
Especial: Pedro Sampaio
“Faço saber a esta nação e ao globo que a província do Ceará não mais abriga escravos.”
Esta proclamação foi feita no dia 25 de março de 1884, há exatos 140 anos, pelo ilustre médico e estadista Sátiro de Oliveira Dias (1844-1913), então governante da província do Ceará.
Quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea, que pôs fim oficialmente ao regime de trabalho escravo em todo o Brasil, o Ceará se destacou como o primeiro território brasileiro a abolir a escravidão.
Naquele memorável 25 de março, um dos mais prestigiosos teatros do Rio de Janeiro, o Polytheama Fluminense, executou pela primeira vez a marcha para orquestra Marselhesa dos Escravos, “numa celebração em homenagem ao Ceará livre” — conforme documentado pelo antigo periódico Rua do Ouvidor, em uma edição dedicada ao movimento abolicionista.
A notícia não ecoou apenas localmente. Um dos mais proeminentes nomes do movimento abolicionista, o farmacêutico e jornalista José do Patrocínio (1853-1905), encontrava-se em Paris e enviou uma missiva ao escritor Victor Hugo (1802-1885), compartilhando a novidade com ele. A resposta do francês afirmava que a iniciativa cearense era um sinal de que “a barbárie recua e a civilização avança”.
Vale destacar a luta de uma das professoras atuantes na história do abolicionista cearense: professora FRANCISCA CLOTILDE
Uma das mais importantes integrantes da luta abolicionista no Ceará é a professora Francisca Clotilde. Sua missão de educadora não se limitava apenas à sala de aula, ávida de liberdade, engaja-se no Movimento Abolicionista, tomando parte na Sociedade das Senhoras Libertadoras.
Dentre as vastas mensagens de Francisca Clotilde que marcam a participação da Mulher na luta abolicionista, o poema “A Liberdade”
Somem-se as trevas horríveis
Além desponta uma luz
É a liberdade que surge
Nos horizontes azuis.
Dos lábios puros de um mártir
Nasceu repleta de luz
Trás em seus lábios a paz
É santa... Vem de Jesus!
Tem por preceitos sublimes
O amor, a caridade
É grande, imensa, divina
Esta sublime deidade
A sua voz poderosa
Faz heróis na mocidade.
Todo aquele que a defende
Tem por templo a eternidade.
Ergue o seu braço potente
Sua bandeira hasteou
Lutando com a tirania
Foi heróica e triunfou.
Aos vis, infames negreiros
Seus nobres filhos mostrou
E o cativeiro maldito
Seus pés baqueou.
Qual a Judith da história
Que a seus irmãos libertou
Com um heroísmo sublime
A Holofernes matou
Na pátria de Tiradentes
A liberdade raiou
É grande, heróica altaneira
O cativeiro esmagou.
No Brasil, pátria de heróis
Não deve haver mais escravos
Não deve esta mancha negra
Tingir a fronte de bravos.
Ei-la oh! moços cearenses
Avante, avante, marchai
De nossa Pátria querida
O cativeiro expulsai.
Coragem ! Marchai sem medo
Unidos, vos dando as mãos
É belo dizer sorrindo:
Todos nós somos irmãos,
Tereis depois do combate
Os louros verdes da glória
Que os heróis sempre revivem
No grande livro da história.
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