
O Facetubes teve acesso de duas das desenas de páginas escritas por Eliezer Moreira, sobre seu amigo, artista visual Jesus Santos, falecido em 07.03.2024. abaixo, os trechos escolhidos:
Jesus Santos é um batalhador a serviço das artes do Maranhão. Sua incansável capa cidade de produzir cultura é conhecida de seus contemporâneos. Produz pintura a óleo, acrílica, monumentais painéis, murais, desenhos, gravuras, ilustrações, esculturas e arte pública em relevo. Possui vasta erudição e um espírito inquieto e crítico que não o deixa dormir nos louros do seu sucesso artístico. Como jornalista, formado com curso superior na então Escola de Administração e Comunicação do Estado do Maranhão, com extensão universitária na Universidade de São Paulo (USP), manteve uma página de crônicas em periódicos da capital maranhense, sob o codinome de Malazartes. Jesus Santos não é um copista.
Interpreta a realidade à sua maneira irreverente. Diz que do andar superior do sobrado da Rua dos Afogados, onde foi criado, ficava à espreita das pessoas que por ali transitavam e imaginava como ficariam se tivessem cabeça de pássaros, de suínos ou de equinos, presentes depois em suas obras. Sua pintura é personalíssima. Captura, como poucos, a essência dos assuntos em que trabalha. Complementou seus estudos artísticos em São Paulo e no Rio de Janeiro, na EAV, a Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Em 1979, quando o intelectual Bernardo Coelho de Almeida dirigiu o Departamento de Cultura do Maranhão, foi instalado o Centro de Artes e Comunicações Visuais do Estado-Cenarte, sob a orientação de Jesus Santos, hoje denominado Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, órgão destinado a nuclear a formação de artistas e embrião de uma futura e esperançosa Escola Superior de Artes Plásticas do Maranhão. O Cenarte permitiu a formação de novos artistas plásticos que hoje distinguem as artes do Maranhão. Nos idos de 1992, Jesus Santos elaborou projeto dispondo sobre a obrigatoriedade de instalação de obras de arte em edificações urbanas, que a então combativa vereadora Simone Macieira conseguiu transformar na Lei Municipal n 3.203/92, precariamente cumprida até hoje pelo poder municipal.
Participou com destaque, em 1994, da edição do livro Arte do Maranhão 1940-1990, que se tornou obra de referência das artes plásticas maranhenses, assim como do Guia de Pesquisa, que orientou em grande parte o projeto de elaboração daquela obra. Em 1995, na qualidade de coordenador de Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, dirigiu o Centro de Criatividade Odylo Costa, filho, que sob sua inspiração havia sido criado em 1979 com o nome de Cenarte.
Confeccionou para a Lagoa da Jansen, ponto de destaque turístico da capital maranhense, uma singular serpente com o afetivo nome de Serpente Lulu, que singra suas águas, sob a admiração dos circunstantes, inaugurada em 30 de dezembro de 2001 (a denominação "Lulu" se deve provavelmente a homenagem prestada a sua filha Luiza). Em 2005, lançou em São Paulo o livro de autoria de Enok Sacramento, intitulado O Universo Fantástico de Jesus Santos, que, com sua presença, antecedeu suas exposições de pintura em Nova York e Bogotá. A partir de 1964, entre São Luís e Salvador, ilustrou 64 capas de obras literárias, tendo iniciado com o livro O Silêncio Branco, de Fernando Braga, edições Carlos Cunha.
Mais recentemente ilustrou os livros Roteiro de São Luís, do jornalista Antonio Carlos Lima, editado em 2007; São José de Ribamar-Nossa história, nossa cultura e nossa gente, de Antonio José Ferreira Miranda, em 2009; A Tara e a Toga, do acadêmico Waldemiro Viana, em 2010; Memórias de Meu Tempo, Histórias Que Os Jornais Não Contaram (1ª edição). Maranhão Novo - A Saga de uma Geração (1 edição), em 2016, de Eliézer Moreira Filho; com a pintura Desterro à Noite, ilustrou a capa do livro Psicologia em Unidade de Terapia Intensiva Intervenções em situações de urgência subjetiva, organização Fernanda Saboya Rodrigues Almendra, edição Atheneu, Rio de Janeiro, 2018, dentre muitos outros. Pinta cotidiana e incessantemente, colocando grande parte de sua produção artística em São Paulo.
Desenvolveu um projeto intitulado Litoranearte, com o qual pretende prosseguir expondo suas esculturas em relevo nas principais avenidas da orla de São Luís, a fim de levar a arte ao cotidiano da população.
A convite do Estado, projetou o Monumento dos 400 Anos da Fundação da Cidade de São Luis, constando de três torres de 35 metros de altura cada, a ser aposto no balão da Ilhinha, na margem da Lagoa da Jansen, próximo ao bairro São Francisco e até hoje não implantado.
Seus quadros são aceitos com admiração geral, especialmente as séries que personificaram suas mais procuradas fases artísticas, como Mulhe res da Noite, Papagaios (pipas), Gaiolas, Fogareiros, Circos, Folhas e Flores, e Noturnos. Seus monumentais painéis estão presentes em órgãos públicos do Estado (Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas, Assembleia Legislativa do Estado) e suas obras são encontradas, avulsas, na maioria das secretarias estaduais e municipais de governo, nas empresas e lares maranhenses.
Um desses gigantescos painéis, intitulado - O Povo -, adorna a parede do Auditório Ferando Falcão, da Assembleia Legislativa. Ele retratou centenas de pessoas olhando vigilantemente para os deputados sentados à frente, como a lembrá-los da responsabilidade que têm em produzir saudáveis leis para a sociedade maranhense. Jesus Santos é hoje um dos mais destacados artistas plásticos do Maranhão,
Atualmente (2016), reduziu consideravel mente sua produção artística, por causa de uma enfermidade que o abateu, mas, espírito determinado, tenta voltar a pintar seus belos e aceitos quadros em acrilica.
Recentemente (2020), foi convidado a produzir oito painéis de seis metros de altura cada um deles, com o temário "Presença do Negro no Maranhão", para a Praça das Mercês, na Avenida Vitorino Freire, no pé da colina onde se situa o velho convento. É maranhense da capital, nascido em 1950. Muitas de suas obras estão catalogadas no livro Arte do Maranhão, 1940-1990, editado em 1994 pelo extinto Banco do Estado do Maranhão. O quadro intitulado 0 Conquistador foi requerido pelo artista e compositor Zeca Baleiro para servir de capa para o álbum O Amor no Caos, Volume 01, de 2019.
Outras informações sobre o artista podem ser obtidas no livro A Páscoa das Gaivotas, de Carlos Cunha, Edições Mirante, São Luís, 1987; no livro Arte Plástica no Maranhão, de 2016, edição de Eliézer Moreira Filho; no portal da internet www.artenomaranhão.com.
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Em tempo:
Temos perdido tanto.
Durante toda a minha infância me lembro que todos os sábados de manhã o portão da minha casa ficava aberta pois Jesus iria chegar e todo sábado ele estava lá, ficava no terraço conversando horas com meu pai, almoçava conosco e ficava mais um pouco, outros fins de semana íamos pra casa dele e ficávamos por lá. Não me lembro da ausência dele em encontros familiares, eventos e almoços durante a parte da minha vida que residi em São Luís.
Observava seus trejeitos, imitávamos (eu e minhas irmãs) e sabíamos que ele sempre estaria ali, sentado ao lado do meu pai contando causos, mostrando pinturas e sendo ele, um ser único.
Hoje ele partiu, não estará mais em nossos encontros mas estará sempre nas lembranças da menina que amava suas histórias, lia sua coluna no jornal, que fica horas olhando a coleção de pinturas ou admirada ao ver um pintura nova e que também é jornalista como ele foi.
Jesus deixa um vazio enorme em tantos lugares que é difícil citar.
Esse quadro (foto) ele me deu de presente e fica na sala da minha casa há muitos anos e sempre estará, aqui, assim, como nossas lembranças.
(Texto de Marcella Itapary Ribeiro Moreira).
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