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Uma das peças mais aplaudidas da lavra de José Sarney: discurso de recepção a Nonnato Masson, na AML

Reprodução ipssis litteris.

06/03/2024 às 06h33 Atualizada em 06/03/2024 às 07h46
Por: Mhario Lincoln Fonte: José Sarney/Nonnato Masson
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Arte: MHL.
Arte: MHL.

 

RECEPÇÃO A NONATO MASSON

*José Sarney

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Academia Maranhense de Letras
São Luís, MA
24 de janeiro de 1986
Elogio acadêmico a Nonato Masson, jornalista, historiador,
cronista e poeta.


* Lido por Evandro Sarney.


Aqui chega o novo acadêmico, trazido no sopro de uma prosa viva, sopro dos ventos fartos e abertoè do litoral de Icatu, que lhe conheceram os primeiros gritos.

Esses ventos o trouxeram logo pelas águas da baía larga de um dos santos maiores do Maranhão, o padroeiro São José de Ribamar; mas aqueles ventos e águas não lhe foram muito clementes nos seus 15 dias de nascido, viagem de batizado. O santo porém salvou este novo confrade de naufrágio certo. E logo estava ele em São Luís, cercado dos sinos da igreja de São Pantaleão.

Sinos de São Luís... Esses bronzes são a alma dos sobradões antigos e povoam a infância de todos nós que vivemos naqueles tempos numa cidade pequenina, ouvindo os sons cristalinos que iam de Remédios a São Pantaleão; de Nossa Senhora das Vitórias — a Sé — à Conceição, que já não existe, que Masson freqüentou e onde ajudou padre Chaves a fazer hóstia, do Desterro à Sant'Aninha, tão pequenina e em má hora demolida, do Carmo a São João, tão perto uma da outra...

Passa-nos a seguir, na memória daqueles idos, o silêncio que nos trazia o tanger daqueles sinos. Silêncio quebrado
somente pelo carril dos bondes, poucos eram os outros veículos nestas ruelas antigas. Gritos de carroceiros, muitos; pregões de velhos jornaleiros; sineta da carroça de gelo; o grito esganiçado da vendedora de guloseimas e doçarias, pastilhas; o quase aboio dos meninos da pamonha em folha de bananeira e do manuê de fôrma das festas de São João...

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Nonnato Masson 

Esses os ruídos humanos, acadêmico Nonato Masson, da São Luís da nossa infância. Por entre esses ruídos o menino azougado de curioso, criado pelo padrinho analfabeto e uma avó dada a leituras.

Do primeiro, ouvia histórias e mais histórias. Todas inventadas, criação pura de quem jamais soube distinguir o a de um b, nem soletrar o beabá, mas dono de uma força bruta de fantasia.

Da segunda ganhava livros e mais livros, que ela lia e relia, votada e devotada a autores franceses e aos romances policiais. Tantos deste gênero que hoje deles já está saturado.

Mas junto com esse exercício, por entre os enredos e intrigas de casos policiais, houve o aguçamento do raciocínio que iria no futuro desaguar no repórter por excelência, o «policial da notícia», que você mostrou ser em O Imparcial.

Pode-se dizer, acadêmico Nonato Masson, feliz foi essa infância — e a de quantos de nós, estes cinqüentões, sessentões... — naquela São Luís de 30 e 40. Tempos do Graf Zeppelin, que tanto medo espalhou na cidadezinha cujas ruas tremiam apenas do ruído secular da carruagem de Ana Jansen tirando fogo de pedras, sepultadas hoje sob o asfalto do progresso.

O passo do Grupo Escolar Sotero dos Reis para o Liceu, então na Rua Direita, não se completou. A falta da farda impediu que essa caminhada por uma escola de nível mais elevado se concretizasse. E logo as portas dos Educandos — a escola de aprendizes artífices — deixava passar por seus umbrais um novo aluno, um pingo de gente ansioso de saber.

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Por essa época queimava a Segunda Grande Guerra nos campos da Europa, espalhando para todos os cantos o fogo dos armamentos, enquanto se construía na retaguarda a rede da confra-ofensiva. No Norte e no Nordeste do Brasil foram plantadas as bases de Val-de-Cãs, do Tirirical, do Cocorote, de Natal e do Recife.

Viram-se transportados então, para São Luís, como saídos das telas dos filmes passados no Cine-Teatro Artur Azevedo, no Éden, no Roxy, no Rival e no Olímpia, aqueles atores louros, heróicos, que nos vinham idealizados pelo cinema. O choque cultural era direto — tempos depois a resposta brasileira foi a cobra fumando, uma arma tropical e misteriosa, e logo a indomável inquietação de Nonato Masson cancelou a sua presença na construção dai base. Foi então buscar as águas da Baía de São Marcos, para, como moço de bordo, superar traumatismos de naufrágios antigos.

Mas o seu destino estava noutras bandas. Eis que, em memorável feira de amostras, que vem abalar São Luís com mercadorias e novidades do Sul, se apresenta como homem de comunicação. E a Rádio Timbira, então a única no Estado do Maranhão, lança nos ares, durante muitos anos, sua voz calorosa de temperamento aguçado para a comunicação.

Além da curiosidade, inquietação — eis um outro traço do seu temperamento. Aquela inquietação que leva a experimentar os pratos que o banquete da vida nos oferece.

É seu momento de teatro no João Paulo, junto com José Brasil.

Existe um marco importante na memória de todos nós que hoje nos reunimos aqui nesta Casa, um dos quais é o
acadêmico Nonato Masson: a nossa Biblioteca Pública. Aqui, neste prédio, nós que nos encontramos neste momento de festa, cruzamos, há 30, 40 anos, nossos passos e nossas leituras.

Os sonhos de atenienses de São Luís povoam nossas cabeças na ambição pura de repetirmos e eternizarmos em nós — e depois em nossos filhos, os quais passariam aos nossos netos e estes aos descendentes, e assim por diante —, os lauréis dos nossos antigos. As glórias do humanismo maranhense.

Superando obstáculos materiais com o talento e a criatividade do espírito, Nonato Masson venceu a esses desafios na imprensa.

E foi pelas mãos de um amigo inesquecível — Odylo Costa, filho — que Masson viajou para o Sul, aquele pólo que ainda hoje atrai tantos jovens maranhenses. E logo Masson, com Lago Burnett e Ferreira Gullar, passava pelo Jornal do Brasil como um fac totum. Foi repórter, editor, copidesque, autor da História do Jornal do Brasil, e tantas coisas mais. Uma coluna semanal, de página inteira, no «Caderno B», lhe deu notoriedade por muitos anos: era «Brasil, pra seu governo», na qual ele apresentava sempre um capítulo menos conhecido, e nem por isso menos importante ou curioso, da história nacional. Suas séries de temas biográficos, como a Vida de Lampião e Maria Bonita, apresentou por um novo ângulo esse casal lendário do cangaço.

Jornalista, historiador, cronista, poeta. Sua pena sempre esteve ao lado das boas causas. Figura na galeria dos homens que desde João Lisboa, Antônio Lopes, Joaquim Serra, passando por Agostinho Reis, Erasmo Dias, Amaral Raposo e tantos outros construíram a gloriosa imprensa
maranhense.

A Academia Maranhense de Letras recebe Nonato Masson sabendo que ele honrará seus quadros. E em nome dos meus colegas dou-lhe os votos mais fraternos de boasvindas.

 

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