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O dia em que a ficção tornou-se a mais desastrosa realidade, no lançamento de um livro

Capítulo do livro "República dos Apicuns", de Raimundo Fontenele.

10/04/2024 às 07h42 Atualizada em 10/04/2024 às 07h58
Por: Mhario Lincoln Fonte: Raimundo Fontenele
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Arte: MHL
Arte: MHL

 

O lançamento do livro "Às mãos do Dia".

Raimundo Fontenele.
 
A seguir a narração detalhada do inusitado lançamento desse livro, nas dependências da Biblioteca Pública Benedito Leite.
 

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A história é feita de fatos, episódios, circunstâncias, e mil acontecimentos distantes um do outro, mas que por esta força grandiosa que é a marcha da vida e da história se conjugam tudo e todos num momento único para deflagrar a coisa, seja revolucionária ou evolucionária, de reforma ou de acomodação. E por essa época aconteceu o lançamento do meu segundo livro individual, o "Às Mãos do Dia", que era para ser uma coisa puramente pessoal, mas acabou transcendendo o particular e inseriu-se nessa paisagem do instante que vivíamos: o golpe militar em todo o seu reinado e esplendor.


Querendo fugir daquelas noites de autógrafos costumeiras, que achávamos até enfadonhas, decidimos que o lançamento do meu livro seria diferente. Aí a gente juntaria artes plásticas e música, e lembro do César Teixeira, do Josias, do Sérgio Habibe, do Jesus Santos, do Ciro, Ambrósio Amorim, Lobato, Tácito Borralho, tanta gente.


E o lançamento aconteceu na Biblioteca Pública Benedito Leite. Na noite anterior, após tomarmos algumas cervejas, eu, Viriato, Valdelino e outros ficamos na escadaria da Biblioteca Pública conversando e só, de sarro, planejando o lançamento, e cada um saía com a ideia mais louca. Tipo: no lugar de cadeiras para as autoridades íamos colocar vasos sanitários; colocaríamos uma árvore de natal com ratos pendurados, etc.; íamos convocar mendigos, levar também os loucos da Colônia Nina Rodrigues e os despossuídos para tomarem as escadarias da Biblioteca quando as autoridades e convidados fossem chegando. Ah, e no coquetel no lugar de bebida alcoólica serviríamos leite, mas não em taças e sim em penicos. Novos, claro.


Naquele tempo a autoridade maior dos estados era sempre o militar mais graduado, no nosso caso o Comandante do 24 BC. Alguém nos ouviu falar aquelas bobagens e levou a sério. O certo é que o Governador foi acordado pelo Comandante do 24 BC que lhe ordenou visse do que se tratava pois algo de muito grave ia acontecer. Fui chamado às pressas no gabinete do Secretário de Educação (que havia permitido que eu fizesse lá na Biblioteca, órgão da SEC, o lançamento do livro), à época o saudoso Professor Luís Rêgo, um homem boníssimo. Quando entrei em seu gabinete levei um susto, pois ao seu lado estava um Major do Exército. Pálido e trêmulo, ali sentei e o professor Luís Rêgo passou a me interrogar acerca do lançamento e do que estava programado. Neguei tudo. Disse que era mentira. Jamais faríamos uma coisa daquelas e tal. Despachou-me dali, mas me recomendando prudência, e cuidado com o que ia acontecer, pois estavam de olho. Pela cara do oficial do exército nem precisava me dizer mais nada.


Pois, mais tarde enquanto estava na Biblioteca em companhia do poeta Viriato Gaspar, ultimando os preparativos do lançamento, eis que nos aparece um agente da Polícia Federal. E dirigindo-se a mim diz que estava a minha procura, e porque não mandara o livro para a Censura, e cadê o livro e tal e coisa, e nos colocou em sua viatura e fomos até onde eu residia, pegamos um exemplar do livro, e enquanto o agente o lia, o motorista nos levou até a sede da Polícia Federal, naquela época ali na Rua Grande na altura do Ginásio Costa Rodrigues.
Novo interrogatório pelo delegado de plantão. O Viriato saiu-se bem nas respostas. E quando o delegado quis saber dos mendigos (olha a subversão) que íamos levar, o Viriato disse que não tinha nada a ver, aquilo era uma peça de teatro que estávamos escrevendo e tão logo ficasse pronta levaríamos lá no Serviço de Censura. O certo é que à noite a Biblioteca lotou. Talvez até curiosos, além de meus convidados, muitas autoridades se fizeram presentes. Secretário de Educação, o Prefeito Haroldo Tavares, e lá atrás de uma daquelas colunas reconheci o agente da PF de nome Mateus, esperando que eu saísse da linha no meu discurso para me grampear.


Mas o resultado prático da repressão, que é o cerne desta pergunta, é que nós, os jovens (falo dos jovens em geral e não especificamente do nosso grupo), tomamos rumos diferentes: uns foram para o comodismo da vida privada, outros foram para luta armada, e no meu caso, no primeiro momento, abandonei tudo e embarquei numa carona com os hippies e fiquei vagando pelo país uns três a quatro meses, metido no universo da Contracultura, cujo estímulos vinham da geração beat, e era uma época rica e enriquecedora. Chegávamos ao desregramento de todos os sentidos, na vida e na arte, aquilo que o poeta Arthur Rimbaud profetizara um século antes. E a nossa geração foi importante porque abriu caminho pra todos vocês que vieram depois de nós. É o ciclo da vida, quer reconheçamos ou não. Ele existe. Ele é”.

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Raimundo Fontenele.

O Maranhão desde Gonçalves Dias deu início a uma tradição literária que continua até os dias atuais. Do Romantismo para cá apresentamos ao país e ao restante do mundo uma quantidade satisfatória de grandes literatos, para não citar outros gêneros da arte. A geração do Movimento Antroponáutica, que hoje nos parece quase esquecida pelos tais entes da cultura do Estado, possui um papel relevante, quando o assunto é a renovação dessa brilhante tradição.


Os cinco jovens poetas buscaram o espaço devido, sonharam com as mudanças e ao conseguir colocaram heroicamente seus nomes na história da arte e da cultura do Maranhão. Tudo isso num período onde a náusea artística era vista como algo peçonhento e altamente prejudicial ao poder estabelecido. 

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JaimeHá 2 anos Brasília/DFPublicação excelente, prende a nossa atenção. Parabéns!!!
LUIS AUGUSTO CASSAS DE ARAUJOHá 2 anos São Luis -MA. Morando em São Paulo.Belo depoimento, Fontenele! Os caminhos são amplos, as estradas são vastas e o mundo um palmilhar de cada qual sonhar a sua realidade no chão da vida. E caminhar. Caminhar. Caminhar. Na verdade,com a caminhada é que fomos descobrindo quem éramos, o que queríamos, a nossa vontade de ser e estar, -descobrindo que a poesia, era a nossa vida, a nossa via, nossa seiva e vinha - foi a nossa revolução mais profunda e silenciosa. Porque poesia é ascese, humidade,sacrifício,sangue e esperança. Aleluia.
Joaquim MoncksHá 2 anos Passo de Torres, SC.Maravilha, Raimundo! Bravos!Saudoso de tua presença física aqui no sul do mundo segue um abraço de urso do poetinha Moncks.
Wellson Alves de Oliveira Há 2 anos Coelho Neto- Maranhão Aquela áurea motivacional em vós e o pé na estrada conceberam todo desbravamento que pudesse existir. Vós sois os pioneiros da cultura isso sim, em paralelo com a tecnologia da informação que explode a cada segundo e que nesse momento, com certeza, pode se determinar de contracultura. Vossas lembranças,nossas saudades.
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