
A BATERIA INESQUECÍVEL
Nathan Sousa
Março de 1988. Rua 13 de Maio. Teresina. Eu precisei de um pouco mais de um mês para me desvencilhar dos encantos e dos assombros que a cidade grande me causava. De maneira que decidi voltar da escola a pé, quando ainda se podia caminhar por ruas diferentes, no centro da cidade, rumo ao bairro Vermelha, sem muitas preocupações com a violência.
Jamais imaginei que minha cabeça de adolescente de 14 anos fosse sofrer impacto maior do que o causado pelo tamanho daquela cidade e sua complexidade. Mas Teresina perdeu. Ou melhor, se perdeu em mim. E o grande vencedor surgiu em uma tarde qualquer daquele mês de março de 1988, quando atravessei a Avenida Joaquim Ribeiro, seguindo pela Rua 13 de Maio. Vindo de uma casa que eu não a conhecia, a introdução de Sunday, Bloody Sunday, da banda U2, me fez sentar em uma calçada escaldante e colocar a bolsa nas pernas. Fez ainda mais: perdi a noção do tempo e talvez a do espaço também.
“War”, o álbum da banda irlandesa liderada por Bono Vox, havia sido lançado cinco anos antes, mas para um jovem recém-chegado do interior (morei por quatro anos em São Gonçalo do Piauí) aquilo parecia ter saído do forno naquele exato momento. Naquela altura dos acontecidos, o rock já havia começado a fazer veredas em minha mente de rapaz ávido por conhecimento e arte. Mas foi com o U2, especificamente com essa canção, que o milagre da multiplicação se deu em mim.
Era a década de 1980 dando adeus. Porém, ainda havia muita coisa a ser digerida. E eu mergulhei de corpo e alma no que ainda restava: bibliotecas, praças públicas, sebos, lojas de disco, televisão, rádio... Parecia haver em mim uma sucessão de urgências, como se a guerra e as sequelas que ela deixa (tema central do álbum) estivessem em minha natureza desde um tempo imemorial.
Para uma canção que começa com bateria (trabalho maravilhoso de Larry Mullen Jr.) e termina com o violino elétrico de Steve Wickham, o rock virou não somente o meu gênero musical preferido, mas um estilo de vida que não arreda o pé.
E lá se vão quase quarenta anos desde aquela tarde de sol mercurial, típica da capital piauiense, minha terra natal. E mais curioso ainda (coisas da arte) é o quanto uma tarde comum, onde uma canção de rock, com batida militarista e guitarra áspera, com letra tratando do “Domingo Sangrento”, ocorrido em 1972, na Irlanda do Norte, fez total transformação na cabeça de um adolescente de 14 anos.
Ainda assim, nenhuma lembrança sombria me afetou o coração nesse tempo todo. Mas uma leveza e uma ternura estranhamente sedimentada em mim que agora, aos cinquenta, ainda continuo cantando seus versos. Sem sangue e, impreterivelmente, de domingo a domingo.
Nathan Sousa, poeta, romancista, teatrólogo, finalista do Prêmio Jabuti em 2015.
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