
Leopoldo Vaz, da Academia Poética Brasileira, seccional MA
Porque, como afirma Jorge Dias, “(…) Nós, portugueses, estamos não nas vésperas, mas em plena fase de perdermos toda essa riqueza do passado. Se não corrermos rapidamente a salvar o que resta, seremos amargamente acusados pelos vindouros, pelo crime indesculpável de ter deixado perder o nosso património tradicional, dando mostras de absoluta incúria e ignorância. Se não o fizermos, daqui a duas gerações podemos ser um povo descaracterizado e profundamente pobre (…)”,
Folclore.PT – O Portal do Folclore Português, ponto de encontro dos Folcloristas!
Outra característica maranhense é o falar usando o pronome na segunda pessoa...
De nossa herança multirracial apresenta-se a singularidades que até hoje faz parte da história e do senso comum maranhense – o de “Atenas Brasileira” e a tradição de ser a “única capital brasileira fundada por franceses”. Representações como estas repousam no imaginário do maranhense que atribui ao uso do pronome tu com concordância o também já cristalizado discurso de que a capital maranhense “é o lugar onde melhor se fala o português” (ALVES, 2015) .
Astolfo Serra (1965) dizia que
Até hoje, o estilo do maranhense é oratório, é coimbrão. A velha cidade portuguesa enchia a cabeça dos jovens, que de lá voltavam com suas capas romanescas, suas cabeleiras empoadas, saturados de ideias revolucionárias. Toda essa geração de boêmios intelectuais deu a nossa gente “êsse” espírito de grande apego às letras e às artes. Essa tradição é o maior orgulho da terra. O maranhense sempre incha o papo quando diz: isto aqui é “Atenas Brasileira”. Existe até no homem do povo, êsse orgulhozinho cabloco.
Segundo Alves (2015) , muitos atribuem à influência francesa o fato de o maranhense conservar o pronome tu com as conjunções verbais. No entanto, historicamente o que se sabe é que a presença francesa em território maranhense não durou mais que três anos (1612-1615), limitando-se apenas à construção do marco fundador da capital que, segundo Lacroix (2004) ,
“não passou de um forte de madeira com modestas palhoças, localizadas no alto do morro. Quando da expulsão dos franceses, os portugueses construíram no local um complexo militar denominado de fortaleza de São Felipe.”
É assim que, na primeira metade do século XVII, a capital maranhense se configura como a raiz fundante da civilização amazônica que se alastrou pelo Grão-Pará e ultrapassou as fronteiras imaginárias do Tratado de Tordesilhas:
“Achando-se a Ilha sem índios e franceses” (D’EVREUX, 2002) ., a ocupação da capital toma novo rumo com a consolidação da colônia portuguesa que passa a receber “gente das ilhas açorianas” ou “casais das ilhas” (ALVES, 2010) .
É dessa forma que chegam, em solo maranhense, 95 casais e alguns solteiros totalizando 561 almas transportadas dos Açores. Aliás, os “casais das ilhas” se destacam por sua contribuição efetiva nos territórios de povoamento e colonização portuguesa, pois, além de colonizadores e militares, eram “agentes de difusão da fé cristã” e “exímios lavradores”.
Desde então, o Maranhão chegou a receber cerca de 5000 a 6000 mil indivíduos no decorrer dos séculos XVII e XVIII. Convém ressaltar que a região maranhense é considerada a primeira a receber os colonos ilhéus de forma organizada devido, em grande parte, a sua importância estratégica e econômica na região amazônica (RODRIGUES, 2008) .
Ao processo de povoamento, se junta o braço africano que aqui foi introduzido pela Companhia de Comércio do Maranhão, em 1682, com a intenção de fornecer por vinte anos escravos negros destinados à lavoura que, até então, contava com a mão de obra escrava indígena.
Temos, pois, já no início da colonização maranhense, uma sociedade mista e altamente estratificada composta por portugueses e seus imediatos, descendentes de brancos que se dividiam em nobres e cidadãos, peões ou mercadores, mecânicos, operários e trabalhadores de qualquer espécie e os de segundo plano, [composta] de infames pela raça ou crime, como cristãos-novos ou degredados, ao que somavam índios escravos ou não e uma pequena quantidade de escravos provenientes de Angola, Guiné e Cabo Verde. (MARTINS, 2002, p. 20) .
Assim, há fundamento maior em afirmar que o “tu maranhense” tem raízes lusitanas, sobretudo se considerarmos a intensa migração açoriana no decorrer dos séculos XVII e XVIII (ALVES, 2010, 2015).
É a partir do domínio português que São Luís é elevada a sede do governo com a organização do Estado do Maranhão e Grão Pará e que vê, em 1626, a criação da sua primeira escola com o objetivo de ensinar lições de catecismo aos filhos dos portugueses. A capital passa, portanto, a ser um dos oito focos irradiadores da língua portuguesa (SILVA NETO, 1963) ·
Segundo Silva Neto (1963) , os meninos luso-descendentes deram muita esperança em difundir a língua portuguesa no Maranhão e “nem podia deixar de ser assim, numa terra de tão profunda tradição portuguesa – um dos lugares onde é voz corrente que melhor se fala o português.” Tamanha “tradição” é atribuída aos açorianos que, segundo o autor, tinham “virtudes especiais” e “verdadeira nobreza”, logo, falar o português mais próximo daquele falado na metrópole dava a seus descentes motivos de orgulho.
Para Faria (2012) , eram os “filhos do reino”, os açorianos e/ou seus descendentes europeus que tentavam, a todo custo, dar ao Maranhão um “tom de civilidade e de corte”, que São Luís recebe o título de Atenas Brasileira:
A “Atenas Brasileira” era revestida por uma imagem de um mundo de luxo, hábitos refinados e erudição que as elites do Maranhão construíram para si, sempre voltadas para a Europa e de costas para a miséria em que viviam escravos, índios e livres pobres, deixados à margem do refinamento cultural ou ilusório.
Mín. 12° Máx. 17°