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O escritor e poeta Raimundo Fontenele conta o que realmente aconteceu no show de Chico Buarque

"O Chico parou de cantar, a plateia estava petrificada e os policiais resolveram me tirar dali à força e me carregaram, eu aos pinotes...".

22/03/2024 às 09h44 Atualizada em 22/03/2024 às 18h08
Por: Mhario Lincoln Fonte: Raimundo Fontenele
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Raimundo Fontenele e cenário criado por MHL/AI
Raimundo Fontenele e cenário criado por MHL/AI

EU E O SHOW DO CHICO BUARQUE NO TEATRO ARTHUR AZEVEDO


Raimundo Fontenele*

(Do livro A REPÚBLICA DOS APICUNS - Crônicas Ludovicenses).

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Naqueles idos anos setenta a gente vivia vários momentos culturais: para uns era a época da ditadura militar, para outros foram os anos em que os militares livraram o Brasil de tornar-se uma república sindical comunista. E a terceira via era a contracultura, o movimento hippie, a libertação e liberação do corpo e da mente.


São Luís, embora de forma minúscula, reproduzia essas vertentes culturais de forma tímida, pois aqui o Sarney estava implantando sua política desenvolvimentista ao mesmo tempo em que rompia os laços do Maranhão com o vitorinismo. E era isso que a imprensa maranhense noticiava, quando não reproduzia as notícias de Rio e São Paulo sobre a luta dos que se levantaram contra o governo militar e o confrontavam.


Entre as medidas do governo militar, uma foi a criação do MOBRAL – Movimento Brasileiro de Alfabetização e, embora houvesse maior número de analfabetos percentualmente do que hoje, não existia o tal analfabeto funcional na escala e progressão geométrica que temos agora.
Eu era funcionário público, lotado na Secretaria de Educação e, por solicitação da professora Filomena Mota, Coordenadora Estadual do MOBRAL, fui cedido para o Movimento, certamente devido a minha boa redação e também não era um datilógrafo desprezível.


Deve ter sido entre 1972 e 1974, não lembro direito a data, mas o MOBRAL funcionava nessa época no Outeiro da Cruz, próximo ao Conjunto Radional, oficialmente conjunto Eney Santana.


Eu tinha indicado dois amigos para o MOBRAL: os poetas Viriato Gaspar e Valdelino Cécio e, sendo funcionário de confiança da professora Filomena, seu Chefe de Gabinete, e tendo nos tornado, mais que chefe e funcionário, amigos, prontamente ela atendeu meu pedido e contratou os dois poetas antroponautas.


Saímos eu, Viriato e Valdelino ao final do expediente daquele dia com um programa badalado na cidade: o show de Chico Buarque no Teatro Arthur Azevedo.

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Prato cheio para artistas e esquerdinhas, fãs de Chico Buarque, pois ele encarnava um dos que combatiam os militares, embora o combate dessa patota ocorresse muito mais nas mesas de bar, onde se cantava Apesar de Você, enquanto subia a fumaça dos cigarros e o vapor do álcool que se consumia.


Lá no Teatro encontramos mais gente, mais amigos, e como já tinha tomado umas e outras e fumado um baseado resolvemos que a entrada devia ser grátis. A frente do Arthur Azevedo dá pra rua do Sol ou Nina Rodrigues, tanto faz, e aí fomos pra Rua lateral, não lembro o nome, onde ficava a entrada para a coxia do teatro. Ali daquele lado tinha uma janela bastante alta.

 

"A tentiva foi descoberta". Arte: MHL/AI

A parada era a seguinte: eu ia subir no ombro de alguém e pular a janela e de lá eu ficaria acenando para os outros entrarem um por um, quando eu visse que não tinha nenhum vigia por ali. Deu certo e não deu.


No que saltei da janela para o recinto do Teatro quase caí sobre os pés de dois policiais militares que estavam rodando pelo primeiro andar. Comecei a correr ao mesmo tempo que forçava as portas dos camarotes, até encontrar uma porta aberta e o camarote vazio, fui entrando e vendo que os soldados vinham na minha cola. Fechei a porta por dentro.
E o pau rolou. O show estava no auge.


Os soldados fizeram a volta e vieram pra frente do camarote e começaram a acenar pra eu ir ter com eles, entregar-me enfim. Resolvi apelar e comecei a fazer um discurso daqueles que os grupos de esquerda faziam: “esta burguesia podre, nós o povo temos o direito de entrar no teatro sem pagar nada, a cultura e arte não podem ser privilégio de poucos”, falava aos berros.

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O Chico parou de cantar, a plateia estava petrificada e os policiais resolveram me tirar dali à força e me carregaram, eu aos pinotes, lá na saída estava a Diretora do Teatro, escritora Arlete Nogueira, minha amiga, que, dirigindo-se aos policiais, ordenou ou exigiu, sei lá, que me pusessem no chão e me soltassem enfim, o que foi feito imediatamente.


Um policial federal veio ter com Arlete argumentando que aquilo era subversão da minha parte, a Arlete contrapôs dizendo-lhe que eu era um jovem poeta, gente boa, apenas mais exaltado por conta da bebida, ela se responsabilizava por mim.
O tal agente caçador de comunistas ficou bravo, falou pra Arlete que aquilo era um desrespeito à Lei e à Ordem, e ele ia se retirar com os policiais e não atenderia mais nenhum chamado para prestar segurança no Teatro e, para grande alívio, foi o que fez e saiu bufando de raiva com seus meganhas atrás.


Nem quis saber mais de show, foi só agradecer a Arlete, atravessar a rua e ir direto para o barzinho ao lado da Faculdade de Direito onde a patota, Viriato, Valdelino, Pixixita e outros mais, me esperava para saudarem-me como herói e continuarmos naquela conversa eufórica e tomando todas.


Vieram me dizer que o Chico Buarque tinha aprovado meu tresloucado gesto, queria mesmo me conhecer e coisa e tal, mas eu esnobei o cara, nem dei bola, e continuamos nossa farra. Depois soube que após o show o Chico carregou meio mundo de gente, inclusive funcionários da limpeza, serviços gerais, do Teatro lá para uma peixaria na Praia do Araçagi, fizera uma despesa imensa e deixou a conta espetada pra ser paga pela viúva: no caso, o Governo do Estado.

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(*) Raimiundo Fontenele Nasceu em Pedreiras, MA. Tem mais de uma dúzia de livros de poesia publicados. Hippie nos anos 60, militante de esquerda nos anos 70, é um dos fundadores do Movimento Antroponáutica. Em Curitiba, foi também um dos fundadores e editores da revista de literatura e arte Outas Palavras. Exerceu cargo de Diretor do Departamento do Cultura em São Domingos – MA. Alguns dos seus livros: MarginaisA colheita do mundo Venenos. 

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Liliane PedrosaHá 2 anos São Luís MaEu ia subir no ombro de alguém e pular a janela e de lá eu ficaria acenando para os outros entrarem um por um, quando eu visse que não tinha nenhum vigia por ali. Deu certo e não deu. É pra rir ou pra chorar, meu amigo Fontenele. Claro que merecia um,a crônica. Mas pelo que eu soube, o Chico gostou muito dessa manifestação, viu?
Lindimara SaraívaHá 2 anos São Luís MAViva a poesia e a prosa. Te considero um dos melhores . Nunca envelhece. Teu texto está juvenil como sempre.
Luis Alfredo BuèresHá 2 anos Brasília DFConheci Fontenele na época do movimento Antroponáutica. Onde ele mora hoje? A última notícia que tive dele é que estava morando em Porto Alegre.
Luiz José de almeida SilvaHá 2 anos Estado de MinasA instrumentalização do caos. É isso que o Chico ajudou a construir. Morreu na contramão atrapalhando a nação.
Marcelo Gomes Shaw (Marco Shaw), poeta da escuridão. 1984Há 2 anos Floripa/SCEscrevia poesia e ainda tinha tempo pra essas peraltices, êita Fontenele.
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