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Poeta Raimundo Fontenelle: "O Infante terrível era Luís Augusto Cassas"

Raimundo Fotenele é convidado da Academia Poética Brasileira.

27/02/2024 às 16h36 Atualizada em 27/02/2024 às 18h58
Por: Mhario Lincoln Fonte: Raimundo Fontenele
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Cassas & Fontenele: antroponautas!
Cassas & Fontenele: antroponautas!

Raimundo Fontenele.

 

Foi através do poeta Viriato Gaspar que travei conhecimento com o jovem poeta Cassas, no início dos anos setenta. Apesar de pouca idade o poeta já estava amadurecido para a poesia. Através da leitura e, em consequência, do conhecimento de uma vasta gama dos nomes mais importantes do fazer poético, tanto nacionais quanto estrangeiros.

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E nossa convivência se tornou mais constante quando em 1972, junto aos poetas Viriato, Valdelino e Chagas Val, demos luz, ou melhor, parimos o Movimento Antroponáutica.

Renovacão da literatura maranhense, sim. Derrubada de mitos intocáveis, também. Busca de um lugar ao sol em meio a tantas estrelas de brilho fosco, certamente.

Mas recusamos para o nosso movimento que fosse o mesmo balizado por regras e normas. A primeira delas é que não ia ter, como de fato não teve, um lançamento oficial do movimento, com a previsível distribuição para os presentes e para a imprensa do tal Manifesto, indispensável aos eventos dessa natureza.

Portanto, “abaixo a trova e os manifestos”, poderia ter sido um dos nossos lemas. O outro seria vão todos à puta que pariu com Academias de Letras e tudo, fardões e chás das cinco, vão todos, incluindo nós mesmos. Irreverência era isso aí.

Ao mesmo tempo privar da amizade de Cassas, ouvi-lo recitando suas criações poéticas em série, “a mulher está crescendo para os lados”, a sutileza do seu verbo encarnado, da sua poesia forte, metralhadora giratória, mas também retroescavadeira revolvendo a palavra e a matéria original, de onde nascem o poema e o encantamento, foi de grande importância para meu aprendizado e aprimoramento como poeta.

Eu que, por essa época, não passava de um caboclinho vindo do interior, que jamais ouvira falar em Pound ou Eliot, nem em Rimbaud ou Baudelaire. E estes livros estavam ali à minha disposição, graças ao rico acervo que o jovem poeta Cassas possuía e não cansava de aumentá-lo.

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Mesmo afastados pelas circunstâncias da vida, sempre que estava em São Luís para o lançamento de algum novo livro, nunca deixava de ir visitar o poeta Cassas, que residia num espaçoso e transado apartamento do bairro Renascença. Visitá-lo, por a prosa em dia, e degustar um almoço da saborosa culinária maranhense que o poeta tinha a generosidade de me ofertar.

Até hoje nossa amizade continua, uma amizade de mais de cinquenta anos, e que continuará, mesmo depois que formos conversar e escrever versos lá pelas bandas do céu dos poetas, que a gente nem sabe onde fica, mas com certeza chegaremos lá.

Um poemas de Cassas:

 

COMPROMISSO
(a Bandeira Tribuzi)
1
Tenho um encontro marcado
às seis horas da tarde
na Avenida Beira-Mar
E não posso faltar
Não é para salvar o mundo
combater a solidão
que fui convocado
nem para esperar algum barco
salvar um amigo em naufrágio
que fui convidado
O motivo do compromisso
não digo a vocês — é secreto —
garanto não é político
juro não é romântico
aposto seja econômico
Sei apenas que às seis horas da tarde
tenho um encontro marcado
na Avenida Beira-Mar
E não posso faltar
2
Fosse convidado a presidir
uma reunião da ONU
sobre direitos humanos
não compareceria
Fosse passear no bosque
com a Branca de Neve
me atrasaria
Fosse o que fosse
decolar pra Bangkok
fugir pra Bahia
casar com Teresa
transar com a Maria
passar férias em Marte
depor a favor da arte
tocar fogo na Academia
Hoje eu não iria
porque não posso faltar
a um encontro marcado
às seis horas da tarde
na Avenida Beira-Mar
3
Não posso faltar
diz minha moral burguesa
não posso faltar
diz o código de honra
não posso faltar
diz o relógio de pulso
não posso faltar
não posso faltar
dizem o protocolo e o livro de ponto
não posso faltar
grita alto
minha consciência:
não posso faltar
não posso faltar
não posso faltar
Desejo de saber o porquê
dos horizontes imperscrutáveis
dos vínculos indissolúveis
das filas intermináveis
dos alcoólatras irrecuperáveis
dos rostos indecifráveis
das mulheres insaciáveis
dos amores incontroláveis
dos conflitos irreversíveis
dos cumes inatingíveis
das ideias irreconciliáveis
dos poderes irrevogáveis
padrões inconspurcáveis
e depois de tudo
perguntar:
por que não posso faltar?
Vontade de tomar o trem da Refesa
o primeiro que sair da estação ferroviária
e partir rumo ao ar puro de Perizes
saber como vão as garças marrecas seriemas
(—bom-dia, senhoritas!)
E depois seguir até o final da linha
só para poder faltar
a esse compromisso
4
Vontade de seguir no barco
que segue para Alcântara
Vontade de caçar jaçanãs
em São Bento
Vontade de seguir
o primeiro impulso:
cortar os pulsos
deixar o sangue jorrar
só pra conhecer o fator rh
E por imposição testamentária
Do morto
meu corpo cheirando a perfume francês
rosas vermelhas e lágrimas de saudade
seguiria triunfalmente
(os olhos abertos)
pelas ruas da cidade
Na programação
uma modificação:
o trajeto do enterro vai se desviar
E pontualmente
às seis horas da tarde
britanicamente
às seis horas da tarde
o morto passaria
na Avenida Beira-Mar
Não para desmarcar o encontro
não para se justificar
Apenas senhores
para ver o mar

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LaudelinoHá 2 anos São Luís MaEvoé, poetas!
Marcia Rasken, editoraHá 2 anos rio de Janeiro RJPoetas Fontenele e Cassas. Nada mais regional, nada mais autêntico. Um poeta maior do Brasil, nesse ode à sua raiz, nos conduz pelas águas e matas, pelos sonhos e memórias. Que lindo: Vontade de seguir no barco que segue para Alcântara Vontade de caçar jaçanãs em São Bento.
Marcia Rasken, editoraHá 2 anos Rio@ Fonten(ele). Vontades que transcendem o tempo e o espaço, que nos levam além das fronteiras geográficas. O poeta nos convida a embarcar nessa viagem, a sentir o sol na pele, a ouvir o canto das águas, a dançar com as palavras. E assim, somos todos navegantes, todos caçadores de sonhos. Inclusive o companheiro Fontenele. Ave!
Marcia Rasken, editoraHá 2 anos Rio.As jaçanãs, com suas carcaças voadoras. Caçá-las é como buscar os segredos escondidos entre as penas, nos cantos das árvores, nas entrelinhas dos versos. E em São Bento, a cidade que pulsa com a vida, encontramos a essência da brasilidade, a fusão de culturas.
Marcia Rasken, editoraHá 2 anos Rio.##As palavras deslizam como canoas no rio, carregando consigo a essência da terra, o sabor do vento, e a melodia das aves. O poeta, com sua pena afiada, tece versos que são como folhas de palmeira, abrigando a alma do leitor. Em cada sílaba, há o eco das lendas, o murmúrio dos rios, e o perfume das flores. O sentimento de pertencimento é tão forte quanto o cheiro da terra molhada após a chuva. E na busca por Alcântara, o poeta nos convida a navegar não apenas pelas águas, mas pelas entranhas.
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