianismo, mas também revela uma dimensão sociopolítica, até mesmo, sóciopata. Não à toa, se vê nos meios de comunicação de massa fenômenos sociais complexos e extremamente preocupantes, relacionados a essa violência coletiva, bastando, apenas, uma só 'palavra de ordem'. São linchamentos bárbaros, às vezes até mesmo de pessoas inocentes.
Um dos casos que abalou a opinião pública foi o de Fabiane Maria de Jesus, em 2014, uma dona de casa de 33 anos, que foi alvo de um boato em uma página do Facebook que a acusava de sequestrar crianças para utilizá-las em rituais de magia negra em Guarujá, litoral paulista. A história era falsa e Fabiane, inocente. Ela foi linchada por uma multidão enfurecida e a família dela processa a rede social em uma ação por danos morais, sem nenhum resultado positivo até o momento.
Existem vários outros exemplos históricos e contemporâneos de multidões que se tornam violentas Ou seja, a figura do Judas, nesse contexto, transcendendo cada vez mais sua conotação religiosa e se tornando um símbolo de repúdio a traidores e inimigos públicos, refletindo as tensões e frustrações da sociedade.
Recordo-me de uma experiência marcante na minha cidade natal, São Luís, quando presenciei uma malhação do Judas que culminou em um cenário de destruição e medo. Esse episódio, vivenciado ao lado do Padre João de Fátima, evidenciou o potencial destrutivo dessa tradição quando desprovida de seu significado espiritual.
Em rápidas palavras: até então, o ambiente era festa, balões, pipoca, comidas típicas... porém, quando se iniciou a malhação propriamente dita foi algo avassalador. Os populares acotovelados ao redor da pracinha avançaram em três bonecos de pano, com pedaços de cano e madeira e os estraçalharam em questões de minutos, emitindo descontrolados e altíssimos gritos de guerra. Depois, atearam fogo nos restos, num cenário de pavor. Um monte de lixo completamente queimado, ao longo da praça, até então cheia de balões coloridos. O padre João (era sua primeira festa pública nessa paróquia), espantado com essa confusão incontrolável, virou-se pra mim e murmurou: “Nunca mais...”.
O padre (e eu) sentimos algo perturbador. A comprovação de algo espúrio. Quando o terror e a despiedade (um servindo de apoio à outra) são excessivos e por isso, acabam inibindo a manifestação em si, isto é, um possível lampejo cristão ao ato de punir o traidor de Cristo. Uma ratificação inconteste de que a malhação do Judas não é mais um ritual religioso; mas sim, um fenômeno que encerra um ato de violência incontida. A mim me parece um momento de catarse coletiva que, embora possa ter raízes em sentimentos legítimos de indignação, frequentemente extrapola os limites da razão e da moralidade.
Ao refletirmos sobre essa prática, é imperativo questionar até que ponto a expressão de nossa indignação deve ser alimentada pela violência. A malhação do Judas, em sua essência, deveria ser um ato de reflexão sobre a natureza humana e os valores que nos guiam. Que essa tradição possa evoluir para um exercício de introspecção e não de destruição, é o desafio que se impõe à nossa sociedade contemporânea.
A mim me parece, repito, abutres em carniça!
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