
JESUS DE TODOS OS SANTOS
José Claudio Pavão Santana, convidado da Academia Poética Brasileira.
Recebi, há pouco, com imenso pesar, a fatídica notícia da morte do meu amigo José de Jesus Santos.
Minha convivência com Jesus Santos é de muito tempo. Ele foi colega de Colégio Batista de meu irmão mais velho, José Newton, que morreu aos 17 anos. Foi devastador.
À época Jesus produziu um quadro de sua imagem (do meu irmão) que guardei apenas na lembrança. Mas ele também foi um dos aprendizes – dizia ele – de meu avô Newton Pavão, um tanto esquecido pelos homens que escolhem os bustos dos panteões de São Luís. Por isso, José de Jesus, sempre esteve presente em minha vida.
Passados muitos anos nos reencontramos e depois disso nosso convívio se estreitou. Sempre no restaurante Beiruth do saudoso amigo Brahim Fiquene (onde criamos a confraria “Tu quem Sabe!”, que se reunia a cada 31 de dezembro – para desespero das esposas); na padaria São José, depois no restaurante Dom José, passando pelo Rabelo e tantos outros em que um grupo de amigos se reunia. Sempre um bom papo. Inteligência irônica, perspicaz, sacadas hilárias quando oportunas e um piadista fenomenal.
O que dizer de sua arte? Bom, não sou um especialista, mas tenho memórias.
Assisti Jesus Santos desenhar à lápis, em uma mesa de fórmica, no clube Jaguarema, em presença de José Sérgio – meu irmão médico e também pintor – uma família de retirantes na paisagem da seca do Nordeste. Terminado o desenho, com aquela naturalidade do artista irreverente, ele afirmou que, se pudesse, arrancaria a fórmica. A gargalhada foi geral. Ali se perdeu um desenho, mas ganhei um registro que agora compartilho.
Mas, delirante (ou vibrante?) era, também, a obra de Jesus Santos. Não que isto reduza seu valor. Ao contrário; a arte sem um pouco de delírio é apenas uma expressão. Arte tem que gritar, mostrar ao mundo que a vida não basta, como disse o poeta Ferreira Gullart.
Mas da arte guardo de Jesus Santos um livro, em que o oferecimento vem sob a forma de um desenho de um pavão e um quadro em que o desenho se reparte ao meio, como dia e noite, no baixo meretrício. Lúdicos e quase infantis são os traços.
Muitas são as estórias que poderiam ser contadas. Dentre tantas, pelo espírito irreverente, a que mais gosto – e sempre repito – deu-se em uma Semana Santa e se passou assim.
Na época em que ainda deixávamos recados nas caixas postais de celulares, recebi uma mensagem que dizia:
– José, é Jesus. Me liga.
Por alguma razão não retornei a ligação, mas fui ao seu encontro no café da manhã do dia seguinte na padaria. Ao chegar, ouvi a cobrança:
– José, eu te liguei. Tu não retornaste.
Eu não podia perder aquela oportunidade de transformar o longo dia em mais um convívio alegre, e respondi-lhe:
– José, Sexta-Feira Santa e eu recebo uma mensagem – ele tinha uma voz cavernosa – que dizia: José, aqui é Jesus. Me liga. Já imaginou? Teu nome é José de Jesus Santos. E se fosse o verdadeiro Jesus me chamando?
Não preciso dizer que rimos muito e a piada sempre é por mim renovada quando o assunto é Jesus Santos.
Hoje quem foi chamado foi meu amigo (e por que não?) irmão José de Jesus Santos, que a outros se reúne e certamente, à mesa do Pai, chegou fazendo rabiscos, sabendo que não pode ferir o tampo da mesa. Mas nem precisa. Sua vida, aqui na terra, é uma tela viva como prova de que existe uma imensa diferença entre ser artista e fazer arte.
José. Hoje teu nome se completa na eternidade porque estás entre os Santos.
Pinto em meu peito uma lágrima, porque a arte também se faz com o coração. O meu, partido com tua partida. O teu glorificado pela eternidade.
Segue em paz. Distribui cores pelo universo. Até um dia.
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